A Tempegança

          Não, não é engano ou gralha, nem gansa, foi mesmo assim que encontrei escrita a palavra, por alguém que não embirra com a temperança tanto como eu. Por absoluto acaso, num baú poeirento descobri umas sebentas de escola primária, com umas redacções de uns primos que vêm mesmo a calhar. Parece que tinham um professor que lhes dava umas redacções muito chatas para fazer sobre pecados e virtudes. Desconfio que se chamava Manuel, o professor, mas não quero estar a levantar falsos testemunhos.

A letra do primo Roberto é um pouco díficil de perceber, deixo aqui uma transcrição:

                                          Guedacção:  A Tempegança

A Tempegança é quando é dia de tempegague a gança. Eu gosto muinto. A minha mãe bótale muinta aguaguedente pela guela abaixo comá ti Custóida faz aos piguns e depois a minha mãe bota muintas coisas na panela com a gança depenada embaixo e batatas também e a gente depois come tudo e vinga-se da gança que ela também nos comia o bolicao e bicava-nos e tudo.

Comentários a “A Tempegança” (10)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Adorei!

  2. Vasco Grilo diz:

    Poguetentoso este texto Teguesa!! Gostei muinto mesmo! Paguabéns ao pguimo Gobegueto!

  3. Teresa Conceição diz:

    Ena, que fixe! Vou já dizer ao primo Roberto que gostaram.

    O pior é que o outro primo agora vai ficar com inveja, aposto que vai insistir para que eu publique a redacção dele, que é um pouco mais presunçosa, mas não foi sobre isso que ele escreveu.

  4. António Eça diz:

    Pguimeigo pensei que ega ganza — em mal escguito. Mas depois guecuguedei-me do Gonçalo Gaguett da minha infância, na Pgaia da Gueganja, e fez-se logo a luz.
    Muito gigo.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Redacção para 20 valores. E isto só lá vai com professores assim, chatos como a potassa!

    • teresa conceição diz:

      Manel,
      assim vai fazer com que eu entre em despesas.
      Já não me basta um primo babado, ainda por cima vou ter que lhe pagar um almocinho ou parecido, que ele é mais de Gula que outra coisa…

  6. Joana Vasconcelos diz:

    Telesa, o que eu li quando li a ligolosa ledacção do plimo Lobelto! Agola vou lel o outlo, o do goldinho. Adolei este!

    PS — Coitado do poble plimo, o plofessol ela hollivelmente abolecido!

  7. Orcama diz:

    No meu tempo… as redacções acabavam muitas vezes assim: eu gosto muito da tempegança… (a malta já estava farta de escrever e, para jogar à bola e banho de mangueira, não havia temperança nenhuma… O plofessole que o diga.)

    • teresa conceição diz:

      Era no seu tempo e noutros também. O meu primo é que resolveu intercalar a frase e colocou-a antes, o parvo.
      Mas agora não faço por menos: eu gosto muito dos seus comentários.

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