
Leslie Howard & Bette Davis in Of Human Bondage, John Cromwell 1934
Da “Servidão Humana” de Somerset Maugham, que passou agora para a minha mesa-de-cabeceira (ou para o bidé se eu fosse o PMS) e do qual ainda só li o prefácio, aqui deixo um delicioso parágrafo do mesmo.
O autor é provavelmente a última pessoa capaz de discorrer com objectividade sobre o seu próprio trabalho. O distinto romancista francês Roger Martin du Gard conta, a propósito da questão, uma história exemplar sobre Marcel Proust. Proust queria que determinado jornal francês publicasse um artigo sobre o seu grande romance e, pensando que ninguém seria capaz de o fazer melhor do que ele, sentou-se à secretária e escreveu-o ele mesmo. Depois pediu a um jovem amigo, também escritor, que o assinasse e entregasse ao director do jornal. O jovem assim fez, mas passados alguns dias o director mandou-o chamar. «Tenho de recusar o seu artigo» disse ele. «Marcel Proust jamais me perdoaria se eu publicasse uma crítica tão superficial e contundente sobre a sua obra»

















Excelente reflexão!!!
Vasco, que grande romancista que é Somerset Maugham — romancista, romancista, com personagens, enredo, reflexão, descrições, drama, fina ironia (como é o caso desta tua e dele digressão). O que o “Fio da Navalha” fez por mim! Um dia tenho (logo que volte a postar e peço desculpa pela interrupção) de contar quando, como e porquê. Esta pequenina história do Proust é um mimo.
Vasco, grande lembrança, o Fio da Navalha e o Servidão Humana são dois dos livros da minha vida.
“I did not know that this was something out of my control and that when the urge to write a novel sized me, I should be able to do nothing but submit. Five years later, the urge came and, refusing to write any more plays for the time, I started upon the longest of all my novels. I called it ‘Of Human Bondage’” W.S.M. in Autobiography.
S.M. tinha escrito na sua juventude o “Of Human bondage” numa versão a que chamou “The artistic Temperament of Stephen Carey”. Foi recusada por todos os editores a quem enviou o manuscrito. Muitos anos depois considerou essa desilusão inicial, uma grande sorte.
Sobre isso escreveu:
“Não estava suficientemente distanciado dos acontecimentos que descrevia para deles poder tirar o melhor partido, e ainda não tinha vivido uma série de experiências que mais tarde vieram enriquecer a história que finalmente escrevi. E também ainda não tinha aprendido que é mais fácil escrever sobre o que se conhece do que sobre o que não se conhece”
Foram os contos de Somerset Maugham que primeiro me tocaram.
Depois, “The Razor’s Edge”.
Ainda não li “Of Human Bondage”, mas com esta boa lembrança, Vasco, já fiquei cheia de vontade.
Aliás, a releitura decerto vai trazer coisas diferentes.
Que bom partilhar a sua leitura atenta. E recortar assim estes excertos deliciosos.
Tudo culpa da minha irma Joana que me o ofereceu este Natal.
O meu Somerset Maugham preferido no cinema não é “The Razor´s Edge” (embora prefira a versão de 46, de Edmund Goulding à de 84, de Jonh Byrum, inclino-me mais — em todos os sentidos — para a Sophie MacDonald de Theresa Russell, sempre em desespero, do que para a de Anne Baxter, sempre em calculismo). Também não aprecio as versões de “Of Human Bondage” (tanto a adaptação de 34 — com um Leslie Howard de fugir — como a de 46 são romarias melodramáticas pouco frequentáveis). O meu predilecto é o recente “The Painted Veil” (John Curran, 2006), onde o sofrimento/sacrifício do par protagonista (Edward Norton, sem esgares psicopáticos e Naomi Watts, morena — isso mesmo — a suar no interior da China depois das infidelidades ocidentais) é revelado com discrição, e um sentido do Tempo como reflexo da mudança interior, que não são comuns em fitas destas paragens e orçamentos.
Li os dois era eu menina e moça e de casa dos meus pais.(Minha avó tinha um pé boto.Eu tenho um fio.Hallmarks.)
Quando li o meu primeiro Somerset Maugham senti-me, tive a certeza de que, era crescida. Foi O Mágico. Da editora Dois Mundos, penso, não sei.
The painted veil, também para mim, foi o primeiro SM de que gostei no cinema. Até a humidade e a roupa colada ao corpo se sentem.