Os gatos de Eliot
Queridos Mortos

              Não sei ao certo o que me puxou para eles, numa tarde de chuva adolescente na livraria britânica. O título talvez, o perguntador amarelo da capa sim, a seguir os columbinos desenhos de Nicolas Bentley: oh.            Não pelos gatos, gosto tanto deles como de outros bichos (e talvez mais de cães e cavalos, esquilos e raposas, e tanto de ursos formigueiros como de formigas, de elefantes como de ratos), mas qual é o animal que enverga com igual galhardia fraque ou casaco roto?

Com esta cara, o corpo do Old Possum’s Book of Practical Cats tem de valer a espreita. Naquela longínqua tarde não parei de sorrir, the naming of cats is a difficult matter, it isn’t just one of your holliday games.

E aí vou eu à descoberta de ineffable effable/ effabineffable/ Deep and inscrutable singular Names. 

                 Aos poucos decorei vários, quase sem querer saltam-me os felídeos ao caminho no meio do trânsito ou a meio de dias maus muito maus.

                Bichanam-me, familiares como o Rum Tum Tugger, um Curious Cat - if you put him on a house he would much prefer a flat, / if you put him in a flat then he’d rather have a house…ou fenómenos como Magical Mr. Mistoffelees,The Original Conjuring Cat, there can be no doubt about that (…who) produced seven kittens right out of a hat!

               Ou como Bombalurina ou Jellylorum, names that never belong to more than one cat.  Ou dados à vagueação vadiagem rebimba mamparra, passinhos num dicionáriocomo nunca the Mystery Cat:

                                  Macavity, Macavity, there’s no one like Macavity

                                  He’s broken every human law, he breaks the law of gravity

                                  His powers of levitation would make a fakir stare

                                  And when you reach the scene of crime – Macavity’s not there!

 

                                                       E só num tempo-mês passado de pavor e angústia em desamparadas paragens longínquas me apercebi que fortemente these fragments i have shored against my ruins. Entre outras dos meus poetas-cimento, estas linhas tinham a capacidade de me fazer ganhar chão, arrebitar a tristeza e assanhar a vontade. 

He can pick any card from a pack,

He is equally cunning with dice;

He is allways deceiving you into believing

That he’s only hunting for mice.

Não os gatos, não só os poemas, mas o jogo de palavras, as lengalengas desembrulhadas, as mneumónicas alheadas de criança, as rasteiras felinas da linguagem, a irresistível melodia das rimas, a revelação dos nomes

There are fancier names if you think they sound sweeter,

some for the gentleman, some for the dames:

such as Plato, Admetus, Electra, Demeter -

But all of them sensible everyday names.

 

                   T.S. Eliot (mais um inSigne S para completar neste Gente MortaJ) tê-los-á escrito nos anos trinta para os afilhados, herdeiros da editora Faber & Faber.  Um deles quis publicá-los. Eliot acharia os poemas fracotes para tal fim, não lhe agradava a ideia.  Há-de ter Suspirado de alívio ao Saber que também com este livro o S era de Satisfação. E de Sucesso.

                   O último S também serve ao musical Cats, de Andrew Lloyd Webber, adaptado dez anos depois da morte de Eliot. Esses gatos em palco de música não me conquistaram: não me emocionam, não conseguiram encantar-me.  Ou vi num mau dia, ou ficaram muito aquém da imagem que incorporei com os escritos.

                    E não vou fechá-los em campa neste cemitério, os gatos bem vivos andarão por aqui a ronronar com Eliot, Thomas Stearns. Que também por tantos outros poemas by heart  vive comigo, como

                                   Phlebas the Phoenician, a fortnight dead,

                                   Forgot the cry of gulls, and the deep sea swell

                                   And the profit and loss.

                                                                   A current under sea

                                   Picked his bones in whispers. As he rose and fell

                                    He passed the stages of his age and youth

                                    Entering the whirlpool.

                                                                   Gentile or jew,

                                   O you who turn the wheel and look to windward,

                                   consider Phlebas, who was once as handsome and tall as

                                                                             you.

 

                                     “IV.Death by Water , The Waste Land”, T.S.Eliot, 1922

Comentários a “Os gatos de Eliot” (2)

  1. Vasco Grilo diz:

    Miau para ti também Teresa!
    Gostei tanto.
    É de se lamber os bigodes.

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Teresa, que bela ideia! Agora é que este cemitério ficou realmente composto. Com gatos. Muitos. A vadiar por entre as campas, empoleirados nas lápides, todos pardos ao luar, a mirar desconfiados quem se aproxima e os vem incomodar…

    Fiquei muito contente quando vi que o convite tinha recaído sobre os realmente estilosos e charmosos Practical Cats. Em todo o caso, convém que nos vamos preparando. Temo bem que alguns deles nos vão dar problemas. O Macavity, já se sabe, não é flor que se cheire. E ainda por cima sabe-a toda e jamais se deixa apanhar. O Rum-tum-Tucker é muito caprichoso e difícil de aturar. E tem a mania que é engatatão. Depois, há o notorious couple formado pelos larápios Mungojerry e Rumpelteazer, que coisa boa não virão para aqui fazer. Valha-nos o clever magical Mr Mistoffeles para, ao menos, reparar os estragos e recuperar o que nos for desaparecendo…

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