a Crise

Na presente Crise nacional, a ser verdade, sublinho, metade do que se lê e ouve, há três ou quatro coisinhas que não percebo:

- os directores dos orgãos de comunicação social portugueses há muito deveriam saber que, em democracia, é impossível, a médio prazo, controlar uma redacção relativamente ao que se deve ou não reportar, escrever e publicar. Isso acabará sempre por prejudicar a respeitabilidade e os resultados comerciais dos orgãos que dirigem.

- os presidentes dos conselhos de administração dos orgãos de comunicação social e dos grupos de telecomunicações portugueses há muito deveriam saber que, em democracia, é impossível, a médio prazo, controlar a informação que as empresas por si tuteladas produzem. Isso acabará sempre por prejudicar a respeitabilidade e os resultados comerciais dos orgãos que tutelam.

- os primeiro-ministros, governantes, dirigentes partidários e seus acólitos há muito deveriam saber que, em democracia, é impossível, a médio prazo, controlar a comunicação social. Isso acabará sempre por prejudicar a sua respeitabilidade e os seus resultados eleitorais.

- finalmente, os jornalistas dos orgãos de comunicação social portugueses há muito deveriam saber que, em democracia, quanto mais se grita que se é um exemplo de seriedade –e, de forma putativa, um exemplo de seriedade superior ao do colega do lado — mais o colega do lado desconfia (e, a médio prazo, o público). Isso acabará sempre por prejudicar a sua respeitabilidade e a sua carreira.

A ser verdade, volto a sublinhar, metade do que se lê e ouve: como é que tantas pessoas inteligentes tomam tantas decisões estúpidas em tão pouco tempo?

Comentários a “a Crise” (9)

  1. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    A resposta, meu caro Pedro Marta Santos, vai na forma de uma outra pergunta? Porque é que toda a gente julga que nós vivemos em democracia?

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Gonçalo, atrevo-me a responder que sim. Se respondesse que não, não faria sentido o Pedro formular a ramificada pergunta que faz. Temo, aliás, pela democracia em que esta pergunta, num ou noutro momento, não surja. Deve ser uma democracia demasiado boa e tão perfeita que dispensa perguntas. A dúvida que levantas, aliás, não é nova. Levei com ela (por viver próximo de infecta esquerda, alguma académica ou artística e de muito prestígio) quando a AD teve maioria absoluta, quando Cavaco filho de gasolineiro se deu ares de decidido primeiro-ministro com programa desenvolvimentista e tudo (nem imaginas as ofensas choque da esquerda chique). Sim, de vez em quando cheira um bocadinho a pivete, vivemos em democracia.

  3. António Eça diz:

    Como jornalista que ainda sou (apesar de desactivado) não posso estar mais de acordo, Pedro. Como é possível um rosário tão continuado e completo de estupidezes e insanidades?
    Eu acho talvez que o pobre Peter não sabe afinal qual foi o seu princípio — e que a coisa se pega, muito mais que qualquer gripe sofisticada.

  4. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Pois é Manuel, mas a minha pergunta era «porque é que toda a gente julga que vivemos em democracia?». Não tem, portanto, uma resposta “sim” ou “não”. Implica pensar o que será isso a que chamamos democracia e de que modo se está ou não realizando por cá. E quando digo cá, não digo em Portugal, que de há muito perdeu a sua própria originalidade. Digo no mundo ocidental. E creio — devo dizer, Manuel, que fundada e circunstanciadamente (quer dizer, demoradamente e por escrito) — que o Ocidente está sucumbindo porque desistiu de cumprir o principal propósito que assumiu no início da modernidade: a realização da democracia.
    Respondeste, portanto, a muita coisa, Manuel. E certamente de maneira muito acertada. Mas as perguntas não eram minhas — eram de outros.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Tens toda a razão, Gonçalo. Mas se me deres oportunidade de corrigir o azimute, aqui vai mais uma amável discordância. Preciso que me digas o que entendes por realização da democracia.
      Sei bem que o Ocidente falhou. Decadente há séculos, decadente para sempre, libidinoso a contemplar o seu próprio crepúsculo.
      Quando fui anarquista, embora anarquistas eleitos achassem que eu não o era verdadeiramente, o desiderato era destruir o Estado, fazê-lo desaparecer como se cada homem fosse o próprio Houdini. O Estado, persistente, inflexível, continua em cima do palco, dando-se ares de protagonista. Essa democracia, não se cumpriu.
      Quando eu era marxista, qualidade que os teóricos que verdadeiramente o eram sempre me negaram, tinha febre a pensar nessa democracia em que, extirpada a luta de classes, Oeste e Leste se fundiam e a todos os homens assistia só a fruição de um prazer sem necessidades. Lamentavelmente, o barbudo Ocidente falhou a eliminação das classes e a democracia de São Marx.
      Quando fui católico, de coração puro a que os mais apocalípticos sempre apontaram insidiosa mancha, deixei-me levar pelo êxtase espiritual de uma humanidade que a Segunda Vinda (fosse qual fosse a forma, pura luz, línguas de fogo) conduziria à democracia de plenitude e Bem. Infelizmente, o Ocidente falhou também a arrebatada e teocrática democracia.
      Foram esses os meus maiores repastos, mas à hora da sobremesa ainda me passaram pela frente pratinhos de democracia directa e de democracia popular. De tão açucarados, nem provei. Fiz consultas recentes aos Menus e já não constam.
      Resta sempre e só a ideia de uma democracia imperfeita, work in progress (às vezes às arrecuas), frágil, insatisfeita, como insatisfeitos somos nós mesmos, no amor, no sexo, na vida profissional, na posse dos bens materiais, na confusão entre sermos orgulhosos e humildes, orgulhosos ou humildes. Teremos falhado assim tanto?

  5. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Manuel, a resposta, grossa, densa, funda, argumentada e arrazoada, não cabe aqui. O que não quer dizer que não a tente ir escrevendo em alguns posts sobre o assunto — que muito me interessa. Posso dizer, no entanto, que topicamente ela passa pela revisitação crítica de algumas coisas de que falaste: de como a democracia surgiu na Idade Moderna; de quais são os princípios que nesse seu nascimentro a acompanharam (creio bem serem só dois); do que ela deve ao pensamento cristão (na altura, mais propriamente, ao católico); da sua relação com o liberalismo; da sua relação com o marxismo (hoje muito mal compreendida e, no entanto, decisiva); da sua relação com o positivismo; da sua relação com a construção de uma realidade social irreligiosa, internacional e desideologizada; da sua relação, finalmente, com a indiferença, construída a partir do fim da segunda guerra mundial e assumida no terceiro quartel do século XX.
    Mas a resposta, por outro lado, está já de algum modo dada na pergunta que acima fiz e, desculpar-me-ás, também na resposta que não deste. É que a questão não está no facto de a democracia ser necessariamente imperfeita, porquanto realização humana. A questão reside precisamente no facto de a termos tomado como coisa e de não mais perguntarmos por ela, querendo humanamente realizá-la cada vez melhor e mais perfeita. Chegámos ao cúmulo, há bem pouco tempo, de a termos instaurado num país estrangeiro. E, no entanto, ninguém parece muito preocupado, alguns telejornais passados. Não é uma mera questão de natural imperfeição humana. É uma questão, bem ao contrário, de a-natural desistência humana.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Se a resposta não cabe aqui, será que a pergunta, como a colocaste, cabe? A pergunta, no post do Pedro, arrastava um “absoluto” que pede resposta imediata (o que explica, e nem é desculpa, o meu engano de sim e/ou não). Acho mesmo que esta podia ser uma (boa) questão de fundo para vários posts de vários autores do blog. Queres ser tu a lançar os termos do desafio?

  6. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Manuel, tenho que pensar. Tenho um texto já muito avançado sobre o assunto, mas há algum tempo interrompido por causa de outros que tiveram de passar-lhe à frente. Dequalquer forma não me é fácil — nem sei se quero — resumi-lo num post, ou dois, ou três. Terás de me dar algum tempo para ver se consigo fazer alguma coisa. Agora que a pergunta cabe aqui não tenho dúvidas. Ela era o postulado e axiomático pressuposto de todo o post do Pedro. E francamente eu não a dou — à democracia — por adquirida. Antes pelo contrário, creio francamente que o clima em que hoje vivemos é de dissimulado totalitarismo. E todos estaremos contentes enquanto ele estiver dissimulado. Mas as crises, ai, as crises, que tanto estragam as ilusões…

  7. Orcama diz:

    Caro Gonçalo Pistacchini Moita:
    Revejo-me na vertente que deixa intuir para o tema do seu proposto texto. Não o adie muito. Há a possibilidade de ficar (o tema) póstumo…

    Caro Manuel “Sibarita” Fonseca, já o percebi quanto a algumas características da democracia, agora quanto à sua qualidade o seu silêncio é ensurdecedor…

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