28 de Fevereiro de 2010

John Balderassi, (com Mario Sorrenti e Yves Saint Laurent), 2007
Decorrem tempos um bocado foscos, ou então é da minha vista.
Oiço cada vez mais gente que pensa mal a dizer o que pensa. “Pensa mal” é uma expressão simplesmente técnica e se a cortarmos às fatias quer dizer, por exemplo, que se pensa muito pouco que pensar é resolver problemas ou puzzles e que, assim sendo, se pensa pouco naquilo que se diz pensar; dá-se respostas esquecendo-se das perguntas ou o que é pior, há respostas mesmo antes das perguntas.
Cobrem-se, ainda, as coisas com demasiadas respostas, produzem-se explicações com intempestiva facilidade sobre tudo que acontece, como se a contingência não existisse, como se tudo fosse factual e produzido pela necessidade, como se não fosse distinta a “razão suficiente” da “necessária”, como se a sorte e o azar não fossem as mais poderosas constantes, como se houvesse explicações ou razões naturais, como se o que é da ordem do natural ou a natureza fosse parte do pensamento e não, precisamente, aquilo que lhe é exterior. Enfim, como se não houvesse que pensar nas perguntas que queremos fazer, quando se quer procurar as respostas em que se há de pensar.
E depois há os que não entendem a transcendência sem revelação, os que procuram o conforto prêt-a-porter das narrativas como se já tivesse sido tudo dito, só falta agora é ir aplicando aos casos que encontram. E fazê-lo sem interrogações fora das perguntas previstas como se a curiosidade não os movesse e não fosse a centelha que desencadeia o pensamento. Como se não houvesse problemas. E volta-se ao princípio.
E comecei afirmando “oiço cada vez mais gente” porque me parece que vejo cada vez menos entusiasmo pela arte do nosso tempo, qualquer que seja o seu género e espécie, mais capaz de a desmobilizar porque não a entende, pensando que é a arte, ela própria, que não é compreensível. Como se na arte deste tempo que vivemos não houvesse consolo porque ela pensa connosco em vez de pensar por nós. Como se não houvesse consolo em pensar. Isto entristece.
Pelo menos é o que penso.

















Obrigada, Zé. Faço mais uma tentativa. Here we go again… another try. Vamos ver se estou em sintonia com o teu pensamento ou, pelo menos e no mínimo, se o estou a seguir. Acabaste de dar a resposta sobre uma pergunta que me fizeste há pouco, a saber, “Para que serve a Filosofia? Não será ela completamente estéril?”. Na minha tentativa de te satisfazer com uma resposta, optei por dar exemplos; senti que não fui sucedida e que ficaste pendurado, ainda com a pergunta nas mãos. Mas a resposta está contida, pelo menos embrionariamente e em parte, no pequeno texto que escreveste. É preciso pensar bem. Pensar bem é “resolver problemas ou puzzles” tentando, aquando da sua formulação, não minar imediatamente o terreno injectando maneiras de os pôr que contêm, explícita ou implicitamente, uma resposta a eles. Chamamos a isto não cometer “petitio pricipii”; lembras-te? Usando as tuas palavras, quando “há respostas mesmo antes das perguntas” está-se a pensar mal. Pois bem, so far so good. Deixa-me então não perder o fio à meada. Onde, senão na Filosofia, se aprende com rigor a distinguir uma condição necessária de uma suficiente? Onde, senão na Filosofia, se estuda o papel da sorte/azar na sucessão dos eventos? Onde, senão na Filosofia, se pensa e se aprende a pensar? Onde, senão na Filosofia, se pode estudar justamente, entre tantas outras coisas, a função da Arte? É preciso pensar bem. E que vá aumentando, pouco a pouco, o número daqueles que o faz. Estou convencida de que mais uma vez estamos em sintonia, mas corrige-me se necessário. Obrigada!