
O rapaz que viria a ser meu pai calava-se, atónito, à hora certa, para saber as últimas da «bomba antónia» de que falava a rádio de casa dos meus avós. A minha mãe sempre me contou, com visivel emoção, as aventuras e desventuras de um amigo de nome estranho que aportara à sua infância fugido de indescritíveis terrores que insistiam, imagino, em viajar consigo. E isto, claro está, para não falar da mãe que era do Sacha (companheiro de antigas e inomináveis tropelias) que, ainda menina, errava perdida pela Bélgica do pós Guerra até que um milagre,sob a forma de uma tatuagem azul, a restituiu ao que restava da sua família.
O mais certo é que memórias como estas, já de si distantes e muito amaciadas pelo conforto de uma segunda mão, não cheguem nunca aos meus filhos. O que é pena. Porque se assim fôr, ter-se-á perdido, no universo insignifcante que é o meu, o mais eficaz dos antídotos contra o Horror. É apesar de tudo para tentar evitá-lo que guardo, tal como o Vasco, numa prateleira lá de casa, um pessoalíssimo «kit contra o esquecimento» que hei de impingir-lhes quando chegar a hora de os poder chamar homenzinhos:
1 — O Mundo em Guerra, BBC. Provavelmente o melhor documentario de sempre sobre a 2ª Guerra Mundial.
2 — A Segunda Guerra Mundial, Martin Gilbert. Parece que o NYT lhe chamou «Magistral». Eu não faço a coisa por menos.
3 — Se Isto é um Homem, Primo Levi. Não é possível perceber o Holocausto sem ler este livrinho.
Mal não lhes fará.

















Pedro, já li uma tonelada de documentos e afins, mas como o Primo Levi nunca encontrei nada. Pungente e vivo como agulhas. Mas há um filme que é uma das coisas mais terríficas que já se fez: uma comédia sobre o holocausto. O filme chama-se Stalag 17, realizado por um austríaco incipiente chamado Billy Wilder, com outro austríaco igualmente péssimo, um tal Otto Preminger, a fazer de nazi e William Holden no seu melhor papel. O resultado é devastador e de um riso negro. Surpresa: límpido.
Obrigado pela sugestão Manel. Lá vão mais uns euros para a Amazon…
Que bela ideia, vou tratar da minha prateleira.
Pedro (e Vasco), para começar mais cedo (porventura para quem tenha meninas), sugiro o Diário de Anne Frank. Ofereci um a cada uma das minhas filhas mais velhas quando fizeram 12 anos. A idade que Anne tinha quando começou a escrevê-lo. Adoraram e quiseram saber muito mais. Há cerca de um mês vimos juntas na televisão a notícia da morte, já velhinha, da dedicada Miep Gies, que cuidava de Anne e dos outros, no anexo. Mais um sinal que se apagou.
Joana: é uma óptima sugestão, obrigado. Mas deixo-lhe ainda mais uma: Maus de Art Spiegelman. O Horror contado em BD.
E o pior é que tenha quem acredite que o holocausto não aconteceu…acho que é hora de providenciar também uma prateleira.
Em tempo…o último romance que li sobre o tema, mais especificamente sobre o cerco à Leningrado, foi Cidade de Ladrões de David Benioff, roteirista conhecido como David Freedman.
Pedro, acabas de me lembrar que tenho que restituir “O Mundo em Guerra” a casa dos meus pais. Roubei-o às escondidas uma das últimas vezes que por lá passei. É de facto o melhor de todos, a começar pelo genérico que quando o penso sempre me arrepia.
Por isso e pelo soberbo (é pecado?) post, um obrigado.
Concordo 100% com a tua aprecisação sobre o genérico. Lembro-me de ficar muito impressionado com aquelas imagens quando a RTP emitiu pela 1ª vez o documentário lá pra final dos anos 70(?)
Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar!!!
http://www.youtube.com/watch?v=pWRLqw-M1Jo
Só agora descobri, e ando a ler, “Se isto é um Homem”. É um livro impressionante.
Citando Dupond (ou será Dupont?), je dirais même plus: é impossível não ficar impressionado.