
Ponto prévio: independentemente da opinião que tenha sobre o assunto (que não é para aqui chamada), nada me move contra quem procure sensibilizar a opinião pública para a abertura legal da adopção a casais homossexuais. Ainda que para tal recorra a campanhas publicitárias.
Mas, ou eu percebi mal, ou este cartaz da responsabilidade da ILGA (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero) que vos deixo acima — com a imagem de uma criança nos braços da mãe acompanhada pela pergunta “Se a tua mãe fosse lésbica, mudava alguma coisa?” – está a interpelar directamente a criança, ou melhor todas as crianças do país que saibam ler, mesmo que nenhuma noção tenham sobre o significado da palavra “lésbica” ou sobre o objectivo que a pergunta esconde? Ou eu percebi mal ou o que o cartaz pretende é levar crianças que mal saibam articular duas palavras a questionarem as suas mães sobre a resposta a dar à pergunta? E levar as mães atarantadas a inventarem o que lhes vier à cabeça só para não terem de explicar, logo ali, a uma criança de 6, 8 ou 10 anos, o que é ser lésbica, gay ou transgender, e o que é ter duas mães ou dois pais em vez de um pai e uma mãe? Acabando, porventura, a desvalorizar a questão perante o filho e por lhe criar a convicção — ainda naquele estado muito embrionário de convicção que ele terá mas nem por isso com menor capacidade de subliminar e imperceptivelmente lhe determinar as opções do futuro — que aquele “se” e aquele “mudava alguma coisa” pouco importância têm e que é absolutamente indiferente que a mãe seja lésbica, o pai gay, que tenha duas mães e nenhum pai ou dois pais e nenhuma mãe, como a mesma leveza com que pode ser indiferente que o pai ou a mãe prefiram batatas fritas a arroz como acompanhamento do bife?
Ou eu percebi mesmo mal ou o que esta campanha faz é recorrer a um truque grosseiro de manipulação emocional para conseguir os seus intentos. Trata as crianças como adultos quando sabe que elas não o são, dá-lhes a capacidade de entendimento que sabe que elas não têm. Finge ignorar a situação de inferioridade em que as crianças se encontram — e que a lei e a Constituição tutelam em sua protecção — para a explorar e dela tirar partido sob a mentirosa veste do “politicamente correcto”.
Se o empenho da ILGA na mudança de mentalidades é louvável, não será certamente com manhas destas que lá chegará. Muito pelo contrário, se continuar a entender – como aqui o entendeu – que os fins, por mais meritórios que sejam, justificam todos os meios, corre o risco de se descredibilizar e de contribuir para um passo atrás numa discussão que se quer leal, saudável e plural.

















Subscrevo inteiramente. Mais uma demonstração de um tipo de complexo de iluminação intelectual de que tantas destas associações, por todo o mundo, parecem por vezes padecer. Como costuma dizer um amigo meu, não tenho nada contra a homosexualidade desde que não se torne obrigatória. Devo confessar que este tipo de marketing que torna a discussão do tema uma obrigatoriedade sem forma nem lugar é coisa que me aborrece. Gay ou não gay, é sobretudo mau marketing em relação ao produto que se quer vender e às audiencias a que se pretende chegar.
Acho mesmo que podiam ter ido mais longe ao imprimir no rodapé:
(aconselhamos-te que respondas que não, senão ela zanga-se! E olha que com uma mãe lésbica zangada muita coisa muda!)
Subscrevendo as razoabilíssimas interrogações do Diogo, acrescento que a resposta à pergunta do cartaz só pode ser, mesmo para uma criança de 10 anos (e sobretudo para uma criança de 10 anos): “Sim, mudava”. Na escola, com os amigos (e se os amigos da Escola podem ser cruéis), no tratamento de muitos professores, no autocarro, no merceeiro. Até no quarto sozinho, quando um miúdo de comparar as coisas do mundo, se põe a pensar. “Sim, mudava, muda quase tudo, mamã. Apesar do caloroso abraço que me dás, apesar do teu mais desvelado amor de cada minuto, quando saio à rua, quando me deixas ficar um bocadinho só, tenho mais um combate a travar cada dia.“
E note-se que nem estou a falar de Herr Sigmund Freud, que deve andar às voltas no túmulo com as ameaças ao seu tão científico complexo de Édipo: já um miúdo não pode matar decentemente o pai, é o que é.
O que o Manuel escreveu é bem possível.
Mais uma questão a encalacrar pais e avós.(5 anos.Passa um filme por acaso.“Avó ‚o que é que aquele senhor está a fazer em cima daquela senhora?“Repentinamente,muda a cena.Avó sortuda.“Não sei André,não vi”)
Claro que mudava. Mudava muito, pelas razões que o MSF aponta. E só a admissão honesta e frontal desse mesmo facto é que permitirá o debate sério da questão do eventual alargamento da adopção a casais homossexuais, bem como a adequada abordagem, na perspectiva do “superior interesse da criança” desta e doutras questões, como as relacionadas com v.g. a assunção superveniente da sua homossexualidade por parte do pai ou da mãe.
De entre as muitas coisas que me maravilham nas crianças, fascina-me a sua fabulosa resiliência. A capacidade de resistir e de crescer bem a partir das situações mais inesperadas, dolorosas, às vezes dificilmente compreensíveis e até brutais. Que também abrange outras situações, como aquelas a que se referem o cartaz e o texto do Diogo, que as tornam diferentes do grupo, dos amigos, do padrão, e que por isso são muito difíceis de gerir. Mas tudo isto supõe que os adultos cumpram o seu papel — encarando lucidamente as realidades como elas são, sendo sempre verdadeiros consigo próprios e com as crianças, dando-lhes todas as explicações e respostas que se impõem e, claro, o suporte, a protecção e as defesas de que elas muito precisam… Por isso o amor de mãe (ou de pai) é tão trabalhoso…
Diogo, e eu percebi mal ou aquilo ali no rodapé do cartaz é o logotipo da CML?
Perfeito, Manuel! Eu não me expressaria melhor.
Quando li o cartaz tive a mesma resposta mental: Sim , mudava.
E na prática a criança trava um combate diário, isso quando não inventa uma outra realidade, que lhe seja menos dolorosa, que faça com que não sinta tão diferente dos outros.
Eu apoio a união de sexuais principalmente para garantir-lhes direitos legais.E também porque a sociedade não pode fazer de conta que eles não existem.Já existem pessoas invisíveis demais. Mas envolver uma criança na polêmica e ainda por cima tentar atribuir-lhe qualquer responsabilidade na decisão, é imoral.
O papel da sociedade, que eu saiba é o de cuidar da criança, tanto física como emocionalmente, para que tenha condições de se tornar um adulto saudável, independentemente da opção sexual que “virá” a ter, na hora e idade certa para isso. E nesse processo alguns questionamentos podem ficar para mais tarde. Aqui o texto do Diogo é bem claro.
Joana, seu comentário completa o meu :o)
Já foi tudo dito. É óbvio que mudava, e muito. Agora aquele pormenor do patrocínio da CML é talvez o mais idiota disto tudo porque demonstra o aproveitamento intencional, político, da questsão.
Nunca tive nada contra a homossexualidade, mas este tipo de manobras é capaz de me fazer mudar de opiião. Os Ilgas deveriam pensar que certamente não sou caso único.
Intervenção útil, Diogo.
Não mudava RIGOROSAMENTE nada.
Atente-se no cartaz, sim? O que ali, iconicamente, se questiona, é se AMOR de MÃE seria diferente se esta fosse lésbica.
E não seria, como não é.
Ninguém está a pedir ‘decisão’ nenhuma a criança alguma: está a afirmar-se, e de pleno direito, que amor de Mãe é amor de Mãe. e que toda e qualquer criança sabe e sente isso, seja qual for a orientação sexual que a sua Mãe tenha ou tenha decidido tomar.
Porque Mãe trata «de cuidar da criança, tanto física como emocionalmente, para que tenha condições de se tornar um adulto saudável.» Se for uma verdadeira Mãe que ama os seus filhos, é isso que fará. Ser hetero, lésbica ou bissexual não garante, como não inibe, tal amor. Se a Mãe for uma boa Mãe, sê-lo-á sempre, independentemente da sua orientação sexual.
É também essa a mensagem do cartaz.
‘Mais um combate a travar todos os dias’? Que todos os combates fossem como esse. Mãe que viva com tranquilidade e naturalidade a sua orientação lésbica, transmitirá essas mesmas tranquilidade e naturalidade ao seu filho. Desde que a Mãe não tenha sentimentos de culpa, também a criança não os terá. E tal como — consoante for ensinado a defender-se das crueldades dos seus coleguinhas — o filho leva tudo à batatada ou exprime o seu desprezo ignorando com indiferença quem o aborreça, seja porque usa óculos, é gordo, é marrão, tem o hábito da leitura, não usa calças de marca nem tem computador ou seja qual for o motivo pelo qual seja gozado pelos seus pares, a sua Mãe ser lésbica não será mais do que algo colocado ao mesmo nível.
Sinceramente, parece-me, seja pelo post seja pelos comentários, que os adultos é que têm dificuldade em responder à questão, sem manifestação de preconceito. Invocar o superior interesse da criança é, desde logo, não entender que o superior interesse da criança é ter uma Mãe que o ame.
Tal como o cartaz da ILGA afirma.
(sabem outra coisa? há muito mais fantasmas na cabeça dos hetero do que os que existem naqueles que têm que ter o seu amor escondido. o que não deixa de ser paradoxal.)
único ponto de relativo acordo — poderá ser complicado ter que explicar a uma criança que passe pelo cartaz qual o significado da pergunta. mas, quanto a isso, cada Pai/Mãe decidirá o que esclarecer ou não. porque, em definitivo, a questão que ali é colocada não é dirigida às crianças, mas sim aos adultos.
por estas reacções a ela, parece-me muito oportuna. :-)
Cara Sem-se-ver,
Calma lá. Garanto-lhe que não vim para a bloga resolver problemas da minha participação cívica. Ando por cá pelo prazer de me sentar à mesa do café com estas minhas amigas e amigos e com quem mais aparecer. Seja, por isso, bem vinda. Mas já que estamos a conversar sobre este cartaz, quero dizer-lhe que discordo vivamente de si em dois pontos:
1. Se o cartaz é o que diz — que se refere SÓ ao amor de mãe -, deixe-me que lhe diga que ele é de uma auto-descriminação que os autores, de forma provavelmente involuntária, não pensaram. Por que raio é que uma mãe lésbica não havia de amar estremecida, comovida e corajosamente os filhos?! Por que raio é que um pai refinadamente homossexual não há-de amar com amor canino e devoto os filhos que por acaso um dia tenha feito?! Diria que colocar a questão dessa maneira me faz lembrar a conversa dos mais reaccionários colonos (às vezes tão boa gente) que conheci e que diziam “apesar de ser preto é muito boa pessoa”. Espero, por isso, sinceramente, que a intenção dos promotores do cartaz tenha sido outra.
2. Não me venha com a conversa do preconceito que me desafina todo. Se se faz um cartaz é porque se pensa que há pessoas que pensam de maneira diferente, mas que há boaz razões — uma racionalidade substancial e sustentada — para estabelecer um diálogo com essas outras pessoas. O diálogo é isto, é eu poder dizer aos promotores da iniciativa que tenho esta ou aquela reserva e a conversa continuar. Não estando nem um mílímetro de acordo consigo, não me verá chamar nomes às suas razões. Porque eu quero que pense, que continue a pensar, com as suas razões e com inteligência. Faça o mesmo comigo. Não utilize termos como “preconceito”, “fantasma hetero” e outros mimos para me assustar (sim, é verdade, as pessoas assustam-se: neste caso, com medo de que lhes chamem machista; na mesa da cervejaria com medo que os mimem como bichas ou fufas; numa reunião de empresários com medo de que lhes chamem comuna ou afim).
Conversar é conversar e não ajuizar apressadamente como no seu delírio em que já vê mais fantasmas “na cabeça de um hetero” do que na dos que “têm o seu amor escondido”. Como é que chegou a essa conclusão? Foi através do Instituto Nacional de Estatística?
Agradeço-lhe o comentário e não me leve a mal a expansividade, mas hoje estou para desabafar.
porque os últimos — a quem consagro resposta — são os primeiros — que reagiram ao meu comentário:
1. estava e mantenho-me calmíssima.
2. onde encontrou nas minhas palavras algum recado, para si ou qualquer outro, quanto à sua participação cívica?
3. embora: não vem? que pena. é um óptimo local para a praticar :-) e ainda: não vem? então não se pronuncie sobre assuntos dela, limite-se a comer uns amendoins e a falar de futebol por aqui ;-)
4. não faço ideia quem sejam os autores do cartaz, e, lá está, como em tudo na vida, surge e ei-lo, disponível para interpretação. mas a minha diverge da sua. creio que a intenção dos autores foi a que eu referi (há que estabelecer limites à interpretação que façamos das realidades disponíveis para análise, sob pena de virmos a falar de batatas quando são as borboletas que estão em discussão): basta olhar para o cartaz, imagem e pergunta. nada mais do que isso, não mais do que isso.
porque, sabe?, ms, há muita (não boa) gente que considera que amor de mae ou pai homossexual não são sequer amor; e que lésbica e gays não devem sequer ter filhos, e muito menos adoptá-los; porque são uns depravados e porcos e doentes que sabe-se lá o que fariam à frente dos filhos e sabe-se lá se, de passagem, não abusariam deles.
não sabe, ms, que há muita, demasiada gente a pensar assim?
não acredito que não saiba.
ora, o cartaz é, em minha opinião, dirigido ESPECIALMENTE a essas pessoas. para ver se alguma corda toca naquelas cabeças preconceituadas. se por um segundo ficarão a pensar que, talvez, amor de Mãe seja amor de Mãe. e tão-só isso.
5. upsss… desafinei-o e não tenho como afiná-lo de volta, que vc foi dar o seu mergulhozito no mar. a ver se esta minha resposta será suficiente:
a) reafirmo (desculpe lá): parece haver dificuldade de resposta à questao do cartaz sem manifestação de preconceito — o que considera que homossexuais não são os primeiros a ter absoluta consciencia das dificuldades que a sua orientação provoca na sua vida diária e na dos seus filhos. tendo em conta que a autoria do cartaz é da ilga, as vossas reacções são uma acusação de inconsciencia às pessoas que o elaboraram, e a todos os que, como eu, entendem a sua pergunta, directa e frontal, como uma vivência indesmentível; não, não muda nada. o preconceito está aí, caro ms, não na minha assumpção de que vocês sejam todos homofóbicos!, mas sim que tiveram uma manifestação de preconceito quando se poem todos a lamentar pelas batalhas diarias das crianças, como se não fossem os pais homossexuais os primeiros a sabê-lo e vivê-lo!
b) ‘mais fantasmas hetero do que nas cabeças etc etc’. reafirmo. fantasmas = fantasias. hetero = de quem não vive relações, de amor e de parentalidade, homossexuais. fantasmas hetero = que as crianças saem prejudicadas e sofrerão horrores e esgotar-se-ão em batalhas quotidianas (principalmente as que travam quando a Mãe lhes deu o beijo de boa noite e saiu do quarto onde ficam sozinhos com a sua angústia) se forem filhas de mãe ou pai homossexual.
desc, ms, mas aquele seu pedacito a bold bole com os nervos de qualquer um: que manipulação do leitor, que estratégia pouco honesta, que injustiça para com os pais homossexuais! como se estes não dominassem a dificuldade que a sua condição implica, e que aos seus respectivos filhos, coitaditos, não restasse senão largar lágrimas grossas e quentes porque, lá está, sempre que ‘abandonados à sua sorte’ se encontrariam sozinhos a travar duras batalhas!
tenho 1 observação e 1 pergunta finais para si:
observação — «O diálogo é isto, é eu poder dizer aos promotores da iniciativa que tenho esta ou aquela reserva e a conversa continuar.» completamente de acordo. por isso mesmo, peço desc se o ofendi — sinceramente não era o meu proposito, nem quanto a si nem quanto a nenhum dos restantes -, as minhas reservas foram expostas, com frontalidade e dando-lhes os nomes — os adjectivos — que existem para ser usados, se pretendemos ser honestos. vi manifestação de preconceito e existência de fantasmas hetero, disse-o. pediu-me explicações, dei-lhas. e assim continuaremos a conversar, se desejar.
1 pergunta (que não é só para si) -
ok, segundo vocês muda.
ok.
and?
melhor dito:
and.….??
poderiam responder-me? poruqe sinto que há muito, para além da vossa resposta (muda), que aqui falaram.
muda. ok. e então? e portanto?… qual a consequencia? o que se retira, segundo si, segundo vós, do facto de (segundo vós) mudar alguma coisa? que implicaçoes tem? o que resulta, o que acontece?
IMENSA curiosidade pela sua/vossas resposta/a.
:-)
e sem problema: tb sou expansiva, quando me apraz.
Estimada Sem-se-ver
Foi suficientemente expansiva o que muito me apraz. Esclareceu-me quanto baste. Sobre mim e os meus dúbios sentimentos, não conseguirei, infelizmente, dizer-lhe mais do que acima já tinha dito. De resto, continuarei por aqui a blogar, de vez em quando também a escrever sobre futebol como me sugere. Só não percebi, garanto, a embirração com os amendoins.
eu adoro amendoins… :-)
Prezada Sem-se-ver,
Compreendo e respeito a sua colocação, concordo que uma mãe preparada tem condições de “cuidar da criança, tanto física como emocionalmente, para que tenha condições de se tornar um adulto saudável”. Mas explico agora porque eu acho que mudaria sim, “ao olhar de uma criança. “
Quando li o post pensei imediatamente no meu filho. Automaticamente fiz uma associação com a minha realidade.Se aos 7,8,9 ou 10 anos ele lesse um cartaz aonde estivesse escrito: “Se tua mãe fosse adotiva, mudaria alguma coisa?“A resposta seria : Sim, mudaria.
Porque por mais amor que ele recebesse e por melhor que eu fosse como mãe, dentro dele era dificíl compreender, afinal é algo muito subjetivo, que eu era sua mãe, embora não tenha nascido de mim, como os demais coleguinhas da classe. Ele se irritava com o importância que a escola dava à sua descendência.Ele tinha que explicar, todo início de ano, que ele tinha duas mãe, uma negra e biológica(que ele não conhecia) e uma branca e adotiva (que o criava e o amava).E as crianças não perdoam justamente porque não compreendem porque existem as diferenças.
Era sim um combate qua se que diário no princípio do processo de aprendizagem, quando as crianças estão tentando entender quem são elas e de onde vieram.Ele mesmo, emocionalmente e afetivamente não tinha certeza de quem era sua mãe de verdade.Por muito tempo convivi com a sombra da outra mãe, por quem ele nutria um sentimento que ele não conseguia definir.
Depois de passados uns 5 , 6 anos, as coisas mudaram. Com o tempo ele amadureceu emocionalmente para que pudéssemos conversar sobre o assunto e hoje ele diz e sente que tem uma mãe só. E somente agora é que ele tem capacidade de enfrentar a escola, os colegas ou quem mais vier questioná-lo.
A minha reação às palavras do Diogo foram extremamente pessoais e inclusive é saudável que outras pessoas interpretem o texto de outra forma :o)
Cara Turmalina,
todo o meu respeito pelo seu testemunho. Sei, e também por experiência familiar própria, a complexidade envolvida na adopção de crianças. Mesmo que não soubesse nada disto, o respeito seria o mesmo.
todavia, o que não consigo compreender foi a sua primeira reacção, onde escreveu «Mas envolver uma criança na polêmica e ainda por cima tentar atribuir-lhe qualquer responsabilidade na decisão, é imoral.» porque ninguem está a envolver criança nenhuma em polémica nenhuma, e muito menos alguém está a atribuir-lhe qualquer responsabilidade na decisão.
(aliás, de que decisão fala? qual a que está em lide? escapa-se-me por completo)
amor de Mãe é amor de Mãe, seja ela homosexual ou adoptiva.
não concordamos neste ponto?
se sim, então discordaremos nesta sua reacção: não, não muda nada. mudam as circunstancias, que são à partida mais dificeis, mas não o tipo, a qualidade e a profundidade do afecto.
e é sobre ele que o cartaz fala.
Cara Sem-se-ver
Toda questão sempre tem duas versões.
Minha primeira reação foi à partir da versão do Diogo sobre um cartaz que traz uma pergunta e uma criança em primeiro plano. No cinema, e acredito que na fotografia também, quando queremos destacar um personagem,dar ênfase à ele, o colocamos em primeiro plano. Portanto, se esta pergunta fosse feita mesmo para uma criança, o que considero um tanto idiota, eu continuaria dizendo que a criança não tem nada à ver com a decisão ou opção sexual da mãe ou pai.Talvez eu não tenha me expressado direito.Por que me parece que existe uma polêmica aí em Portugal sobre o casamento entre homossexuais.E era à isso que me referia.
Partindo da sua versão, que o cartaz é direcionado à adultos, é claro que o amor de mãe independe da opção sexual.Até mesmo o do pai, seja ele hetero ou homo.Amor é a melhor resposta sempre, em todas as situações.
E concordo plenamente com você que o que mudam são as circunstâncias. E lhe agradeço por ter me mostrado uma segunda versão possível.
Um bom domingo, com muito afeto, para vc tb :o)
Diogo, parece que estamos todos de acordo, inclusive este nosso úlimo, comentador, com o facto de esta ser uma pergunta que se deve pôr aos adultos — e não às crianças.
Também julgo que deveremos estar de acordo, como bem diz o Pedro, com o facto de, estando esta questão, neste momento, a ser politicamente discutida, não dever a Câmara Municipal de Lisboa endossar e promover uma determinada opinião. Que o fizesse um partido político, neste caso o PS, achá-lo-ia muito bem. A CML não.
Por último, como muito bem diz o Manuel, a resposta, se for séria, terá sempre que ser sim. Porque uma coisa é uma lésbica ter a mesma dignidade, enquanto pessoa, que uma não lésbica, coisa com o que julgo todos concordamos e pelo qual devemos estar dispostos a lutar. Outra coisa é pretender que isso é uma coisa indiferente, o que, por não ser verdade, acabará por nos levar por caminhos errados, não servindo, em última análise, a ninguém.
“— E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?“
João Cabral de Melo Neto in Morte e vida Severina
E este filho, foi adoptado ou foi parido?
E porque será ele a ter que responder e correr atrás do prejuízo?
Obrigado Diogo Leote por ter colocado a questão com frontalidade.
Obrigado Manuel “Sisório” Fonseca pela inteligência do comentário.
Obrigado a ambos pelo desassombro. Revejo-me no que escreveram, e no comentário do amigo de Vasco Grilo.
comentadorA :-)
«Outra coisa é pretender que isso é uma coisa indiferente, o que, por não ser verdade, acabará por nos levar por caminhos errados, não servindo, em última análise, a ninguém.»
Desculpe: é verdade que é uma coisa indiferente. total, absoluta e completamente indiferente. porque se fala de amor de Mãe.
(caramba, está a ser difícil… focus, please, focus!!)
Focus, please! Você acha indiferente — lá terá as suas razões, e tem certamente esse direito.
Mais nada.
Pessoalmente — ou seja, subjectivamente — mas apoiado no que já assisti, com a proximidade que permite diálogo, sei que pode não ser fundamental, matéria de ruptura ou de discussão radicalizada; mas também sei que não é «total, absoluta e completamente indiferente».
Pessoalmente também, considero este cartaz um apelo pindérico a certas formas de chantagem emocional.
que interessante ponto de vista… chantagem emocional? de quem para com quem? importava-se de esclarecer?
Cara comentadorA sem-se-ver. Julgo estar bastante focado. Aliás, a defesa que aqui está em causa é justamente a da diferença, pela qual, como lhe disse, tanto em geral como neste caso particular, também eu estou disposto a lutar. A indiferença, porém, desculpar-me-á, mas não me move.
desculpe discordar — não está focado porque, tal como todos os outros comentadores, tergiversou em relação ao TEMA do cartaz, o qual, repito, é:
juntamente com uma foto de AFECTO entre uma senhora e uma criança, é colocada uma pergunta que explicita a relação familiar que ali ocorre — é uma mãe e o seu filho.
até aqui, estamos de acordo?
seguidamente, analisemos a pergunta, tendo em conta este contexto.
‘se a tua mãe fosse lésbica, mudava alguma coisa?’
tendo nós concordado que são mãe e filho, e que a imagem revela o afecto existente entre ambos, então, donde, logo, portanto, por conseguinte, a pergunta é sobre o TEMA do cartaz: o amor entre Mãe e filho/s.
pergunta-se, assim, se uma mãe ser homossexual — ou hetero, bi, feia, alta, magra, obesa, desdentada, lindíssima, professora, médica, empregada de limpeza, ministra (bem, já terá percebido o meu ponto) — muda alguma coisa no TEMA do cartaz — o amor que ela sente pelo seu filho e dá ao seu filho.
resposta:
não, não muda.
por isso, é TOTAL, ABSOLUTA E COMPLETAMENTE indiferente ela ser homossexual — ou hetero, bi, feia, alta, magra, obesa, desdentada, lindíssima, professora, médica, empregada de limpeza, ministra (bem, já terá percebido o meu ponto).
focado agora?
Prezada Sem-Se-Ver, hesitei antes de lhe responder perante o grande número de respostas que enquanto me desliguei e liguei lhe foram sendo dirigidas.
Mas porque no seu primeiro comentário se referiu à invocação do superior interesse da criança como evidência de incompreensão de que esse mesmo interesse passa por a criança ter uma Mãe que a ame e por ter sido justamente eu que, no meu comentário ao texto do Diogo, usei tal expressão, não posso deixar de o fazer.
É evidentemente inquestionável, para nós duas, como para todos os que hoje aqui se exprimiram sobre o texto acima, que o melhor interesse da criança passa por ter quem a ame –Mãe e Pai, biológicos ou adoptivos.
Mas o amor de Mãe de que fala – e do qual me permito invocar algum saber de experiência feito – é, tem de ser, um amor adulto, responsável, maduro. Que por muito que nos plenifique e realize a nós, tem como critério primeiro o tal superior interesse da criança. E este, não raro, exige que ponhamos de lado orgulhos, ressentimentos e mágoas e que tomemos simplesmente a atitude que é objectiva e racionalmente boa para os nossos filhos. Creio que qualquer um de nós que por aqui andou hoje assistiu a (ou pior, passou por) divórcios amargos, às vezes brutais, em que chega um momento em que é preciso transformar as armas em arados e construir – não já a vida que se desejou, mas o futuro das crianças envolvidas, exclusivamente no interesse delas.
Ora, nos casos que motivam toda esta discussão, creio que o superior interesse da criança exige antes de mais que adulta e lucidamente se reconheça que não basta que a mãe ou o pai homossexuais (biológicos ou adoptantes) as amam e muito, com certeza. É crucial a frontalidade e a honestidade de reconhecer que a situação dessas crianças será sempre diferente, porventura gerará estranhezas, comentários, resistências. E que só partindo desse princípio – e não looking the other way, como me parece fazer o cartaz da polémica — se poderá ajudar tais crianças a beneficiar desse amor, sem, de caminho, sofrerem e no limite serem destruídas ante a mera constatação da sua própria diferença, para não falar já do mundo à sua volta, que pode ser bem cruel.
Esta a discussão ou o debate que eu gostaria de ver feita nos próximos tempos.
Cara Joana,
obrigada pela sua resposta.
Looking the other way? Percebo o seu raciocínio. Contudo, não me parece ser esse o propósito do cartaz.
Ouça (com a devida vénia a Paulo Portas):
Para uma mãe ou um pai homossexuais não haverá nunca maneira de ‘look the other way’, porque eles estão confrontados com ‘every way’ no seu dia-a-dia com os seus filhos.
A cada um, segundo os seus princípios e consideração do que seja melhor para o seu filho, a forma de abordar — ou de omitir — a questão da orientação sexual do progenitor. Nisso ‘não me meto’, como não ‘me meteria’ no caso de pais com filhos adoptivos. Penso que a política da verdade e honestidade é a que colhe sempre os melhores frutos, mas, repito, dada a delicadza da situação, entrego por completo aos pais a decisão do que fazer e como fazer.
Surge-me como desagradável, quase cruel, enviar-se aos pais homossexuais a mensagem contida nos vossos comentários — vocês são uma cambada de irresponsáveis e inconscientes que não têm em conta o sofrimento (as batalhas, como diria msfonseca) que os vossos filhos irão sentir dada a vossa orientação sexual. Como se os pais homossexuais não fossem os primeiros a sabê-lo e a ter que proteger os seus filhos, da melhor maneira que puderem! E, neste aspecto, parece-me quase ofensivo o teor das vossas reacções.
Percebe-me?…
Acrescente-se então ‘homossexuais ou heterossexuais’ no final da sua frase, e a discussão terminará: «o melhor interesse da criança passa por ter quem a ame –Mãe e Pai, biológicos ou adoptivos.» Não concorda? :-)
Prezada sem-se-ver, creio que no essencial estamos de acordo. Já ontem o achara.
Só achei e acho injusto que faça uma leitura dos nossos comentários que manifestamente extravasa o seu objecto — TODOS ELES, TAL COMO O TEXTO DO DIOGO, SE REFERIAM UNICAMENTE AO CARTAZ E ÀQUILO QUE DELE SE PODE RETIRAR.
Peço-lhe que nos faça a justiça de reconhecer que ninguém aqui exprimiu qualquer depreciação quanto às intenções e capacidades dos pais homossexuais quanto aos seus filhos, nem sequer sugeriu ligeireza ou irresponsabilidade no modo como os mesmos vivem e lidam com esta questão. Logo, que os nossos comentários não são de considerar ofensivos.
Quanto ao acrescento que me sugere, só não está lá expresso porque aquele trecho se referia especificamente aos pais em tal situação. Mas creio que essa sua conclusão resulta da totalidade dos meus dois comentários — se bem que temperada com as reservas e advertências que formulei e mantenho e que, se ler com cuidado, verá que são dirigidas à generalidade dos adultos…
Oh, caríssima,
alguns aqui exprimiram, e bastante, depreciação. por isso me meti nesta caixa de comentários. :-)
1. quanto ao cartaz
2. quanto as intençoes do cartaz
3. quanto as consequencias, para as crianças, das orientaçoes sexuais dos pais.
foi por isso que falei. fiquei incomodada com que me pareceu, e continua a parecer, um conjunto de reacções injustas e desajustadas (em relaçao aos 3 tópicos acima) sobre uma tomada de posição e uma mensagem que me parecem claríssimas: amor de Mãe é amor de Mãe, seja o que for que ela prefira na vivência da sua sexualidade.
tão-só isto :-)
tenha um bom domigo.
:-)
que bom ter sido a voz dissonante que permitiu a polémica neste blog — neste post — e tantas e tão profícuas respostas (mesmo que divergentes no tom).
desculpar-me-ão, mas hoje não tenho tempo.
amanhã, contudo, será um prazer continuar a conversar convosco.
boa noite e obrigada pelo acolhimento.
(embora eu já cá tivesse comentado; acolhimento, portanto, em relação a este polémico tema)
Sem tempo ou com tempo, volte mais vezes que queremos sempre-vê-la!
ó, que simpático :-)
É da minha natureza, que é que hei-de fazer?! E agora vou a mergulho na praia que o tempo está radioso — é pelo menos o que o meu optimismo acha.
Este Manuel Scharmoso Fonseca não brinca em serviço…
Sem-se-ver, no cartaz a questão é colocada á criança, parece-me. Porque se não for assim não passa de mero panfleto de «política correcção».
Sendo dirigida à criança pede-se-lhe que estoicamente, por dever de lealdade para com a mãe, não tome em conta, não considere, não reconheça o eventual desconforto que tal realidade lhe pode trazer.
Isso, para mim, é chantagem emocional.
Para si não é — está no seu pleno direito.
Mas gostava de lhe fazer uma pergunta: já discutiu o tema com algum visado (filho de homossexual ou lésbica)?
Eu já.
eu também.
Cara sem-se-ver: agradeço-lhe, em primeiro lugar, a disponibilidade e a frontalidade reveladas na discussão das inúmeras questões que o cartaz levanta. Mas, ou fui eu que a percebi mal (confesso que me pode ter escapado alguma nuance na leitura apressada que agora fiz dos comentários), ou as suas interrogações e objecções partem de premissas que, nem de perto nem de longe, estão presentes no post ou nos pontos de vista dos restantes comentadores. Para evitar quaisquer equívocos que as minhas palavras pudessem sugerir, eu próprio tive a preocupação de esclarecer no post que a opinião que nele veículo respeita não aos fins — que até considero meritórios e louváveis — que a ILGA procura atingir mas apenas ao meio — neste caso, uma campanha publicitária — a que recorre para o efeito. Que fique claro: não mudaria nem uma vírgula ao texto ainda que fosse um acérrimo defensor da abertura da adopção a casais homossexuais (e foi justamente para não desviar as atenções do ponto fulcral da minha indignação — a manipulação emocional que perpassa no texto e na imagem do cartaz — que não quis, e continuo a não querer, exprimir a minha opinião quanto à questão da adopção).
Por outro lado, pouco nos devem interessar quais foram as intenções últimas, ou mais ou menos veladas, dos responsáveis do cartaz (a ILGA, sendo que a agência publicitária que executou a campanha foi a Lowe). Não estamos no domínio da Arte, em que diversas interpretações são possíveis e até desejáveis. Trata-se, sim, de um produto publicitário que visa objectivos políticos (repito, totalmente legítimos), e, como tal, aquilo que nos interessa discutir é a mensagem imediata e directamente apreensível, perceptível para um cidadão médio e, sobretudo, para uma criança que se vê confrontada com o cartaz e que dificilmente deixará de questionar a mãe ou o pai sobre a pergunta. Como sabe, a publicidade vive de impressões e é justamente a impressão que o cartaz cria na sua primeira leitura que joga, de forma que não acredito seja inocente, com a situação de inferioridade em que a criança se encontra. Como a cara sem-se-ver, eu também não tenho dúvidas que os visados do cartaz sejam os pais e as mães heterossexuais, o que me choca é que a pergunta seja intermediada pela interpelação directa feita à criança, que não está obviamente em condições de entender o que é perguntado. O que contesto são os efeitos nefastos, e porventura irreversíveis, que essa interpelação directa possa causar nas crianças, levando os pais a relativizar perante os filhos aquilo que, pela sua extrema complexidade, não pode, obviamente, ser percebido pelos filhos. Em bom português, trata-se de pura manipulação ou chantagem emocional.
Quanto ao patrocínio da CML, é visível o embaraço de António Costa com o cartaz: segundo sei, perante as críticas que foram feitas ao envolvimento da CML, já apareceu alguém a dizer que a Câmara nada tinha a ver com ele, que se limitou a fornecer os mupis, sendo a inclusão do logotipo no cartaz uma consequência automática dessa cedência (que a CML não ponderou e de que, manifestamente, já se arrependeu).
Caro Diogo,
como apreciei esta sua resposta!
por partes, então:
a) já tinha reconhecido que este cartaz, se e quando visto por uma criança, pode trazer situações de embaraço a seus pais. a estes a decisão se elucidar ao que o cartaz se refere, ou não. pela minha parte, a possibilidade de tais situações embaraçosas não invalida nem o cartaz nem o público-alvo a que, na minha opinião, se dirige — não as crianças, filhas ou não de progenitores homossexuais, mas os adultos hetero que tenham preconceito e, como tal, dificuldade em lidar com esta verdade cristalina: quem ama, ama, quem ama, dá amor. e tal amor não depende nem é condicionado pela orientação sexual.
b) onde vê ‘manipulação emocional’ no cartaz (compreendo que o diga), vejo eu afirmação, de pleno direito, de uma verdade insofismavel — boa Mãe ama os seus filhos, seja homossexual ou não. há muitos por aí que colocam em dúvida que tal seja possível, caro Diogo. E é a eles que o cartaz se dirige. Repito, na minha leitura dele, é assim que o entendo.
c) suponho que a pergunta tenha sido ‘intermediada pela criança’ por tal ter muito mais impacto mediático (por isso, sim, é um bom, um óptimo cartaz) do que não se tivesse feito essa opção.
Diogo,
partilho das suas inquietações (mesmo que não pareça :-) entendo-as e compreendo as suas razões. Mas não vê que elas, por um lado, desviam o rigor da análise da campanha e, por outro, permitem que outros (mesmo que não fosse essa a sua intenção original) deturpem o sentido, seja do seu post, seja sua abordagem nela contida? ou, como diria o jna, que «quando se levantam questões sobre catequeses as interrogações podem ir ter muito longe»?
speaking of which, vou ali responder ao antónio eça.
Diogo: quando se levantam questões sobre catequeses as interrogações podem ir ter muito longe.
Sem-se-ver: a sua resposta responde a tudo, já que de duas experiências (pelo menos) resultaram respostas diferentes (porque eu não ponho em dúvida a veracidade da sua experiênca e espero que pense o mesmo da minha).
Não me parece que aqui se tenham combatido ideias ou modelos comportamentais, mas sim a natureza dum determinado objecto publicitário. E para mim ele descrimina no mínimo os miúdos para quem, mal ou bem, a orientação sexual da progenitora (ou progenitor) representa um qualquer embaraço — porque, quer queiramos quer não, isso (por vezes) também acontece.
Está mal? Talvez sim, mas não é ignorável.
antónio:
a ver se nos entendemos.
façamos a síntese:
escrevi algures nesta longa caixa, ‘vivência homossexual que o seja com tranquilidade fará com que as crianças, filhas de homossexuais, o vivam assim também’.
donde:
há casos em que para a criança será penalizador ou mesmo traumatizante? sim. há os casos inversos? sim.
agora, pelo amor de Deus, não coloque a questão nestes seguintes tão melodramáticos termos, que me tira do sério (pelos vistos, não percebeu que me tinha tirado do sério):
«Sendo dirigida à criança pede-se-lhe que estoicamente, por dever de lealdade para com a mãe, não tome em conta, não considere, não reconheça o eventual desconforto que tal realidade lhe pode trazer. Isso, para mim, é chantagem emocional.»
estoicamente? dever de lealdade para com a mãe? nao reconheça o desconforto? chantagem?
(devia ter escrito — CHANTAGEM????????? ok, acabei de o escrever)
com calma, sim?
1º — o que esta sua maneira de colocar a questão manifesta é que:
a) parece-me que o antónio, ao colocar-se na pele de uma criança que o seja, sente uma enorme aflição, e, como tal, transfere-a para a putativa criança. antónio, isso é problema seu, nao da criança.
porque,
b) não está envolvido qualquer estoicismo, nem geral nem particular, em ser-se filho de um homossexual. se se for filho, e amado, é-se. tão-só.
2º — e porque deduzo que ainda não entendeu a quem se dirige o bendito cartaz, esclareço-o mais uma vez:
ele não se dirige aos filhos dos homossexuais — PORQUE ESSES SABEM QUE NAO MUDA NADA, QUANTO AO TIPO, QUALIDADE E PROFUNDIDADE DO AMOR QUE A MAE OU O PAI DELES VOTA POR ELES — mas sim aos adultos heterossexuais que, como o senhor, lançam mão de argumentos catastrofistas tipo ‘coitadinhas das criancinhas, já lhes caiu em má sorte um pai ou uma mãe homossexual, só faltava agora a provação de terem que reconhecer perante o mundo que os seus progenitores o são e que isso em nada afecta o amor que eles lhe têm’.
poder sequer imaginar-se que uma mãe ou um pai homossexual chantageriam um filho seu, obrigando-os a assumir perante o mundo as orientaçoes sexuais dos pais, diz muito — diz tudo — da carga de preconceito homofóbico dissimulada na sua reacção, pelos termos em que foi exposta.
eu diria que a chantagem é a inversa: a de pessoas como so sr, que, perante um cartaz destes, consideram poder acusar de chantagem emocional quem o fez. como se, portanto, fosse interdito falar-se do amor que os pais sentem pelos filhos, quando e se eles sao homossexuais. como se tal tivesse que ser escondido e vivido secretamente. como se não fosse de bom tom recordar a este país que há muitos, há milhares, dezenas de milhar, de mães e pais homossexuais que amam tanto os seus filhos como todos os outros, heterossexuais.
e volto a dizer: por reacções como a sua, é adequado, oportuno, justo e importantissimo enviar essa mensagem aos portugueses.
bem, lamento, mas acho que continuamos com problemas de ‘focus’. e quando é assim, não vale a pena chover no molhado.
o sr com a sua opinião, eu com a minha.
resto de bom domingo para si.
Mantenho, é claro, tudo o que disse.
O seu texto elenca o conjunto de ambiguidades que o cartaz produz.
Acho que confunde a carta com o presumível Garcia.
Um bom domingo para si também.
Olá.. adorei o site.. e não poderia deixar de comentar;…
O meu ponto de vista do cartaz .…Acredito que retrata .. a pergunta e não a imagem em si..
Se sua mãe fosse lesbica mudaria alguma coisa??.. a imagem da criança não quer dizer que a responsabilidade seja dela.,. e sim retrata simplemente uma mãe e seu filhote; faria alguma diferença se fosse uma senhora de 70 anos e um jovem de 27???
Muito genioso todos os comentarios..
:]..
Obrigado pelas suas palavras simpáticas, Joyce. Apareça sempre.
Ah que Gentil.…. apareço sim… adoro ler comentarios…
… saber a opnião do que as pessoas pensam em seu dia-dia..
Bjs!!