João, precisamos de si

Tenho andado todo o dia a remoer saudades. Ó João, sem si não há ninguém capaz de me fazer perceber porque é que, ao saber da morte de Jean Simmons, tenho pena e, ao mesmo tempo, a inocente alegria de pensar que uma deusa se juntou a outros, tantos deuses.
Preciso muito de si, do João, hoje que devia ser dia de Gulbenkian, de três filmes na Gulbenkian. O João havia de chegar com os sapatos calcados atrás e o coçado pullover cor de rosa de fim de semana, trazendo consigo a vontade de voltar a ver os mesmo filmes que tinha visionado no dia anterior para escrever as famosas “folhas”. Alguém diria: Jean Simmons! só para o ouvir recitar “meiga, doce, bonita, frágil”, como ainda o ouço roucamente dizer quando releio o dicionário de quase 700 páginas que escreveu sozinho, a sua melhor companhia, para os 4 volumes do catálogo do Musical.
Deixe ver se me lembro. Era dia do “Guys and Dolls” de Mankiewicz, o único filme onde a tão bela inglesa se cruzou com o mais americano e eléctrico dos actores. O João vai dizer que ela estava vestida de encarnado, mulherzinha idealista da Salvation Army, a tentar “chamar ao rebanho de ovelhas tresmalhadas” o falso penitente Marlon Brando. Com aquele riso sacudido (o seu, João) que tão bem conhecíamos (e temíamos por húmidas razões que não vêm ao caso) explicaria: “quem aborrece excepcionalmente o pecado é por norma excepcionalmente atraído para ele.”
A seguir, com o tão honesto prazer de quem, de outros falando, só a si se conta, vai contar-nos o episódio de Havana, rindo-se (e sempre que o vi ou ouvi rir, foi por amor) dos infundados ciúmes da puritana Sister Sarah Brown e da “bagarre” que se lhe seguiu, para chegar (o João) onde queríamos que chegasse, ao momento em que a pureza de Sister Sarah assalta, para surpresa do próprio, a devassidão de gangster que Brando incarna. E lembro-me, João, dos seus olhos pequeninos, a brilhar de negro brilho, só para nos dizer que a vermelha boca de Jean Simmons, no intervalo de inomináveis coisas, jurava ao submisso Brando, palavra a palavra, saber o que estava a fazer. Dizia ela, dizia o João, para a seguir o João dizer o que respondendo diria o já perplexo Brando: “Do you kid? I don’t.
Quem dizia o quê? Que lábios diziam ou que lábios noutros lábios se esmagavam foi o que na altura não sabia e hoje gostava que me explicasse. Agora que, dessa “enormousely talented girl”, vejo com olhos de ver os lábios que a terra vai comer, percebo que os beijos que o João dizia eram beijos que o João beijava. Pouco interessa que no filme de Preminger, “Angel Face” - e era “angel” como nenhuma cara voltará a ser -, Simmons matasse pai, madrasta e amante, para se suicidar em “pasmosa” cena; como pouco interessa que, de corpo e alma, ela tenha, em “Elmer Gantry”, sucumbido aos encantos do torrencial Burt Lancaster. Agora sei que, de “Black Narcissus”  ao “The Actress”, sempre que a quisermos compreender, explicar ou admirar, temos de muito a amar. Tenho andado, todo o dia, João, a remoer saudades de alguém que a tanto amor se atreva.

Comentários a “João, precisamos de si” (5)

  1. pedro marta santos diz:

    O mais benardiano dos teus textos, Manel. Gostei muito, e deu-me saudades da noiva de Spartacus, da doçura eterna de Jean, e dos seus enredos que, docemente, levam Mitchum a desistir, metendo marcha-atrás rumo ao precipício.

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Que bonito texto, Manuel Fonseca. Às vezes, ainda bem, o étimo de precisar é amar. Gostei muito.

  3. Pedro Norton diz:

    É tão bom remoer saudades!

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Aos três, os dois Pês e a EV, agradeço o que só pode ser o resultado da nossa já avançada “beautiful friendship”. Isto, para não me estar a esticar e, a cada um, entre beijos dizer “we’ll always have Paris!”

  5. Orcama diz:

    “Happy ending”… “Jean Simmons, Rose of England”.

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