
O texto do Vasco fez-me lembrar dois soberbos livros sobre a segunda guerra mundial, ou melhor, sobre o período imediatamente antes. Uma altura especialmente aterradora, quando o poderio nazi se entranhou pela população alemã e a transformou num aglomerado tenso e perigoso, onde ódios e rancores permeavam um misticismo e um desejo de grandiosidade, tudo combinado numa sociedade educada, eficaz e eficiente.
O primeiro, trata-se de um breve conjunto de cartas fictícias, escrito em 1938 por uma americana, Kathrine Taylor, e conta a história de dois amigos galeristas alemães radicados em S. Francisco que se mantêm em contacto por via postal, após o regresso de um deles à Alemanha, enquanto o outro, judeu, permanece nos Estados Unidos. À medida que o amigo retornado vai subindo na carreira hierárquica de serviço público a que se dedicou e com a progressiva implementação das ideologias nazis, a correspondência com um judeu torna-se um problema. Mais que isso, torna-se indesejada perante a transfiguração do amigo. Taylor ficou impressionada ao aperceber-se da monstruosidade que ganhava forma na Alemanha nazi, ao descobrir que uma carta poderia pôr em risco a vida do destinatário. “Address Unknown”, embora ficcionado, terá sido certamente um espelho da perversidade cirúrgica do regime alemão e é uma elegante história de vingança e/ou esperança.
O segundo é a “História de um Alemão” de Sebastian Haffner. Se a memória não me atraiçoa, trata-se de um relato na primeira pessoa das vivências de um jovem alemão no período entre guerras. Haffner acabou por exilar-se em Londres, antes da invasão da Polónia e, mais tarde, os seus filhos publicaram os registos do pai, incluindo um capítulo descoberto dissociado do manuscrito. Não sendo estudo académico e não sendo Haffner judeu, o livro é literalmente o relato de um cidadão alemão, testemunha da ascensão nazi. Primeiro como um rapaz em idade escolar, mais tarde como estudante de direito e posteriormente tentando dar os primeiros passos na carreira, numa sociedade, por essa altura, já completamente nazificada. Mais impressionante que o ambiente de terror que se instala, particularmente para aqueles que tinham relações com judeus e/ou discordavam da visão do mundo hitleriana, a meu ver, é a contribuição do seu relato para responder às perguntas: como pode aquilo acontecer? como é que uma pessoa se embui, respeita e participa naquele ideal? Particularmente interessante é a sua descrição do campo onde passou vários meses, uma espécie de recruta civil, onde os homens eram treinados para serem membros destacados da sociedade nazi.
Haffner descreve então a criação do sentimento de camaradagem — irmãos de armas em tempo de paz — entre os participantes do campo, sempre sob a sombra do regime. Esta camaradagem, ao contrário de benéfica, criou a estrutura social perfeita para a diluição de culpas, para a auto-desresponsabilização, em que o indivíduo nunca se sente como parte autónoma e capaz da sociedade, mas sim um elo apenas, importante no conjunto, mas destituído de capacidades de decisão. A ocasião perfeita para se invocar que apenas se obedece a ordens superiores, tal como o soldado, parte integrante do exército, mas individualmente com quase nenhum poder de decisão sobre os destinos deste último, restando-lhe entregar-se à lealdade e consanguinidade dos seus camaradas.
“A camaradagem faz parte integrante da guerra. Tal como o álcool, apoia e conforta os homens obrigados a viver em condições desumanas. Torna tolerável o intolerável. Ajuda a superar a morte o sofrimento, a desolação. Anestesia. Conforta-nos pela perda de todos os bens da civilização que impõe. É justificada pelas terríveis necessidades e amargos sacrifícios. Contudo, separada de tudo isto, exercida apenas por si própria, pelo prazer e intoxicação, torna-se um vício. E pouco importa que traga um pouco de bem-estar. Corrompe e perverte os homens mais que o álcool e o ópio. Torna-os incapazes de uma vida pessoal, responsável e civilizada. É, no fundo, um instrumento de descivilização. (…)
Começando pelo essencial, a camaradagem aniquila totalmente o sentido de responsabilidade pessoal, quer seja cívica, ou mais grave ainda, religiosa. O homem que vive em camaradagem fica liberto de todas a s preocupações existenciais e do duro combate pela vida. Tem uma cama na caserna, comida e o uniforme. O seu quotidiano está pré-escrito de manhã à noite. Não necessita de se preocupar com nada. Deixa de estar submetido à lei do «cada um por si» , mas vive sob a suavidade generosidade do «todos por um». Uma das maiores falsidades reside em afirmar que as leis da camaradagem são mais duras que as da vida civil e individual. Define-se, ao contrário, por um amolecimento e só se justificam para os soldados presos numa guerra inevitável, para homens que enfrentam a morte. Só a ameaça da morte autoriza e legitima esta monstruosa isenção de responsabilidade. E sabe-se que até mesmo os mais corajosos guerreiros, quando repousam demasiado nas macias almofadas da camaradagem, mostram-se incapazes de enfrentar os duros combates da vida civil.
Muito mais grave é o facto de a camaradagem ilibar o homem de qualquer responsabilidade por si próprio, ante Deus e a sua consciência. Fazem o mesmo que todos os seus camaradas. Não lhes resta alternativa. (…) De facto, a camaradagem implica a estabilização do nível intelectual no escalão inferior, acessível ao menos dotado. A camaradagem não tolera discussão.“
Sebastian Haffner, A História de um Alemão
- Desconhecido Nesta Morada, ISBN 9789727922284
- A História de Um Alemão, ISBN 9789722027700

















Tenho pena de não ser o “local publisher” do Address Unkown. Gostei muito do conceito. Veja lá se me avisa quando descobrir livros tão especiais como este logo que lhe apareçam na primeira esquina de Boston.
Assim farei.
(Embora, se o seu negócio dependesse de mim, morreria à fome!)
Francisco, vou procurar. Obrigado pelas sugestões.