Sabor aveludado

A inflexão na sonoridade dalguns dos «a», com a abertura do som, depois de uma fracção de tempo ínfima quase fechado. Os «e» circunflexos que enchem a boca. O alongar dalgumas das sílabas. Pouco interessa tentar descrever os pormenores, basta ouvir. Gosto especialmente do sotaque do Porto em canções.

Não é bem só do Porto, é daquelas redondezas. Não sei especificar bem, mas começará ali pelos lados de Aveiro, parando antes de chegar ao Minho; para o interior, não deve ir muito além de Amarante.

Talvez não passe de uma colecção de boas memórias. Talvez não sejam mais que boas recordações deixadas pelas músicas, ou marcas que o Porto cravou. Aquela cidade escura radia algo que não sei bem o que é, mas que me atrai e me faz pensar no futuro. Num futuro, sempre risonho. O falar daquelas redondezas leva-me até lá. É, certamente, datada, mas aqui fica uma lista de alguns dos meus intérpretes favoritos com o tal sotaque.




Começo com os incontornáveis, — para os da minha geração, — Ornatos Violeta. Manuel Cruz não engana ninguém: é todo Porto em cada sílaba.

Dia Mau | O Monstro Precisa de Amigos


Para horror de muitos teenagers atormentados e não só, o grupo desmembrar-se-ía em 2002, mas não acabou tudo aí. Manuel Cruz transferiu a sua voz para os Pluto, tendo entretanto já passado para o  Foge Bandido Foge:

Só mais um começo | Bom Dia


e o baixista Nuno Prata deu casa própria ao seu portoguês:

Nada é tão mau | Nuno e Nico


Há-os já com currículo. O porto de Sérgio Godinho é voluptuoso quando fala de Lisboa:

Lisboa Que Amanhece | O Irmão do Meio


O Rui Veloso, com cuja canção duplamente homónima partilho o nome, tem um lado lunar que não é o melhor que já fez, mas de que gosto muito:

Lado Lunar | Lado Lunar


E o Pedro Abrunhosa:

Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar | Tempo


Há outro Rui, o Reininho, de cuja voz não sou particularmente grande apreciador. Ainda assim, pelo relevo que tem, não o poderia deixar de fora, pelo que o incluo aqui num dueto com a também portista Mónica Ferraz, numa música dos Mesa:

Luz Vaga | Mesa


E agora, sempre suave, a vila condense, Manuela Azevedo e o seu Clã:

O sopro do coração | Lustro


Voltemos a mais novos. Jorge Cruz, da fronteira sul desta região demarcada, cuja Dona Ligeirinha talvez seja mais famosa que a Adriana. Ainda assim, gostei muito de:

Nada | Poeira


O funk dos Outbreak acabou e agora, sei, pelo menos há miguelation. Mas a Maia da Marta Girão ficou por aqui:

Insiste em Resistir | Minuto Funk


Os dois mil e oito, também da Maia, ainda em versão sem ser de estúdio:

Acordes com Arroz | 2008


Por fim, o Paulo Praça, ex-Grace, a solo, num dos discos que mais gostei nos últimos tempos:

(Diz) A Verdade | Disco de Cabeceira


Venham mais.

Comentários a “Sabor aveludado” (11)

  1. Diogo Leote diz:

    Francisco, para além da tua lista, que inclui alguns nomes que eu não conhecia, não haverá certamente album mais portuense (ou pelo menos tão portuense como alguns do Rui Veloso e dos GNR) do que o primeiro dos Taxi, no princípio dos anos 80 (eu sei, eu sei, que não “é da tua geração”)…

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Francisco, adorei! Tanto, que fiz um outro post, lá em cima. Destas, gosto muito de quase todas dos Clã e de algumas do Pedro Abrunhosa, sobretudo desta. Há várias que não conheço e que vou ouvir com mais tempo …

    Diogo, concordo que os Taxi marcaram absolutamente e à época o rock à moda do Porto. É pena terem ficado tão datados: dificlmente se conseguem ouvir agora, a não ser numa de super nostalgia adolescente …

  3. É verdade, mas realmente os Taxi só de nome.

  4. Joana Vasconcelos diz:

    Nem o Chiclete? Nem a Vida de Cão? Nem o Cairo?

    Os Taxi tentaram um regresso recente, com qualquer coisa como Não sei se sei (ou Só sei que sei ou assim) mas não tinha nada a ver com estes (e outros) verdadeiros clássicos que refiro …

  5. sem-se-ver diz:

    (pode dizer-me qual o audio player utilizado?)

    (é lindíssimo)

  6. Ricardo Ramalho diz:

    Ornatos!!

    Fizeste-me ir à procura disto no iTunes! :)

    Obrigado!

  7. teresa conceição diz:

    Gostei muito desta lista, Francisco.
    Gosto de tudo e muito dos antigos,
    dos mais recentes sobretudo de Ornatos e Manuel Cruz.
    O livro-cd do Foge Bandido Foge é lindo.
    Comprei-o ao próprio, no final de um concerto de boa memória.
    O site está muito bem feito.
    O livro merecia um texto e uns poemas destacados!

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