* - para a EV quando me acha embirrento

Giorgio Morandi, Natureza morta (vaso azul), 1920
Giorgio Morandi não viveu apartado das ideias e dos movimentos da pintura do seu tempo. Vivia, isso sim, fora das peripécias da vida quotidiana.
Durante os estudos académicos, na fase em que os jovens são euforicamente epígonos na descoberta do novo, estudou com atenção as composições de Cézanne e de Piero Della Francesca. Sabendo o que veio depois, pode dizer-se que eram já as naturezas mortas e uma pintura de planos a chamar por Morandi.
Conheceu os futuristas e com eles expôs na Espozione Libera Futurista Internazionale de 1914, ao lado de Balla e do grande Marinetti. Algum respeito ou pelo menos atenção, deve ter Morandi alcançado junto deles para poder pendurar as suas telas ao pé das de gente tão sobranceira e selectiva.
Na fase seguinte, Morandi associou-se à scuola metafisica, encabeçada por De Chirico. Se bem que o movimento tivesse sido fundado em 1917, só em 1919 Morandi se encontrou com De Chirico em Roma, data a partir da qual os trabalhos daquele se aproximaram um pouco dos propósitos líricos deste. A escola foi dispersa em 1920 e Morandi não se deteve nela.
Depois, em 1926, participa na grande exposição do grupo Novecento, muito ligado ao novel Estado fascista. Todavia, ninguém deixou de reparar que as telas de Morandi contrastava de um modo abissal com a grandiloquência e o fervor nacionalista dos restantes trabalhos.
A partir daqui nunca mais se viu Morandi alinhado, embora também não haja prova de que andasse distraído.
O ponto é este: Morandi não desmente uma das leis empíricas mais constantes (logo verdadeiras?) da pintura: que um artista se faz em escola, movimento ou grupo, fora dos quais não há arte. Até o intratável Van Gogh tinha como melhor, se não único, amigo o pintor Gaughin.

Giorgio Morandi, Natureza morta, 1946
Mas sendo certo que Morandi via, aprendia, aderia, e até se deixava ver, não menos seguro será afirmar que terá sido o grande anacoreta de todos os pintores que participaram no frutuoso século XX.
Viveu sempre em Bolonha, e desde a morte do pai em 1933, sempre na mesma casa com sua mãe e suas três irmãs, e sempre no mesmo quarto onde dormia e pintava.
A primeira vez que Morandi requereu um passaporte foi aos 66 anos, em 1956, para atender a uma retrospectiva sua perto de Zurique, aproveitando, no mesmo passo, para apreciar uma grande mostra sobre Cézanne, o mestre mais querido.
Teve leves empregos, quase sinecuras, como, por exemplo, o de inspector escolar, que lhe forneciam bons motivos para não sair do solitário quarto, trabalhando horas a fio, a pintar interminavelmente os mesmos objectos, numa estreita paleta de cores.
Na sua vida minimal, Giorgio Morandi não recusou os movimentos do século, mas não se moveu com eles. Não se afastou das coisas, mas ficou quieto no mesmo lugar.
O estilo de Morandi progrediu pouquíssimo e evoluiu nada. Raras vezes se afastou de pintar frascos e tijelas, muito apertados no centro da tela, repletos de vazio à volta. Na infinita monotonia dos seus dias, Giorgio Morandi recomeçava em cada tela o princípio da sua pintura.
E nunca se repetiu.

Giorgio Morandi, Natureza morta, 1962

















José Navarro de Andrade, você supreendeu-me e isso não é dizer pouco. Merci pela pasmosa dedicatória. Gostei muito.
(Só verdades, as suas embirrações: ó raio de homem difícil!)