Ódios de estimação à portuguesa

São marcas da portugalidade de que não me orgulho. Umas, próprias de um Portugal que teima em ficar no passado. Outras, talvez não intrinsecamente portuguesas e, antes, inerentes a qualquer país com tamanho de aldeia. Outras ainda são puras embirrações minhas, para as quais não consigo sequer encontrar argumentos racionais que as expliquem.

São os meus ódios de estimação à portuguesa. É que gosto mesmo de não gostar:

De teatro de revista;

De ranchos folclóricos;

De festas dos anos 80, invariavelmente com o pior dos anos 80;

Do provinciano uso e abuso da expressão “melhor do mundo”;

Da obsessão com a “marca Portugal”;

Da RTP Internacional;

Da triste ausência de uma direita que não seja caceteira e marialvista;

Da triste ausência de uma esquerda que não seja arrogante e paternalista;

Das visões puramente economicistas que restringem a cultura a La Féria e pouco mais;

Da falta que faz a educação artística nas escolas;

Das vitórias morais; de jogar para o empate; dos “outros que fizeram pior que nós”; da culpa é do árbitro, do estado do campo, da iluminação, da fruta e por aí fora;

De todos os comentadores desportivos “não profissionais” menos o Pôncio Monteiro (e sou ferozmente benfiquista);

De quotas, na música ou no Parlamento;

Da promiscuidade de certos agentes culturais, que acumulam conflitos de interesses com total à-vontade nas suas múltiplas qualidades de directores de museu, curadores, programadores, júris, críticos, artistas e até assessores políticos;

De um peso e de uma medida diferente (mais favorável, claro está) na avaliação dos filmes portugueses e a sua insuportável tradução na expressão “para português não é mau”;

Das frases que começam por “é assim”;

De “piqueno” em vez de “pequeno”;

Do endeusamento de Mariza e do esquecimento de tantos(as) outros(as);

Dos “famosos”, “empresários” e “RP” de certo tipo de imprensa;

Do “toda a gente sabe” que os tribunais nunca esclarecem em tempo útil.

Comentários a “Ódios de estimação à portuguesa” (13)

  1. António Eça diz:

    Isto é o chamado ‘All-garve’ todo! (não tenho nada contra o Algarve, como é óbvio). E, Diogo, o Pôncio é bem apanhado: parece que não diz nada mas vai dizendo o que bem entende. E que me diz a Lisboa vir a ser a praia de Madrid — segundo o tontinho do TGV?… Fiquei pasmado com o ‘goal’!

    • Orcama diz:

      …Ou o TGV do tontinho…
      Está muito bem visto e agora começo a perceber a bondade do dito. Por-nos todos a pagar uma pipa de massa para “nuestros hermanos” poderem vir fazer praia a Lisboa, talvez até cearem, e retornaram a horas próprias a Madrid… como se não tivessem as cálidas águas mediterrânicas ali bem mais perto… É a marca Portugal no seu melhor!

    • Diogo Leote diz:

      Caro António, o Pôncio, para além do finíssimo humor, e talvez por causa dele, tem uma importante qualidade: não se leva a sério. E lá vai passando a sua mensagem, mesmo a quem não pertence (como eu) à sua filiação clubística. Cumpre o seu papel de comentador oficial do FCP na perfeição, ao contrário dos tristes representantes de Benfica e Sporting…

      E, quanto ao TGV, já estou mesmo a imaginar o “tontinho” a exultar com as praias dos arredores de Lisboa a rebentarem de “salero” e a Castellana em peso a comer pastéis de Belém e a cantar a Mariza…

  2. Isto é assim, Portugal mesmo sendo piqueno toda a gente sabe que a sua marca de marca, é só uma, o tinto ou branco ou melhor duas: o vinho e o mourinho, prontos, talvez três, junte-se o CR madeirense e viva o Rei.

    • Diogo Leote diz:

      Caro José Manuel Faria, quer parecer-me que usou indevidamente o nome Mourinho e a sigla CR. Eles perderam o direito ao nome. São e serão sempre, simplesmente, os “melhores do mundo”. Tal como Saramago será sempre, e apenas, o “Nobel”…

  3. Orcama diz:

    “Listas são um hábito perigoso. Em seguida nota-se o que falta“
    J.L.Borges

    • Diogo Leote diz:

      Caro Orcama, atrevo-me então a dizer que o que faz falta aos nossos governantes é, em primeiro lugar, ler Borges. E, depois, fazer listas, muitas listas…

  4. Joana Vasconcelos diz:

    Excelente ideia! O que eu também gosto destas catárticas listas de ódios e embirrações!

    Esclareça-me só, Diogo, quanto a alguns pontos:

    1 — Esse seu ódio de estimação aos ranchos folclóricos, que eu, em certa medida partilho (com a honrosa excepção dos minhotos, em geral, e do da minha freguesia, em particular) também abarca as marchas populares (o que eu aplaudiria) e os grupos de cantares alentejanos (o que já me pareceria menos bem)?

    2 – O que é que distingue um comentador desportivo profissional de um não profissional? E, já agora, o que é que, a seus olhos, torna os primeiros toleráveis?

    3 – Porque equipara, na sua embirração, as quotas na música e no Parlamento?

    • Diogo Leote diz:

      Estimadíssima Joana,

      1.Que fique claro: a minha embirração com (todos) os ranchos folclóricos, colada ao meu ouvido desde que nasci, não é extensiva às marchas populares, arraiais (sobretudo de St. António) e a cantares alentejanos, estes últimos já com a categoria de “world music” que os transformaram em património mundial (são os “melhores do mundo”, imagine-se, na categoria “Alentejo”; e são elemento essencial na promoção da “marca Portugal”).

      2. Sou obrigado a respeitar quem faz do comentarismo desportivo a sua profissão e o seu principal ou único meio de subsistência. Por isso me limitei aos “não profissionais”. Mas que um certo senhor, que prima pela mais descarada falta de gosto nas gravatas, nos fatos e no penteado, e que acumula essas características com o maior tempo de antena
      jamais dispensado a um comentador desportivo (hélas, são as audiências…), merecia estar na lista, lá isso merecia…

      3. As quotas são para mim aberrantes, porque não privilegiam o mérito e nos impõem critérios que não coincidem necessariamente com padrões objectivos de aferição da qualidade. Mesmo na música: a música portuguesa tem valor para se impor por si própria. As próprias estações de rádio não generalistas de referência, como a Radar e a Oxigénio (que não estão sujeitas a quotas), a passam… Mas nesse campeonato, reconheço que há um problema mais grave, as “playlists”…

  5. António Eça diz:

    E que tal as praias da Linha cheias de madrilenos ao som altifalado duma ‘playlist’ folclórica do Rui Santos em permanência?… Overdose?… Ou o ‘Inferno de Dante’, como dizem os nossos repórteres de incêndios?…

  6. Subscrevo. E acrescento:
    – os jornalistas de directos;
    – o All-garve (for cryin’ out loud!);
    – o sistema “cunha” e o…
    – “há-des” (como “há-des” ver o que eu faço).

  7. Tomaz Bairros diz:

    Mas sem todas essas coisas que listaste, o que é que resta de Portugal?

    • Diogo Leote diz:

      É verdade, Tomaz, o que restaria do nosso querido Portugal… É por isso que estimamos tanto estes ódiozinhos.… (a que acrescento este inevitável “inho” também muito nosso…)

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