
Rembrandt, A Lição de Anatomia do Dr. Tulp. 1632
Parece que Portugal está em morte lenta e que o orçamento é a sua declaração de óbito. Mas, ao contrário do que por aí se diz, o putativo cadáver não tem um problema económico irresolúvel. As espantosas quantidade e coincidência dos diagnósticos (e consequentes indicações terapêuticas) que vão surgindo de quase todos os quadrantes ideológicos são a prova disso mesmo. A reforma da administração pública, o abandono da política de grandes investimentos improdutivos e absolutamente supérfluos, a alienação ou encerramento de empresas estatais inviáveis, a reforma da legislação laboral não são, convenhamos, remédios novos nem sequer originais. São apenas algumas das várias medidas de bom senso a que a esmagadora maioria dos economistas portugueses seria capaz de prestar o seu entusiástico apoio. Não é pois de escassez de diagnósticos ou de remédios de que morrerá o paciente.
Observemos então o problema de outra perspectiva. É um anátema, bem sei, comparar os problemas económicos do país aos das empresas. Mas quando nos questionamos sobre a capacidade dos portugueses para implementar, na prática, as reformas económicas de que o país desesperadamente precisa, é interessante perceber que, felizmente, esta capacidade existe no tecido empresarial privado do país. Se é certo que boa parte das grandes empresas do regime vive à sombra tutelar do Estado e espera encontrar neste a resposta para todos os seus problemas, não são poucas as pequenas e médias empresas que dependem, para escapar a mortes bem mais rápidas do que a que se anuncia para a República, exclusivamente de si mesmas, da capacidade dos seus empresários e gestores para tomar medidas difíceis e da dos seus trabalhadores para aceitar sacrifícios. E se durante o ano «horribillis» de 2009 muitas ficaram pelo caminho, outras tantas deram provas de uma resiliência e de uma coragem que muita falta faria noutras paragens.
O que falta então a Portugal para que escape à sua anunciada «morte lenta»? É, bem sei, um «cliché» repetido vezes demais. Mas não deixa por isso de ser verdade. Portugal não tem um problema económico insolúvel. O país não tem escassez de diagnósticos nem de remédios. Portugal não tem, sequer, falta de quem os possa aplicar com eficácia e coragem. Mas Portugal tem, isso sim, um problema político sério. Portugal tem um sistema político doente, fechado sobre si mesmo e à sociedade, autista. Portugal tem uma democracia débil e refém de máquinas partidárias que sacrificam qualquer tentativa de regeneração ou de mudança do status quo à desesperada ânsia de auto-preservação da sua imensa mediocridade. Portugal tem, por via dessa sufocante pulsão uniformizadora da sua partidocracia, uma total incapacidade de atrair ou de gerar elites e lideranças políticas com verdadeira vontade e capacidade reformista. E sem lideranças, «ça va sans dire», não há atracção dos melhores, não há mobilização de energias, não há capacidade de passar dos diagnósticos à acção.
Se alguma coisa nos condenar à morte lenta não será a economia. Será a política. E é bom não esquecer que se o inferno são os outros, a política somos nós.
Publicado na Visão em 4.02.2010
















PN,
hoje acredito um bocadinho outra vez. Ainda bem que escreve na Visão, apesar de apenas quinzenalmente — revista que leio sempre, mesmo que, por vezes, me faça zangar — e que o republica aqui. Nem seja por dois muito egoístas motivos: por nos dar voz, quer no silêncio que descrê quer na indignação e por nos devolver a esperança. Merci.
Vale a pena, apesar de tudo, acreditar um bocadinho. De rien.
Pedro,
que diagnóstico certeiro. E que pena ter tanta razão.
Que pena o difícil ser tornado impossível por tantos,
quando o que parecia impossível se conseguiu tornar difícil, apenas, para alguns obreiros.
Teresa: se diagnóstico estava certo, o seu resumo está perfeito. Posso rouba-lo?
Pedro,
roube away, mas por certo a mim não roubará, o que eu disse já deve ter sido dito tantas vezes por outros.
Além disso, a gravidade da questão não se desvanece com jogos de palavras.
Quando perto da palavra “impossível”, a “difícil” quase parece fácil.
Mas “dificil” neste caso está longe de só uma dor de barriga, como o Manel pormenoriza aqui abaixo.
O Difícil é duro, é um sufocante e ensurdecedor jogo de obstáculos.
É a barreira de tão poucos aceitarem os sacrifícios necessários.
É o não podermos culpar só os outros.
É o seu SOMOS NÓS.
Acredito mesmo que somos, Teresa. Por muito desconfortável que seja.
Cito: “…não são poucas as pequenas e médias empresas que dependem, para escapar a mortes bem mais rápidas do que a que se anuncia para a República, exclusivamente de si mesmas, da capacidade dos seus empresários e gestores para tomar medidas difíceis e da dos seus trabalhadores para aceitar sacrifícios”. Concordo, mas convenhamos que é duro, para além de ter de suportar a inclemência de um Estado doente de burocracia e estagnação, ter ainda de concorrer num mercado onde, cito: “boa parte das grandes empresas do regime vive à sombra tutelar do Estado e espera encontrar neste a resposta para todos os seus problemas...”
É bem verdade…
Bom, parece que há 102 anos o ultra-radicalismo pensou que resolvia o problema. Não resolveu, mas ainda há romagens ao túmulo do Buíça…
Ora eu quase garanto que se o regime não conseguir mudar-se a si próprio (e isso parece impraticável pelas razões que o PN aponta), o ultra-radicalismo voltará a exibir-se.
Para quem não sabe, o carro que aquele juiz cretino espatifou na baixa lisboeta tem um valor de mercado idêntico ao dum Ferrari 430 GT. E fomos nós que o pagámos, novinho em folha, para ele se saracotear de importância.
Se absurdos deste prevalecerem por muito mais tempo como hábito da administração, um dia haverá com sangue a sério.
Receio bem que as coisas possam entornar-se. Não será seguramente à la 1908, nem com uma junta de militares com bigode farfalhudo mas não é aconselhável que se dê democracia como um dado adquirido
Procurando fazer a síntese do que acima se comenta, atrevo-me a afirmar:
O querer impor a muitos os sacrifícios que todos sabem irrazoáveis e desproporcionados — já que bastaria para os obviar retirar, melhor dito abdicar, das benesses e previlégios absolutamente ilegítimos e imorais que os políticos se auto-atribuiram e distribuiram — para que a sociedade acalmasse e, a partir daí, puxasse a pesada carga com união de esforços.
Por outro lado, não é a queixarem-se de falta de investimento, e permitir que empresas públicas ou com “golden shares” invistam no estrangeiro desinvestindo aqui, não repatriando lucros, que se dará um sinal de confiança aos mercados. A economia, independentemente das ideologias, persegue sempre um fim social e, esse, está actualmente afastado por “gestores” que gerindo o que deles não é, se divertem a jogar o monopólio…
“Portugal tem um sistema político doente, fechado sobre si mesmo e à sociedade, autista”, contudo em qualquer discurso político a palavra globalização está sempre presente. Há dias Victor Constâncio surpreendia-se com o aumento do valor do défice e Teixeira dos Santos levou o ano inteiro a enganar-se.
Ontem os mercados internacionais fecharam em queda e hoje os mercados asiáticos seguiram o mesmo desfecho — o risco da dívida de Portugal, Espanha e Grécia, a razão de tanto pânico. Com tantos enganos e ameaças de demissão dá vontade de dizer ao ministro das finanças “É a globalização, estúpido!”
Olá Madalena Lello, Bem vinda!
A globalização tem as costas largas…
Caro Pedro,
Deixo-te um trecho de uma noticia que saiu no FT de 29/01/2010 entitulado: “Greek burden ensures some Piggs won’t fly”: (..) When taking over a company in distress, one does not consider only the views of management. Similarly, a bail-out of a country makes sense only if all stakeholders contribute. Saving a country in distress that is consuming too much makes sense only if the entire body politic accepts that more than a fiscal adjustment is required. Deep cuts in private sector wages are needed before any outsider should even consider stepping forward.
Europe stability pact is flawed because it concentrates only on one sector (government) rather than the entire country’s resource balance, which is what counts in the long run(…) ” Nesse artigo, Portugal é referido como sendo o pior dos Pigs no que respeita à falta de reservas domésticas com valores na ordem dos –6% do PIB. É igualmente dito no artigo que, para colocar Portugal e Grécia num caminho económico sustentável é preciso cortar na verba de consumo em cerca de 10% do PIB.
Agora, mais que nunca, precisamos de boa e ponderada governação!!!
Estou de acordo com a tua análise (as usual).
Grande abraço
Fausto
tks!