
Paula Rego, Virgem Grávida. Capela do Palácio de Belém
Devo confessar que simpatizo com Manuel Alegre. Bem sei que se trata de um pecado mortal para um liberal mas, como diria Ayn Rand, «as coisas são o que são». Gosto do poeta, do escritor, do homem que mal conheço, daquela voz de fazer inveja. Gosto da coragem, do pensamento livre e gosto até, imagine-se, das inevitáveis contradições e da indisfarçável vaidade.
Feita esta declaração de afectivos interesses, vamos ao que interessa: estou convencido de que Manuel Alegre daria um mau Presidente da República e que a sua candidatura (sem que isso lhe retire qualquer tipo de legitimidade) não é uma boa notícia para o país. Por razões estruturais e por razões de conjuntura.
Comecemos, tautologicamente, pelas primeiras. Admito a subjectividade da interpretação que, obviamente, é apenas política. Mas é a minha e a ela me atenho: de um Presidente da República não se esperam rupturas, não se esperam estados de alma, não se esperam paixões, não se esperam acalorados gritos de revolta, não se esperam actos «que a razão desconhece». De um Presidente da República não se espera que faça, como diz o próprio Manuel Alegre ao Expresso, «coisas loucas ou heróicas». Muito pelo contrário. O Presidente é a referência última e o símbolo máximo da nação, a derradeira válvula de escape da sociedade política, «o garante do regular funcionamento das instituições». O Presidente é o guardião da «bomba atómica» do sistema político e deve, por isso mesmo, ser o «grande moderador do regime». No fundo, no quadro institucional português, o Presidente é (deve ser) o mais político de todos os políticos. Ora, Manuel Alegre tem, por mérito das suas convicções fortes e da sua coragem, um papel inestimável e insubstituível no xadrez político português. Mas o fato de Presidente, na minha modesta e seguramente discutível opinião, não lhe assenta. E como não acredito que se deixasse espartilhar por este, a sua eleição implicaria, de certa forma, uma refundação da função presidencial. Num país que vai perdendo, ano após ano, o respeito por todos os seus demais símbolos e que tem visto desaparecer, todas e cada uma das suas principais referências, não me parece que o risco se justifique.
A estas razões acrescem outras que são puramente circunstanciais. Fosse por sentido de Estado ou por puro cálculo político, o que é certo é que o próprio Cavaco apoiou, enquanto líder do PSD, a candidatura ao segundo mandato de Mário Soares. Não tenho dúvidas de que, com a decisão, a instituição Presidencial ganhou em prestígio e que, por essa via, o sistema político português ganhou em solidez. Este cenário é hoje obviamente irrepetível. O nível de crispação política entre Belém e São Bento assim o determina. Mas tal facto não invalida que, por razões que se prendem com a actual instabilidade política e com a gravidade dos problemas que o país enfrenta e que exigem uma especial capacidade de construção de consensos, precisemos de tudo menos de transformar as próximas eleições presidenciais numa disputa marcada por um elevado nível de confrontação pessoal e ideológico. Ora, mais uma vez, receio que a candidatura de Alegre possa representar isso mesmo. Mas pode ser que me engane.
Publicado na Visão a 21.1.2010

















Concordando e subscrevendo a matéria de doutrina, não poderia discordar mais do perfil do putativo candidato Manuel Alegre. E eu que me digo de esquerda…
Reconheço que o homem divide opiniões…