Unschärfe

E como o Manuel afirmou gostar de Heisenberg, aqui vai um aceno. Fundador da mecânica quântica, cujo resultado mais mediático é a Unschärferelation, o princípio da incerteza. É a fórmula que está ali em cima, no selo:

o produto da incerteza do momento de uma partícula com a incerteza da sua posição é da ordem de uma constante, h (6.636 x 10–34 m2 kg/s)

Infelizmente, talvez exclamem alguns de espírito mais literário, não sou dado a trazer à realidade dos dias, filosofias de cordel baseadas em soundbytes científicos. Assim, da mesma forma que abomino o “já Einstein dizia que tudo é relativo”, também não suporto que se use fundamentação quântica para explicar as agruras da vida. Agora, lá por não gostar do romantocientifismo, não quer dizer que não aprecie a beleza das descobertas da ciência, pelo contrário —ah, dirão outros de espírito mais literário, mas ligeiramente diferente dos anteriores.

O que é que diz aquela pequena fórmula? Diz simplesmente que, em sistemas quânticos, não podem existir estados com determinados conjuntos de variáveis, em que ambas tenham valores definidos. O mais comum exemplo é o acima: num sistema quântico, uma partícula, — por exemplo um electrão, — não tem um momento (energia, relacionado com a velocidade) e uma posição absolutamente definidos. Por natureza, o sistema tem uma certa incerteza.

Não há justificações para esta incerteza inerente da natureza. Simplesmente é assim que a ela parece funcionar. E há um formalismo matemático que descreve bem estes bizarros funcionamentos do mundo: a física quântica. Mas só no mundo à escala muito pequenina, por isso repeti sempre “em sistemas quânticos”. À nossa escala, os fenómenos quânticos têm pouco interesse: os radares de Lisboa sabem sempre a que velocidade iam e onde estavam os carros que multaram. Também vós, olhando fora da janela, sabem que o vosso carro está parado e o sítio onde ele está estacionado. Mas se o vosso carro fosse do tamanho de um electrão não saberiam, e não por ele ser pequenino, mas porque a natureza é esquisita, nesse universo. Difusa (Unschärfe).

Disse que à nossa escala, os fenómenos quânticos têm pouco interesse, mas nem isso é completamente verdade. Os vossos telemóveis, as vossas televisões e o computador onde estão a ler este post, todos utilizam tecnologias que fazem uso destes aspectos bizarros da natureza.

Mas mais interessante será chegarmos ao ponto de perguntarmos: e o nosso cérebro, será ele um sistema quântico? Será que nós próprios andamos ao sabor das bizarrias da natureza? Será que fugimos ao determinismo e somos aleatórios por natureza? Provavelmente não é um sistema quântico, já que os nossos neurónios e os mecanismos dos processos neuronais existem e funcionam a uma escala relativamente grande, comparativamente às dimensões relevantes para a quântica, mas não sei o suficiente para o dizer com certeza. A complexidade dos padrões neuronais é gigantesca e só isso serve por si só para gerar sistemas complexíssimos, um pouco da mesma maneira que, apesar de sabermos as equações que governam o movimento de massas de ar, não conseguimos prever o tempo com mais de duas semanas de antecedência. Isso, no entanto, é outra história. CZYRJCY6BPNK

Comentários a “Unschärfe” (7)

  1. António Eça diz:

    Quando Heisenberg tentou a medição dos electrões verificou que quanto mais próxima era efectuada essa observação, mais difusa se tornava a sua objectividade. Consta que nunca conseguiu uma medida igual do mesmo ‘objecto’ — aparentemente porque naquele plano de medição aconteciam coisas imprevisíveis: uma ondulação (do tipo eco?) que alterava qualquer leitura eficaz, como se fosse a superfície ligeiramente agitada de um lago onde boiassem várias rolhas.
    O que eu acho graça é a transposição que muita gente faz do Princípio da Incerteza para um certo agnosticismo generalista que, pela negativa (ou pela dúvida, se quisermos), serve de explicação para praticamente tudo.
    Ou será consolação divergente?

    • Não sei se Heisenberg alguma vez mediu mesmo os efeitos que descreveu; era um teório e na altura da fundação da mecânica quântica a ciência era essencialmente fenomenológica.

      Mas sim, é o que me refiro quando dissesoundbytes científicos, em que pequenas frase servem de grande justificação. Quase sempre sem se saber o que ela quer mesmo dizer. Ou, em alguns casos, por charlatões, que sabem que estão deliberadamente a distorcer.

  2. José Navarro de Andrade diz:

    este post ajuda a provar uma ideia que vou tendo: que se a humanidade desaparecesse, a melhor recordação que deixava era a ciência.

    • É uma ideia interessante. Suponho que depende do que se considerar com “melhor”. E suponho também que se isso é a procura duma verdade universal, acho que sim, que a ciência tem demonstrado ser melhor instrumento que a arte ou a religião. Talvez por se dedicar a algo que é verdadeiramente exterior ao homem, em termos de objecto e de propósito. Mas há com certeza quem discorde.

  3. Orcama diz:

    E aqui por este cemitério, estaremos sempre mortos ou sempre vivos? E que resultado obteremos da observação de nós próprios? Ah, está bem, já somos crescidinhos :):):).

  4. Gott im Himmel, aber zu schwer(ig)…

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