
Curiosamente, li este texto do JNA no dia em que terminei a leitura de “Angústia para o Jantar” de Luis de Sttau Monteiro que tinha iniciado em Lisboa este Natal. Digo curiosamente pois o realismo angustiante do texto (onde provavelmente encontro mais de mim próprio do que aquilo que gostaria de admitir) sugere de alguma maneira o estilo desse angry young man Português que foi Sttau Monteiro, mas também e sobretudo porque foi o próprio JNA que em pleno cemitério de campanha, (montado num simpático – oops — restaurante de Campo de Ourique) contou alguns episódios sobre esse autor passados nesses longínquos anos 70 — as coisas que se discutem por volta da meia-noite num cemitério!
Inspirado por essas conversas de além-tomba e de regresso à casa paterna onde alojo quando de visita á pátria, decidi dirigir-me à pequena biblioteca da mesma para beijar os meus filhos que nela (literalmente) dormiam, e para, ali, à luz do meu ubíquo Blackberry, tentar encontrar o único livro deste autor que me lembrava que nela existisse, o dito “Angústia para o Jantar”. Para minha alegria, ele lá estava, numa velha edição da editora Ática, com um belíssimo desenho sobre uma vistosa capa vermelha, saído do tempo em que os livros existiam desprovidos de auto-colantes e auto-promoções.
O livro, que nunca tinha lido, é indiscutivelmente uma datada mas soberba sátira de costumes e de regime e embora cheio de lugares comuns, é uma peça corajosa, considerando que foi editado em 1961, e escrito com uma tinta de uma acidez e um humor nada recomendáveis para a época. A trama é simples e os personagens são poucos. Gonçalo é o “high breed” da história, rico industrial, tem um motorista, uma família antiga e (quase) exemplar, é membro de um clube Lisboeta, possui amigos em posições influentes e tem em Alexandra (alias Amélia) uma amante, que mantêm e a quem paga um luxuoso apartamento na Av. Infante Santo. Janta todos os dias 15 do mês no Leão d´Ouro com António, um velho companheiro de liceu, um pobre diabo das under-classes que sonha com o impossível e que no fundo odeia o Gonçalo e tudo o que ele representa. Com o desenrolar da narrativa, a sensação de mal-estar entre ambos vai aumentando, António conhece Alexandra, o mundo começa a girar ao contrário e o leitor vê-se no final da história, sentado também ele no Leão d´Ouro, em frente de um bem servido, e frio, prato de angústia.
Não resisto a apontar aqui um dos melhores parágrafos do livro. Gonçalo, depois de numa festa admitir a um seu amigo que a única coisa que vale a pena defender é a posição individual e o próprio eu, produz este delicioso trecho de análise sócio política do Portugal dos anos 60, que passo a transcrever.
As ideias políticas, sejam elas quais forem, envolvem sempre juízos de valor e, por isso mesmo, a aceitação ou o repúdio da ordem social existente. Ter ideias políticas é dar a entender que a ordem social existente é alterável, susceptível de apreciações valorativas. É por isso que no meu meio quem tem ideias políticas é olhado com desconfiança. As classes sociais criam mecanismos de defesa de que os seus próprios membros desconhecem a razão de ser. Para «estragar» uma agradável reunião social, basta um indivíduo dizer que há na rua quem queira assaltar a sala e partir copos…
Regra 19ª dos jogos que não levam a nada: «As pessoas decentes não têm ideias. Quem tem ideias são os políticos, pagos para isso mesmo, e uns intelectuais possidónios que não se sabem vestir e que escrevem para o povo, já que as pessoas decentes não lêem livros escritos em Português»
















