
Agnes Martin, Untitled #8
“Nem vais dar por isso”. Preocupava-o apenas a bata ridícula que lhe deram a vestir e a possibilidade de proferir inconveniências durante a passagem pela anestesia. Acordou meia hora depois com a memória intacta do último instante em que ficou consciente. Esteve totalmente entregue e vulnerável, num estado tão nulo que nem chega a ser vazio, ou lugar, ou nada. Apenas tinha meia hora a menos. Deve ser por causa disto que fizeram deus, porque isto não tem forma de ser. Há sempre uma enfermeira que fala por diminutivos a dispôr umas bolachinhas. “Daqui a uma semana tem o resultado do exame”.
Um dia lindo, fazia um frio quieto.
À noite, em casa, pôs-se a ler um conto de Teresa Veiga escutando Zoe Keating. Há misturas que não se fazem; são demasiadas vozes. Sem vontade de dormir, mas cheio de sono.
Ela vem a caminho.
















