Arquivo | Fevereiro de 2010


“True materialism is about what you LEARN in the material realm, not what you EARN”

John Balderassi, (com Mario Sorrenti e Yves Saint Laurent), 2007

Decorrem tempos um bocado foscos, ou então é da minha vista.
Oiço cada vez mais gente que pensa mal a dizer o que pensa. “Pensa mal” é uma expressão simplesmente técnica e se a cortarmos às fatias quer dizer, por exemplo, que se pensa muito pouco que pensar é resolver problemas ou puzzles e que, assim sendo, se pensa pouco naquilo que se diz pensar; dá-se respostas esquecendo-se das perguntas ou o que é pior, há respostas mesmo antes das perguntas.
Cobrem-se, ainda, as coisas com demasiadas respostas, produzem-se explicações com intempestiva facilidade sobre tudo que acontece, como se a contingência não existisse, como se tudo fosse factual e produzido pela necessidade, como se não fosse distinta a “razão suficiente” da “necessária”, como se a sorte e o azar não fossem as mais poderosas constantes, como se houvesse explicações ou razões naturais, como se o que é da ordem do natural ou a natureza fosse parte do pensamento e não, precisamente, aquilo que lhe é exterior. Enfim, como se não houvesse que pensar nas perguntas que queremos fazer, quando se quer procurar as respostas em que se há de pensar.
E depois há os que não entendem a transcendência sem revelação, os que procuram o conforto prêt-a-porter das narrativas como se já tivesse sido tudo dito, só falta agora é ir aplicando aos casos que encontram. E fazê-lo sem interrogações fora das perguntas previstas como se a curiosidade não os movesse e não fosse a centelha que desencadeia o pensamento. Como se não houvesse problemas. E volta-se ao princípio.
E comecei afirmando “oiço cada vez mais gente” porque me parece que vejo cada vez menos entusiasmo pela arte do nosso tempo, qualquer que seja o seu género e espécie, mais capaz de a desmobilizar porque não a entende, pensando que é a arte, ela própria, que não é compreensível. Como se na arte deste tempo que vivemos não houvesse consolo porque ela pensa connosco em vez de pensar por nós. Como se não houvesse consolo em pensar. Isto entristece.
Pelo menos é o que penso.

Estranho. Hoje acordei assim.

Spooooorting!

Angel Di Maria

O tempo e o espaço. Não me interessa o que pensam Newton e Schopenhauer. Como Borges disse que dizia Ts’ui Pên, também eu passei a ter fé numa infinita série de tempos. Com as pernas de Di Maria cada estádio é um jardim de caminhos que se bifurcam. Hoje, Di Maria marcou 3 golos: divergentes, convergentes e paralelos. E um quarto que a minuciosa Lei lhe retirou por incapacidade de aceitar a vertigem do movimento, a possibilidade de um tempo conjectural, oblíquo.

Di Maria é um enigma, um alfabeto de rimas, de reviangas e esquindivas feitas à velocidade da luz. Tem um rosto de adolescente, as desequilibradas pernas de um gafanhoto e um pé esquerdo que toca a terra num só ponto. Quando, a 25 metros da baliza, disparou o terceiro dos seus golos, que em boa verdade foi o quarto, Berkeley, o mais idealista dos filósofos, compreendeu que não podia nunca e não poderá nunca mais negar a matéria. A potência do remate, a elegância da trajectória, o impacto do esférico na rede e a sua suave queda, a imobilidade desamparada do guarda-redes adversário têm uma existência absoluta. Material. Dourada. Perante o milagre desta matéria imperecível, Angel Di Maria ajoelhou-se e sorriu. No fim do jogo, correu para os 6 milhões de benfiquistas e ofereceu-lhes a camisola. Por baixo, tinha uma t-shirt branca com um Cristo redentor, linda rima com o esplendor das suas linhas rectas e circulares, com a explosão de luz e ouro com que reinventa o futebol e o cristalino voo da águia.

Di Maria, lindo menino, “no nos dejes”. Se te fores embora, até eu, “no name boy”, choro.

Dá-lhes com Mozart

Ora aqui está uma forma de destruir em três tempos um dos mais estimáveis capítulos da história da humanidade — a música clássica — ressuscitando pelo caminho a vilania, made in Kubrick & Anthony Burgess, de que o Vasco falava mais abaixo.

Quid est veritas?


Interrompendo brevemente a discussão entre cervejas e radiografias, desenterro aqui (ou enterro, já não sei!) um texto antigo, escrito na altura do geracaode60.blospot.com, a propósito da Páscoa.
Tudo se passa em torno da relação que Jesus nos exorta a estabelecer entre os dois reinos em que naturalmente existimos: o dos homens e o de Deus. A questão, porém, não está em escolher entre a soberania de um ou de outro, pois que ambos são bons, mas em saber vivê-los de uma forma ordenada. Melhor: em saber ordená-los para a verdadeira vida.
Vejamos a história da prisão de Jesus. São Mateus começa por lembrar a pergunta que Judas faz aos sumo-sacerdotes: «Quanto me dareis se eu vo-lo entregar?» A resposta é conhecida: «Trinta moedas de prata.» Consumada a traição, os sumo-sacerdotes, representantes do poder espiritual, entregam Jesus a Pilatos, representante do poder temporal, o qual, apesar de sabê-lo inocente, não vê nele nada a ganhar, pelo que, prudentemente, o entrega à morte.
No dia seguinte, estando já morto Jesus, os sumo-sacerdotes reuniram-se com Pilatos e disseram-lhe: «Senhor. Lembrámo-nos de que aquele impostor disse, ainda em vida: “Três dias depois hei-de ressuscitar.” Por isso, ordena que o sepulcro seja guardado até ao terceiro dia, não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: “Ressuscitou dos mortos.” Pois seria a última impostura pior do que a primeira.» Pilatos respondeu-lhes: «Tendes guardas. Ide e guardai-o como entenderdes.» E eles foram pôr o sepulcro em segurança, selando a pedra e confiando-o à vigilância dos guardas.
O sentido, portanto, é claro: sempre que, em vez de pormos o espírito ao serviço do tempo, submetemos o espírito ao tempo, pervertendo a ordem das coisas… sempre que, tal como Adão, na esfera própria da humanidade, decidimos desobedecer a Deus, erigindo a nossa vontade em absoluto e sujeitando tudo ao nosso próprio interesse… sempre que assim agimos, dizia, transformamo-nos em meros guardiães da mentira e da morte. É este o exemplo de Judas, que assim representa todos os homens.
Imediatamente contraposto a este exemplo, porém, aparece também o de Jesus, que, a igual pergunta, no deserto – onde o diabo, mostrando-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, tudo lhe prometeu se ele o adorasse –, respondeu: «Vai-te Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele servirás.» Jesus sabia, porém (coisa que a sua Igreja, na história, muitas vezes esqueceu) que o reino de Deus é tão frágil como um grão de mostarda, o qual, para dar frutos, tem que morrer. Crescendo, no entanto, «cria grandes ramos, de tal maneira que as aves do céu se podem aninhar sob a sua sombra.»
Jesus apresenta-se-nos, assim, como aquele que, sofrendo perante a mentira e a morte, reza, pedindo a Deus: «Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice.» Mas imediatamente acrescenta: «Não seja, porém, como eu quero, mas como Tu queres.» Jesus é o exemplo daquele que submete as coisas do tempo às do espírito, prescindindo de todas as espadas do mundo e aceitando a vontade de seu Pai, tornando próximo o reino de Deus pela livre entrega de si mesmo à morte para salvação de todos os homens e revelando-se, deste modo, o guardião da verdade e da vida.
Estes dois exemplos sãos extremos. Nas nossas vidas, com efeito, bem poucas vezes têm os acontecimentos esta clareza de vida e de morte. Ao contrário: o mal aparece quase sempre como um bem e o bem surge frequentemente como um mal. A escolha, porém, tem que ser feita, já que, ultimamente, somos mortais. E é perante a radicalidade de uma escolha que envolve toda a nossa vida – a que foi, a que é e a que há-de ser – que, na Páscoa, somos colocados.
A Páscoa, assim, não é a negação deste mundo. Pelo contrário, é a sua maior afirmação. É um convite para uma liberdade mais ampla, que Jesus transporta do âmbito familiar, ou comunitário, com que aparece no livro do Êxodo, para a universalidade do coração de cada homem.
A questão, portanto, é esta: que liberdade queremos nós: uma liberdade ordenada ao reino dos homens ou uma liberdade ordenada ao reino de Deus? E a verdade é que tantas vezes, à pergunta de Pilatos – «Qual destes homens quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?» – respondemos com a multidão em fúria: «Barrabás! Barrabás!»
«Qual de nós te trairá, Senhor?» – perguntavam, perplexos, a Jesus os seus discípulos. «O que mete comigo a mão no prato, esse me entregará» – respondeu-lhes Jesus. Todos nós, na verdade, somos traidores, porquanto, tal como Judas, e embora sempre agindo por bem, tantas vezes, na intimidade dos nossos corações, pomos a nós mesmos à frente de Deus e dos outros.
A diferença, porém, é que Jesus sobrevive no meio da mentira e da morte, convidando para a sua mesa aquele que o vai trair. Aqueles que o rejeitam, porém, não têm outra hipótese senão matá-lo. A escolha da primazia do reino dos homens, com efeito, traz consigo o problema que Pilatos, aceitando libertar Barrabás, imediatamente se pôs: «Que hei-de fazer, então, de Jesus, chamado Cristo?» Ora, a solução é apenas uma: matá-lo!
Matar Deus, porém, é matar o homem. Por isso Judas, matando Jesus, se mata a si mesmo. Na verdade, quando absolutamente nos entregamos ao reino dos homens tudo se torna relativo. Ninguém mais é merecedor de confiança. Então, ao ver um inocente ser condenado por uma multidão desordenada, o mais prudente é fazer como Pilatos e lavar as mãos, dizendo: «Estou inocente deste sangue. Isso é convosco.»
A Páscoa lembra-nos, porém, que não estamos inocentes do sangue que está nas mãos dos nossos irmãos: a não ser, talvez, que seja o nosso. Demasiadas vezes, nas nossas vidas, damos por nós a perguntar como Pilatos: mas, afinal, «o que é a verdade?» Com esta pergunta, porém, transformo a mim em absoluto e a tudo o resto em relativo… e a partir daqui não mais posso confiar: a minha liberdade será proporcional à escravidão dos outros e eu terei incessantemente de ser o guardião da mentira e da morte.
Que liberdade queremos nós? Uma liberdade que acaba na morte? Ou uma liberdade que tem por fim a vida? Eis uma escolha para todos os dias!

Palavras

Geoff Numberg, um linguista, relembra aqui o debate sobre a beleza e o romantismo das palavras. Na velha batalha entre a oportunidade, a actualidade, a História, a força semântica, a robustez etimológica, o significado e o significante , na agreste ou harmoniosa musicalidade do que usamos quando usamos da palavra, Numberg parte de “cellar door” — para muitos, incluindo Tolkien e C.S. Lewis,  as mais belas palavras da língua inglesa — e recorda a predilecção da maioria por “cellophane” nos anos 40.

E na língua portuguesa, qual é a palavra mais bela?

Eu, por exemplo, gosto de “luz”. Talvez porque, cada vez que a escrevo, me afasto da sua ausência.

A propósito de um cartaz

Ponto prévio: independentemente da opinião que tenha sobre o assunto (que não é para aqui chamada), nada me move contra quem procure sensibilizar a opinião pública para a abertura legal da adopção a casais homossexuais. Ainda que para tal recorra a campanhas publicitárias.

Mas, ou eu percebi mal, ou este cartaz da responsabilidade da ILGA (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero) que vos deixo acima — com a imagem de uma criança nos braços da mãe acompanhada pela pergunta “Se a tua mãe fosse lésbica, mudava alguma coisa?” – está a interpelar directamente a criança, ou melhor todas as crianças do país que saibam ler, mesmo que nenhuma noção tenham sobre o significado da palavra “lésbica” ou sobre o objectivo que a pergunta esconde? Ou eu percebi mal ou o que o cartaz pretende é levar crianças que mal saibam articular duas palavras a questionarem as suas mães sobre a resposta a dar à pergunta? E levar as mães atarantadas a inventarem o que lhes vier à cabeça só para não terem de explicar, logo ali, a uma criança de 6, 8 ou 10 anos, o que é ser lésbica, gay ou transgender, e o que é ter duas mães ou dois pais em vez de um pai e uma mãe? Acabando, porventura, a desvalorizar a questão perante o filho e por lhe criar a convicção — ainda naquele estado muito embrionário de convicção que ele terá mas nem por isso com menor capacidade de subliminar e imperceptivelmente lhe determinar as opções do futuro — que aquele “se” e aquele “mudava alguma coisa” pouco importância têm e que é absolutamente indiferente que a mãe seja lésbica, o pai gay, que tenha duas mães e nenhum pai ou dois pais e nenhuma mãe, como a mesma leveza com que pode ser indiferente que o pai ou a mãe prefiram batatas fritas a arroz como acompanhamento do bife?

Ou eu percebi mesmo mal ou o que esta campanha faz é recorrer a um truque grosseiro de manipulação emocional para conseguir os seus intentos. Trata as crianças como adultos quando sabe que elas não o são, dá-lhes a capacidade de entendimento que sabe que elas não têm. Finge ignorar a situação de inferioridade em que as crianças se encontram — e que a lei e a Constituição tutelam em sua protecção — para a explorar e dela tirar partido sob a mentirosa veste do “politicamente correcto”.

Se o empenho da ILGA  na mudança de mentalidades é louvável, não será certamente com manhas destas que lá chegará. Muito pelo contrário, se continuar a entender – como aqui o entendeu – que os fins, por mais meritórios que sejam, justificam todos os meios, corre o risco de se descredibilizar e de contribuir para um passo atrás numa discussão que se quer leal, saudável e plural. 

For a new level of bed delight

E quem nunca, em bed or what or when or where, que atire a primeira pedra!

Para acabar de vez com os Raios Xizes

Agora é que a Papisa me falou ao coração. A Nadia Comaneci foi a minha segunda namorada. Conheci-a em Montreal e apaixonei-me logo. A primeira, mais bonita reconheço, foi a menina que se segue. Se alguma das santinhas do Blog lhe adivinhar o nome prometo que se acabam os Raios X.


O lindo hino da União Soviética

Com a velha União Soviética, pela parte que me toca, foi sempre coitus reservatus. Nunca lhes consegui falar de amor, se é que, como dizia o professor francês, falar de amor é falar para alguém. E, malgré tout, que lindo hino que eles tinham! Este vai servido pela iconografia de serviço. Propaganda pura e não enganadora: heróica, patriótica, musculada, grandes e belíssimas manchas vermelhas, desenhos tão construtivamente definidos, viris, radiosos, truculentamente irónicos quando é para desancar no capitalista. A culminar, Estaline, pai dos povos, objecto amado que a tantos, de paixão, fez escravos.
Quem ainda se lembra de jovens idealistas a descer a Avenida Liberdade, pulmões aos gritos: “E-s-t-a-l-i-n-e  estÁ MORTO…” (ligeira pausa a dar tempo para o estudantil punho bater PUM-PUM-PUM no peito e) “…MAS VIVE NOS NOSSOS C-O-R-A-Ç-Õ-E-S!!!

 

 

A piscina de Jorge (.…) Borges

Li isto,

e lembrei-me disto.

Slow-Mo photography, I guess.

Tem lá dentro espelhos, reflexos e sombras.

Tem também gente prisioneira do tempo e se resistirem até ao fim,

um senhor completamente nu.

Bill Viola’s The Reflecting Pool, 1977–1979

Banda sonora para um querido morto

A culpa é da Eugénia que abriu aqui em baixo a boceta de Nico, perdão, de Pandora.

“Jesus” — The Velvet Underground — The Velvet Underground 1969