Durante este último período Natalício, fui com os meus filhos ao Museu do Oriente em Lisboa. O museu é muito interessante, a exposição em si, um monumento á nossa presença e influência no mundo e na Ásia. Particularmente curiosas as maquettes da Sé Catedral de Goa e da Catedral de São Caetano (que já tive o prazer de visitar) e que se encontram no primeiro andar do museu.
O segundo andar, no entanto, é já uma espécie de bric-à-brac religioso não muito diferente de um qualquer mercado de rua Indiano ou Chinês.
Foi no entanto aí, que tudo aconteceu. O meu filho, que tem seis anos e é já um fã devoto de Salgari, do Sandokan e do Kammamouri, entrou decidido a encontrar a tão temida Kali, deusa azul e violenta da tradição hindu, associada ao tempo e por vezes à morte. A excitação abrandou quando no primeiro expositor dedicado á Índia deparou com isto:

Nessa noite ouve pesadelos e muito medo.
Sorri o tempo todo em que lhe segurei na mão esperando que voltasse a adormecer, lembrando-me de uma minha noite de pesadelos no final dos anos 70, depois de ter lido isto:


















Não sei se alguma vez teve pesadelos, mas o meu irmão, em tempos reagiu, com não tão dessemelhante repulsa a um retrato da D. Carlota Joaquina. Embora esta última lhe tenha aparecido no caminho, não foi ele que foi procurar…
Realmente a deusa não parece coisa pouca. E ainda por cima deitou-lhe a língua de fora.
Olá Francisco. Gosto de te ver com um espírito mais literário… :)
Que criatura mais horrível! Parece um polvo, mas para pior … Não admira que as crianças se assustem!
Eu, ao contrário do que caluniosamente diz aquela Joana Vasconcelos que acha que me conseguiu expulsar, não faço mal a ninguém. Em princípio. Desde que sejam humanos e, claro, não se atravessem muito no meu caminho. E não sou nada desgrenhada — ela é que anda sempre muito penteadinha, apesar de ter a mania de que tem alta trunfa …
Ouvi a tal Joana há bocado a queixar-se de que está com muito trabalho. Oxalá se mantenha entretida, bem longe deste computador … À bientôt…
O meu terror nocturno foi real, nunca me surgiu dum livro (mas percebo!): com seis/sete anos dormia pela primeira vez, só, num quartinho mínimo duma casa que não conhecia. O quarto tinha uma rua por baixo, onde a partir das quatro da manhã iam passando carros de bois numa chiadeira de trepar paredes. E eu não sabia o que aquilo era!… E depois vieram os lobos, claro, os lobos!! — dois grandes cães da serra que não faziam mal a uma mosca mas que ladraram a noite toda.
Acho que me levantei verde.
De facto esta Kali é assustadora. Mas há outras religiões com iconografia igualmente escabrosa, por exemplo, aquela que adora um homem espetado num instrumento de tortura, a sangrar das lancetadas. Ou aqueles deuses aztecas, mais, incas, tão vorazes.
Que bom voltar a ver a Adèle Blanc-sec. É uma das minhas heroínas favoritas da BD.
Uma fleuma que pouco se aterroriza com os monstros e demónios.
Os cenários das aventuras do Tardi são marcantes, mas já os li em idade de lhes gozar o suspense e o ambiente sem os levar para o sono.
A deusa e seus milhares de parceiros da tradição hindu também dariam boas páginas de banda desenhada. Mas a cultura pop ocidental já se encarregou de os transformar em decoração e bric-a-brac aos nossos olhos.
É preciso um infantil olhar fresco e limpo de referências para descobrir na pintura indiana o que devia ser óbvio: a violência e o castigo — parece que caem sobre os mortais que desafiem os deuses:)
O que é longínquo, se nos assusta, é por pouco tempo; o que nos é próximo, de tão frequente, perde a carga sinistra. Quando a iconografia cresce connosco, tem uma conotação emotiva que a cobre de roupagem terna.
Por isso é que podemos sorrir com a ironia do JNA: ele notou o que nos passa ao lado.