Quando não só a terra treme


Pat Robertson foi fundador e presidente da Christian Coalition of América um grupo de pressão da grande influência no interior do Partido Republicano. Em 1988 ainda teve uma aparição frustrada nas primárias para a eleição presidencial, mas foi nos mandatos de George W. Bush que mais se aproximou do poder executivo e a sua voz mais se fez sentir. Não é um qualquer.
Ora, sobre o terramoto no Haiti, o Reverendo Pat Robertson apresentou uma explicação, digamos metafísica, para o terrífico fenómeno. Disse ele que embora as pessoas não gostem de falar disto, é um facto histórico terem os haitianos feito um pacto com o diabo para se libertarem do jugo colonial francês, no tempo de Napoleão III ou “whatever” (sic). Amaldiçoado desde então, aquele país tem sofrido constante miséria e turbulência, ao passo que os seus vizinhos da República Domicana, que com eles partilham a mesma ilha, usufruem de uma vida normal. Donde que o terramoto possa ser a “blessing in disguise”, pois permitirá uma reconstrução maciça do país e pôr cobro à maldição. O remédio será então rezar muito por eles.

Em 1756 o padre Gabriel Malagrida, jesuíta de puro recorte, devoto, pio e repleto da mística da Contra Reforma, publica o opúsculo “Juízo da verdadeira causa do terramoto, que padeceu a corte de Lisboa no primeiro de Novembro de 1755”. Impressionado com a cegueira pragmática de Pombal, que preferiu “enterrar os mortos e cuidar dos vivos” em vez de se deter na reflexão das causas transcendentais do cataclismo, Malagrida toma como tarefa sua revelar as profundas e verdadeiras razões do terramoto. Quais foram?
“Sabe pois, oh Lisboa, que os únicos destruidores de tantas casa e Palácios, os assoladores de tantos Templos, e Conventos, homicidas de tantos seus habitantes […] são unicamente os nossos intoleráveis pecados.”
Que medicina prescrevia Malagrida para curar tamanho mal? Bastante oração, procissões, penitências e sobretudo recolhimento e meditação de seis dias nos exercícios de Inácio de Loyola. Noutro passo fustigava como relapsos aqueles que procuravam abrigo nos campos e levantavam ruínas na cidade.
Esta linha de pensamento não é anti-moderna mas pré-moderna, e se hoje nos inclinamos a considerá-la absurda ou pior, como uma impostura intelectual, ou pior ainda, como indigente charlatanismo espiritual, não deixaremos de encontrar nela uma genealogia que remonta, intacta e inalterável, desde as especulações da escolástica medieval. Há 250 anos, foi um bom catalizador para a afirmação filosófica, por antinomia, das Luzes.
À boa maneira do século, o vencedor Pombal purificou o vencido pelo fogo inquisitorial. O nosso tempo é mais suave, Pat Robertson continua a ir à televisão.
Em que época é preferível viver?

Comentários a “Quando não só a terra treme” (4)

  1. Alberto Perry diz:

    Registo a excelente escolha das imagens. Quem pode pensar que pássamos pelo mesmo? Por agora procuro um livro extraordinário do prof. Candido dos Reis onde retrata o cronista Padre António Pereira de Figueiredo que relata ao pormenor este horrivel desatre.

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Fantásticos, o seu texto e as fotos, JNA.

    O problema é que a peregrina tese de Pat Robertson — assente na firme convicção de que Deus se dedica a intervir amiúde no curso da história e dos acontecimentos — tem mais seguidores que os do zeloso tele-evangelista. Como crente, fico, mais vezes do que desejaria, pregada ao chão (to say the least) quando ouço atribuir a castigo divino insucessos de toda a ordem, doenças e até gravidezes inesperadas… Mas, sobretudo, quando, perante a morte em circunstâncias não raro dramáticas, ouço do sacerdote — não jesuíta — como única palavra de conforto aos desolados presentes que foi Deus que assim o quis, que por ser uma pessoa muito boa, a levou para junto de si…

  3. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Meu caro José Navarro de Andrade. Longe de mim querer discutir. Ao contrário, mais abaixo, limitei-me a perguntar. Mas registo que, ao que parece, sem bem o compreenderes, exemplificas neste post o que então eu quis dizer: então temos de escolher entre uma época ou outra? Ou comes ou calas!? A isso se resume a nossa tão apregoada liberdade?

  4. José Navarro de Andrade diz:

    Caro Gonçalo: discutir é um dos maiores prazeres que tenho na vida. Prefiro a discussão ao diálogo porque aquela obriga, compromete, incendeia as palavras. E de Platão aos monjes tibetanos, discutir é um processo de encadear argumentos, procurar refutações, ponderar o pensamento próprio em torno daquilo que o outro profere, tentar ser incisivo, sem “palha”. É o que tento alcançar numa discussão, a qual só procuro com quem me interpela verdadeiramente. É o caso.
    Quanto à questão que colocas: como não viver na época em que vivo? Não sou marxista, pelo que não tomo como verdaderia a irreversibilidade da história, mas como interpretar (e tentar resolver) os problemas que se me colocam fora dos instrumentos de que o meu tempo dispõe? Não será uma forma de alienação (espero que o termo não seja equívoco de tão mau uso que se fez ele) sair do lugar e do tempo em que fui posto e que não posso alterar, à procura de um mirífico “what if…”?

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