02 Neologismos do É tudo gente morta

ESPERITAR — Neologismo Terceiro: já aqui foi apontada a extrema dificuldade de criar um verbo, a propósito desta extraordinária inovação, agora superada pela integração de três, repito, três conteúdos semânticos numa acção. Estes conteúdos são: esperar; espreitar; ter perícia; e estão incluídos no novel esperitar, representante deste novel modo de estar, o inaugurado pelo seu [dele] autor, Pedro Norton, que funcionalmente o encarna. Assim, integra o dicionário de verbos, esperitar: modo masculino de esperar para espreitar, demonstrando perícia, quer na espera, quer na avaliação do espreitado. Ora, confirme*. Temos então:
Infinitivo: esperitar
Gerúndio: esperitando
Particípio: esperitado

 

* Deve-se ignorar a modéstia que sucedeu ao rasgo criativo, mecanismo mais ajustadamente descrito como auto-sabotagem.

Comentários a “02 Neologismos do É tudo gente morta” (11)

  1. pedro marta santos diz:

    Esperitar: garimpar com a esperteza de um sábio e as valências técnicas de um perito.

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Gostei. E tem potencial folhetinesco.

  3. Orcama diz:

    Nada escapa aos Hubblelinianos olhos e Eugénia de Vasconcellos… É como acima se intui: neologismo formado por aglutinação de esperto + espreitar, por via erudita, nada menos, e com a abrangência lapidarmente definida por PMS. Por mim deve passar já ao dicionário. É que há quem muito espreite e nada veja, como um vulgar espreitador.

  4. António Eça diz:

    Eu peço imensa desculpa mas não estou nada de acordo — e com ninguém! «Esperitar» é obviamente uma corruptela popular. Após aturada observação da novel acção — e tendo como cobaia alguém que não pode (nem sabe!) mentir (eu!) — conclui-se que «esperitar» é fundamentalmente o acto de espreitar com certa paciência por cima do ombro dum perito. Resulta daí que o esperitador adquire com a sua acção a capacidade de comunicar com a eloquência do perito assim espreitado…
    Como prova irrefutável das minhas observações, apresento este post — que, estou certo que concordarão, não tem ponta por onde se lhe pegue.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      António Eça, você diverte-me, estou para aqui a rir com o ecrã. Gostou do novelo de novéis — são sempre dois -? Eu também gosto muito, mas a frase com valor de sentença costuma ser: novel escritor, novel romance.

      Escapa, escapa, caro Orcama, eu tenho uma linda, ainda que discreta, miopia.

  5. António Eça diz:

    Ainda bem que a divirto, Eugénia, já que é essa a única razão por que vim a este Mundo.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Tendo já sofrido na carne e no estraçalhado ego a violência destes inventariosos tratos de EV, quero dizer que discordo de tudo o que acima se escreveu e que, solidário com PN, a mim nem um único sorriso me conseguem ARRACNAR com pretensas ironias.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      A sua ingratidão e sua injustiça são homéricas, MSF! Quantas vezes, ó quantas, usei neste blog o verbo arracnar, criação sua de que gostei tanto. Não fosse eu um modelo de bondade delicada e retribuiria a sua vileza usando da sua criação sobre o criador dela, arracnando-lhe, talvez, a bífida língua.

  7. António Eça diz:

    Eugénia! Carago! O meu também era um elogio, e bem sincero!… Por pura vaidade adoro divertir as pessoas! Faz-me bem.
    Nunca se esqueça que eu sou fundamentalmente um simples.
    A sério.

  8. Ó isto será muito útil nas críticas de filmes italianos, em que o catraio “regarda” mulher mais velha, nos seus tratamentos íntimos.

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