A Temperança, desta vez sim, a sério, pelas linhas do outro primo que agora também insiste em ser publicado (primeiro não queria), depois de lhe ter descoberto a sebenta num baú poeirento lá em casa. O primo Rigoberto estava uns anos mais adiantado que o primo Roberto, quando era miúdo queria ser poeta declamador, agora é funcionário público, não se terá perdido tudo. Fez a redacção sobre a virtude pedida pelo professor (o tal que se chamava Manuel, S qualquer coisa, confirma o primo pelo telefone), fez a redacção, dizia, com dedicatória de rimas e retrato (qualquer semelhança com a figura do primo agora será mera coincidência).
Bicho baixote e anafado,
Mais que virtude, tem pecado.
Em equilíbrio forçado sobre arame mal atado
Segura por fio otário, é ela e o seu contrário.
Quando já não pode comer mais,
pede dieta aos demais comensais.
Querem que pensem que resiste à Gula
mas se descobrem fica fula.
Mostra tensa azia e pedra calcário,
Tem mesa vazia e doces no armário.
Moderadora de debate televisivo,
Vivacidades abate sem improviso.
Chamem lá o sizo, pachorra é preciso,
Que não há paciência para mais abstinência.
Para virtude universal deixa muito a desejar,
A modéstia já lhe rança, a Temperança tem pança.

















Tão adoravelmente redondinha, a tua temperança, Teresa. Gostei muito.
Agora põe-me esse professor a andar porta fora que já ninguém o pode nem ver.
Vou ver se consigo, Manel. Mas desconfio, assim bem desconfiado, que nem ele quer ir, nem ninguém o quer mandar…
E eu muito menos!!!!
Simpática e roliça Temperança,também repleta de pecados. Assim acho impossível dissociar virtudes de pecados… Gostei muito do texto leve, criativo e divertido!!!
Caridade sua, Turmalina:) Muito obrigada, diz o primo.
Liiiiindo! Teresa, acrescentarei apenas que
A virtude da temperança
Ao contrário da justiça
Não precisa de balança
Pode sempre ser roliça
Porque nos ajuda a viver
Com siso e moderação
Impede-nos de fazer
Coisas tontas e sem razão
(como é o caso da DIETA) :)
Que acrescento a preceito, Joana! Que belo remate, muito obrigada.
(Nem o primo faria melhor:) por muito que comesse…)
Ainda bem que finalmente alguém põe a Temperança a rimar com virtude,
que a coitada já estava a ficar pelas ruas da amargura.
Coisas tontas e sem razão
E que fáceis de dizer
Mas a seguir com atenção
Nem tão fáceis de fazer…
Se é virtude a temperança
É coisa chata de seguir,
Quero saber como se alcança
Mas não quero p’ra lá ir…
Comendador Orcama,
Parece então aqui criado o Clube dos Poetas Vivos!
O primo Rigoberto é que já se está a sentir inseguro das suas capacidades rimatórias…
Quanto ao resto, parece-me ter Vxa. carradas de razão.
O pecado sempre foi mais saboroso. As virtudes são tão politicamente correctas que facilmente enfadam. Só de se falar nelas…
«Gourmand, ton vice au moins n’est à d’autres mortel,
Celui-lá s’enrichit même qui l’alimente:
Pour toi la République a droit d’ être clémente:
Pour maître tu n’admets que le maître d’hôtel.»
Pontsevrez, ‘Les Coeurs’ (Couer Gourmand)