Outro retrato

NPG 151, James Scott, Duke of Monmouth and Buccleuch
Se o retrato de Isabel de Portugal que Joana Vasconcelos nos oferece encerra um enigma, que poderemos dizer deste retrato de James Crofts, depois James Scott, 1º Duque de Monmouth e 1º Duque de Buccleuch?
O ar desprendido do fidalgo, com o seu quê de melancólico? A desconfortável pose, quase egípcia, com o ombro esquerdo tão adiantado, forçando a cabeça a torcer-se sobre ele? O fundo tão escuro, dissolvendo nas suas trevas a cabeleira e a armadura negra, como se houvesse pressa no acabamento?
Os beefeaters da Torre de Londres contam a história assim: James Crofts, bastardo de Carlos II, achou que poderia reclamar o trono quando Jaime II se converteu ao catolicismo, tendo comandado aquela que ficou conhecida como “Rebelião Monmouth”. O Duque foi derrotado, capturado, condenado e decapitado. Só depois do enterro descobriram que ao contrário do que exigia a tradição e as boas maneiras, não ficava sobre a terra nenhum retrato dele. A solução foi exumar o cadáver, coser a cabeça aos ombros e chamar William Wissing para que pintasse com celeridade a efígie do Senhor de Monmouth.
Se é verdade ou lenda é o que fica por apurar, só é verdade que ajuda a compreender a estranha figura que sobrou de James Scott.

Comentários a “Outro retrato” (4)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    É a ler histórias como esta que percebemos não haver no mundo lugar mais excitante do que um cemitério.
    E será que o tão bom ar deste morto se cruzou com a linda palidez de Isabel de Portugal? No cemitério de mortos tão bem vivos, digo eu!

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Liiiindo! Mas, José Navarro, há que reconhecer que o pintor era mesmo bom para, em tais circunstâncias, ter produzido um resultado muito para lá do meramente aceitável!

    Esta ideia de andar a desenterrar mortos para fins, no mínimo, impensáveis, fez-me lembrar o episódio igualmente bizarro da trasladação de Juan de Austria (filho natural de Carlos V e vencedor da batalha de Lepanto). Juan morreu em 1578, na então Flandres, e foi sepultado em Namur. Pouco mais de um ano volvido, Filipe II, que sempre tivera uma relação difícil com este meio-irmão, decidiu cumprir aquela que se sabia ser a sua última vontade – repousar junto de seu pai, no Escorial. Procedeu-se então, por ordem sua, à exumação do cadáver.

    O que, só por si, não teria grande mal, não fora o facto de, para facilitar o transporte e, ao que se sabe, garantir o secretismo tido por necessário ao êxito da operação, se ter optado por esquartejar o cadáver, tendo os pedaços sido remontados à chegada a Espanha… Seguiu-se novo sepultamento com todas as honras devidas a um membro da realeza …

  3. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Joana, esta história lembrou-me uma, mais prosaica, que contava o meu avô materno, sobre uma sua tia, solteira, que decidira mandar fazer um caixão no qual pudesse ser enterrada deitada, mas de lado, e não voltada para cima, como é costume, de modo a que, no dia do juízo final, ao acordar, a primeira coisa que haveria de ver seria os seus pais, em frente dos quais seria depositada, num jazigo da família. O caixão lá se fez e esperou ainda muitos anos para cumprir a sua eterna função. E durante todos esses anos o meu avô, sempre que a via, exprimia a sua enorme preocupação quanto à correcção das disposições testamentárias referentes a este tão delicado assunto, não fose dar-se o caso de inadvertidamente a deitarem voltada contra a parede!

  4. Joana Vasconcelos diz:

    Liiiindo, again! Mas, Gonçalo, esta ideia da sua tia-bisavó até teria algum fundamento, se não teológico, pelo menos artístico!

    Não foram os túmulos de Pedro e Inês, em Alcobaça, colocados nas naves laterais de tal modo que, quando um e outro se erguerem, no mesmíssimo dia do juízo final, ficarem face a face um com o outro? É bonito, tão bonito como a ideia da sua tia, de querer ver, antes de tudo o mais, os pais, de quem certamente muito sentiria a falta …

    Vai-se a ver e o problema será afinal nosso, que não dedicamos a devida consideração a estes assuntos!

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