folhetim 4 — Até ao chão da voz activa…

Nem mais uma palavra ouviu da carta que Catarina lhe lia. A voz dela ecoava, ao fundo, enquanto se apossava dele a confusão de todas as coisas. Entre a desunião dos momentos todos e o símbolo na pele da Luísa tentava ver um sinal. Mas nada mostrava ainda o seu sentido. Viera à procura do seu nome inteiro, no qual se mostrasse quem é, mas tudo lhe lembrava apenas aquilo que poderia ter sido. A Catarina. A Luísa. A Susana.
– Francisco!? Francisco!?
– Sim! Catarina. Estou aqui.
– Não achas isto tudo extraordinário?
– É. Extraordinário. Nem sei bem o que hei-de dizer-te. Na verdade, estou atordoado. Deixa-me falar com a Luísa e arranjar uma maneira de ir para aí. Amanhã falamos.
Pediu o jeep emprestado à Luísa para poder ir até Chennai, onde a Catarina o esperava, no hotel. As quatro horas de viagem iam passando indistintas na indiferença dos solavancos da estrada e do espírito. Parou, perdido, sem que houvesse outro caminho. Precisava de tempo e de ar. Abriu a janela. Respirou fundo. Mas o ar não transpunha os angustiados limites dos seus pulmões. Com a mente e o coração sufocados, tirou do bolso o papel que lhe dera o guru no templo de Vaitheeswaram. E então leu-o. Devagar.
«Duas vezes terás de morrer até encontrares o teu nome inteiro. Da água surgirá a terra firme e da terra surgirá o ar e o espírito. Segue a estrada que vai até Atenas. Aí encontrarás Hydranthrópous, único descendente vivo do sábio Tales, de Mileto. Perguntar-lhe-ás então pela chave com a qual hás-de abrir a porta que encerra o segredo da vida.»
«Duas vezes terás de morrer!» Agora, como no templo, aquelas palavras sobrepunham-se a todas as outras. Resistia-lhes, imediatamente. Não queria ter de morrer, apesar de não se sentir bem vivo. A predição das suas mortes instantemente o remetia para a morte dos seus pais, no Porto, três anos antes. Para o desastre, inesperado. Para a dor à espera, no hospital. Para a terrível revelação de que o sangue deles não era o seu. Para a interrupção das vidas deles. Para a desconexão da sua.
Desde então tudo mudara. Crescera nele, continuamente, o desânimo de ser quem era. Nada parecia ligá-lo ao mundo, pelo qual andava, alheado. Catarina tentara ajudá-lo, mas estavam deslaçados. Apenas num fundo de si persistia ainda, escondido, o desejo de ser quem seria. E foi dele que surgiu a ideia da vinda aos templos de Vaitheeswaram e de Fort Kochi. Os Norton´s, uns amigos da Catarina, que costumavam passar férias na Índia, falaram-lhes, não sei porquê, destes lugares, aos quais os peregrinos acorriam à procura dos seus nomes. A ideia dilatou-se no seu fundo até que o latente desejo de si mesmo começou lentamente a descobrir-se na demorada preparação desta viagem. «Duas vezes terás de morrer até encontrares o teu nome inteiro.» Seriam estas suas mortes as duas mortes dos seus dois pais?
«Da água surgirá a terra firme e da terra surgirá o ar e o espírito.» Mais calmo, ia meditando, enquanto voltava a guiar. Aquelas palavras, embora incompreendidas, permitiam-lhe recomeçar a pensar. A lágrima de onde partira tinha agora de chorá-la por dentro, dissolvendo-o, inteiro. Chorar, sem perceber, até ao chão de si mesmo. Só assim a dor seria sua. Só assim a poderia dizer. Afirmando-se, estaria só, mas então já não teria tanto medo. A água, brotando de dentro, não secaria, ela também, com o seu secar. O ar? O ar não sabia. Mas já conseguia respirar.
«Da água surgirá a terra firme e da terra surgirá o ar e o espírito.» Chegara a hora de se afirmar. Não já na água maternal, mas fora dela. O mundo inteiro fora, até hoje, apenas e tão-somente uma mãe. Todo ele se alargara, ao recebê-lo, prenhe de um feminino amor por si. O amor dos dois se confundia, dando-lhe tudo, pedindo-lhe nada. Mas eis que sentia, lá dentro – num outro dentro, num dentro de si –, um poder irreprimível de afirmar-se e uma vontade de marcar novas fronteiras. Sentia crescendo em si a força de um toiro branco, daqueles capazes de roubar a uns pais a única filha e de, carregando-a virilmente no seu dorso, se adentrarem pelos líquidos caminhos, neles firmando ilhas de terra viva.
O espírito!? O espírito move-se sobre a superfície das águas, para as quais olha, sem tocá-las. Por isso agora, entre ele e elas, serei terra, na qual me erga capaz de amar e ser amado. Terra-água. Terra viva. Terra-planta, terra-bicho, terra-homem. Terra-anjo? Terra-Deus? Já se verá. O depois virá depois. E será, num só, dos dois. Mas agora é tempo apenas de afirmar. De romper, de dividir, de decidir. «Segue a estrada que vai até Atenas.»
Chegara. Era tarde. Subiu as escadas do hotel e entrou no quarto onde Catarina já dormia. Tocou gentilmente no seu ombro, enquanto pousava as chaves na mesa-de-cabeceira. Então disse-lhe, baixinho:
– Catarina. Sou eu. Dorme. Já não vamos para Fort Kochi. Amanhã vamos para Atenas.

Comentários a “4 — Até ao chão da voz activa…” (13)

  1. Orcama diz:

    Gostei da literária pirueta. O mistério adensa-se. O que irão fazer a Atenas, sabendo que Tales está em Mileto?
    Ao menos saíram do oriente onde ao outro Xavier não aconteceu nada de bom, a crer em certos dizeres, muito ancestrais. Com um caranguejo a andar de marcha atrás, acho que foi uma prudente decisão, até porque agora na Grécia a confusão é grande, logo os preços devem ser menos especulativos. Os homens são seres práticos!

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Atenas? E a Susana? Fica em Malange sozinha sem se poder banhar duas vezes nas águas do Duque de Bragança?
    Sublinho perplexidades: Francisco chamar-se-á mesmo Francisco? Francisco, ou o homem que agora conhecemos por Francisco, guarda ainda as chaves da “porta de casa, blindada, cinco voltas no trinco, uma, duas, três”? E a “silenciosa e densa” bola de árvore de Natal? Na misteriosa bolsa de Catarina ou de Luísa?
    O misterioso, “silencioso e denso” Gonçalo arranjou-a, boa e bonita, ao ardiloso Diogo. Domingo é que vamos ver.

  3. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Ó Manuel, não vou aqui dizer o que escrevi ali, mas isto não vale ser preguiçoso. Terá de ler-se uma outra vez. Posso garantir que está lá tudo. Até o caranguejo, que nem uma vez nomeei, lá está todinho presente. Dou, no entanto, uma pequena pista, por causa da tua pergunta: então não está ali escrito, algures, que «a lágrima de onde partira teria agora de chorá-la por dentro…»? E não caiu essa lágrima enquanto ele punha a chave no trinco da porta blindada fazendo tremer a raiz do mundo? E não continuam ali os tópicos todos? E se adensam? Enfim. Há muitas pistas… O Diogo agora seguirá as que quiser. Eu gostei muito.

  4. Joana Vasconcelos diz:

    Fantástico! Gonçalo, gostei muitíssimo!

    Apenas algumas singelas questões:
    Como vai a Luísa recuperar o jeep?
    O misterioso Hydranthrópous será algum sereio? Ou terá várias cabeças? E, em qualquer dos casos, terá dentes?

    Diogo, bom ânimo e boa inspiração!

  5. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Joana, obrigado. Tive a sorte de ser a seguir a si (e à Teresa e à Eugénia, claro). Quanto ao jeep devo dizer-lhe que não me preocupei muito. Mas em princípio era da Avis ou de um rent a car qualquer que o vai recolher ao hotel e depois entrega outro à Luísa. Quanto ao Hydranthrópous basta dividir em dois e depois juntar outra vez para se perceber logo o que é que é.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Gonçalo , essa história do jeep ser da Avis, cheira-me a product placement. Palpita-me que vamos ter de te instaurar um lindo processo disciplinar. Agora, vou confesar-te uma coisa: fiquei aliviado com o facto de já ninguém ter de ir para Fort Kochi. Se pudesse ia com a Catarina e o Francisco já para Atenas.

  7. Orcama diz:

    Realmente fantástica a criação da Hydranthrópus. Está lá tudo como diz.
    Lá tive eu de ir buscar mais um dicionário. Por acaso tinha dado uma achega ao comentário que fez no post de Pedro Norton sobre Sócrates de Atenas, que me ajudou muitíssimo a resolver o enigma.

  8. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Gonçalo, que sistemático nos saiu: pegou em tudinho, organizou justificativa e concretamente, conteve e deu-lhe rumo. Gostei do Hydranthrópous. Mas foi mau: roubou-me a expectativa de circularidade da história. Agora nosso Francisco já não termina a viagem dele em Fort Kochi, ciente do equilíbrio onde toda a dualidade se integra, tão bem roubado na fotografia do PN.

  9. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Orcama, seja hydra o animal cilindrico, que nasce na água doce, e é macho e é fémea e é todo… seja hydron, que quer dizer água… o sentido parece-me claro. Junta-se a anthrópous, que quer dizer homem, e aí temos o homem-água (ou a água-homem), que também é terra e é espírito. Aliás, terá que ser terra para ser espírito, tal como o caranguejo de Santa Joana Xavier, que veio do mar — da água — até à praia — a terra — trazendo a cruz — o espírito. Mas tem razão, também pode ser a hydra de Platão — de que não me tinha lembrado -, serpente venenosa com várias cabeças que renascem quando cortadas… Agora tudo depende do Diogo.
    Eugénia, a história é sua. E da Teresa e da Joana. E agora um bocadinho minha também. E não seja assim que eu não fui nada mau. Continua tudo circular. Só que agora o círculo vai ter que incluir uma recta, que para já vai desfazê-lo. Tinha de ser assim. Saímos do mundo das mulheres e entrámos no dos homens. Saímos do mundo interior e entrámos no mundo exterior. Saímos da inspiração oriental e entrámos na expiração ocidental. Mas no fim todos nos reuniremos, pelas mãos do Manuel Fonseca, num círculo capaz de incluir a recta. O equilíbrio lá está: a fazer-se. Agora pelas mãos do Diogo.
    E a razão encontrada para a saída de casa? A partir da raiz do mundo? Em busca da água primordial? Gostou? E o tempo, que continua mudando, mostrando-se enquanto foge do caçador? Gostou? Gostaram? Espero que sim. Eu gostei. Obrigado.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olá Gonçalo, a minha bisavó minhota de quem herdei o nome chamava-se Joana Xavier (Barbosa da Costa) :)

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Claro que gostei, Gonçalo! Estou fortemente desconfiada que gostamos todos muito de escrever o nosso folhetim enquanto nos cabe escrevê-lo. E igualmente desconfiada que o nosso MSF faz a quadratura do círculo dando uma rede preguiçosa de embalo, numa sombra africana, ao nosso Francisco Xavier.

  10. Orcama diz:

    Caro Gonçalo,
    Foi-me mesmo muito útil a sua atempada explicação. Obrigado.
    Sugestionado pela imagem que criei — a Hydra de Lerna, os doze trabalhos de Héracles, a Deusa Hera e o caranguejo que esta enviou para ajudar a hydra e que, pisado, foi transformado na constelação do mesmo nome — li arthro onde estava escrito anthro e vi uma coisa completamente diferente, mas que no fim, até pode bem também ser, como diz. Vamos aguardar qual o tratamento que Diogo Leote lhe dará. Se calhar com algum cunho jurídico à mistura… :)

  11. fabiana diz:

    ai feioooo que se mostrar herdeiro da vovozina

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