Foram tempos de carne fracativa*. Os camaradas já tinham Luanda segura. No Sul, os carcamanos** recuavam e, a Norte, os mercenários ardiam como um tigre de papel. Sobrava, sobraria para outros 20 anos, o mais velho da Unita, suculenta carcaça carismática com raízes na mata e na cidade. Ora! Não é disso que quero falar.
Digo é que, em Luanda 1975, o lodo marxista ainda não assentara completamente, e o princípio do prazer animava o ventre e o baixo-ventre: queríamos festa, o primeiro fim de ano da independência.
A vontade era muita, a carne pouca. Tínhamos 20 anos e grandes casas novas só nossas, como se, de repente, pais, avós, tios tivessem sumido do Universo – qualquer bípede das nossas relações com mais de 20 anos desaparecera, incluindo os coxos. Éramos nós, com os nossos sozinhos 20 anos, e a espantada agitação africana, tão espantada, tão agitada, que mal dava por nós, fantasminhas brancos de um mundo que a ancestral fome de África depressa deglutiria.
Antes, queríamos a nossa festa, o fim de ano da Dipanda***, do 11 de Novembro. A música era toda, todíssima, angolana. Grandes ritmos – até um semba em francês de Brazaville (oyé, oyé, forces armées populaires de l’ Angolá, faplá) – grandes slows de colar o teu suor ao meu tão heróica como heroicamente tinham morrido camaradas em Kifangondo ou se imolara em inenarrável sacrifício o comandante Valódia****. Faltava era carne.
É preciso conhecer o meu amigo Ab. Quem o conhece sabe que não falharíamos. E nessa manhã a carne, transubstanciada ou não, apareceu. De porco, salgada. Chispe e orelha. Sal grosso em cima. Febra também. Até bochechas. Ou não conhecesse eu o meu amigo Ab!
Os tempos eram de mudança e nós íamos dois quarteirões à frente do tempo: juntaríamos a carne ao feijão branco, cenouras, tomate, salsa, dispensando colaboração feminina. Não sabíamos cozinhar? Tínhamos memória da praxis materna e bastava. Não queríamos mulheres na cozinha.
Agora já não faltava a carne. Refogámos. Cozemos. Foi um lindo pandemónio revolucionário naquele fogão. Libertavam-se odores com lirismos de libertação popular. Emancipámos a cebola, um dente de alho igualitário. Até que surgiu a ditadura: provámos e o sal mostrou uma intransigência proletária. Brutal, tinha tomado o poder no tacho.
Não era a carne que faltava, era o sal que sobreabundava *****. A feijoada estava uma verdadeira luta de classes: incomestível. Tínhamo-nos esquecido de dessalgar a fonte material da concupiscência, de eliminar o veneno leninista do sal grosso. Juntos, o meu amigo Ab e eu, somos dois moderados. Propus a solução de mamã católica e conciliar: meter uma batata descascada que absorvesse a raiva de tanto sal. Descascámos uma, descascámos cinco e o imperialismo salino manteve-se inabalável. Tentámos, a seguir, uma abordagem mais progressista, cortando laranjas em quartos, o que só nos fez comprovar o extremismo quase infantil e doentio do cloreto de sódio.
Havia carne, tínhamos é de salvá-la. A dialéctica é, como se sabe, o único caminho filosófico para a salvação. Era preciso que, de acordo com a segunda lei do materialismo do venerável Karl, se desse (o que verdadeiramente tínhamos pensado que aconteceria lá mais para a madrugada) a interpenetração dos contrários: os lados que se opõem são na verdade uma unidade, na qual um dos lados prevalece. Atirámos meio quilo de açúcar para a grande panela e, de forma obscurantista, rezámos para que prevalecesse o doce, o amado mel. Ainda hoje não sei se prevaleceu a lei de Marx ou foram as nossas preces ouvidas. Sei que em Luanda 1975 se comemorou com dignidade o fim de ano da Vitória e a libertação de uma Pátria que amo apesar de não ser minha. Talvez a carne fosse fraca, mas nunca o molho foi tão bom******.
Glossário
* Qualidade do que é fraco, conforme desacordo ortográfico do lumpen luandense. Por exemplo, a actual governação Sócrates está um bocadinho fracativa.
** Os odiados (com razão, como Mandela provaria depois) invasores sul-africanos.
*** Corruptela de Independência. A corruptela é, para os luandenses, um vício irresistível.
**** É verdade. O massacre de Kifangondo e a morte heróica do comandante Valódia foram celebrados (e bem) em baladas muito dançáveis convidando a propósitos que, pelo que se sabe, são a única forma de imortalização da humanidade.
***** Ignore-se, neste caso, o eco brasileiro do significante e, por maioria de razão, a respectiva ressonância semântica.
****** Resposta guerrilheira a este desafio da TC.

















Manuel, gostei mesmo deste seu empolgante relato, em que o S, sugestivamente Safado de início, descambou temporariamente em Salgado, para acabar, afinal, sofisticado em Savarin! Impressionante, a sabedoria evidenciada quanto às virtualidades da batata descascada para combater o excesso de sal. E a laranja, foi ideia sua, do Ab ou calhou estar à mão?
Eugénia, começa a ser ensurdecedor o coro de virtudes domésticas entoadas, hoje, por ELES, neste blog: o Gonçalo e o António Eça, bem mandados, fazem compras de supermercado, o Manuel exibe dotes de fada do lar na cozinha. Isto não é normal. Não tarda, aparece aí o Orcama a gabar-se dos engomados ou a revelar como lhe saem sempre bem os fios de ovos. Avolumam-se os indícios de uma acção concertada — com que propósitos desconheço, mas bons já se sabe, não são.
Manuel Fonseca,
Gostei muito deste seu bom texto, tem ritmo de vinte anos a céu aberto.
(não percebi porque é que a batata não dessalgou, não deixou ferver?)
Joana,
não acredita, então, que os rapazes tenham feito propósitos reformadores para 2010… Mas sempre me consola que nenhum DELES tenha dito que quando faz maionese, ela nunca se corta.
Joana, a laranja foi ideia do Ab. Calhou bem que eram azedas!
Eugénia, ferver fervou ó se fervou. Mas sabe lá a Eugénia o que é a obstinação estalinista do sal grosso!!!
E obrigado por se terem divertido que era só esse o meu propósito maoísta.
ps — Eugénia, depois de ter passado um mês a estoirar ovos, faço maionese com varinha mágica de olhos fechados. Aprendi quando voltei a Portugal, pátria que em matéria de maionese não deve nada a ninguém–
Manel, que bela e bem temperada carnívora passagem independente.
Se a carne é fraca, a deste blog parece cada vez mais fortalecida…
Manuel, há um facto que, de tudo isto, ressalta evidente e insofismável. Podem lavar a loiça em máquinas; podem queimar os soutiens; podem mesmo libertar o corpo da sua natural fertilidade… o facto, porém, permanece: elas não aguentam ver um homem na cozinha!
Gonçalo,
podem ser pelo menos duas coisas:
elas não aguentam porque se derretem, ou não aguentam sem correr com ele de lá imediatamente…
Nada disso, Gonçalo! O problema é outro: como diz o povo, “quando a esmola é grande, até o pobre desconfia”… Tanta e tão devota virtude doméstica, dizia eu, traz água no bico. Quais partilha de tarefas, co-gestão doméstica, divisão de tarefas! Uma mísera ajudinha aqui e ali, e muito contrariada, não vá criar perigosos precedentes — e prontos! Estão reunidos os pressupostos para a grande ofensiva de marketing e imagem: vêm aqui para o blog, em posts e comentários, gaber-se e/ou vtimizar-se, em busca de imerecida admiração, de infundada compaixão, de injustificada simpatia… Que coisa!
MSF: este homem tem potencial! Não sei se (des)gosto mais da sibilina alusão à lavagem da loiça em máquinas (modernices…) se da não-sei-bem-como-qualificar insinuação de feminismo radical (e insofismável). Contrate-o já para as suas hostes, que Deus sabe o quanto vai precisar de reforços…
Errata: na terceira lnha do meu comentário, onde se lê “divisão de tarefas” deve ler-se “divisão de responsabiidades”
Joana,
o Gonçalo é a nossa arma secreta. Só não o anunciamos publicamente para não darmos vantagem às desenfreadas hostes pagãs. Prepare-se que o futuro começa já na próxima 2ª feira.
O molho nunca foi tão bom… Não o conhecesse eu Manuel “Soberano” Fonseca. Junto, com Ab, dois moderados… E sózinhos? Ah Ah Ah…
O que falta dizer é que, já nas restrições de então, nunca mais o champagne francês e o vinho Bordeaux foram tão abundantes e baratos… Nunca mais assim se bebeu a preços proletários… Épica dipanda, fim da nossa idade inocente. Ano Novo de todas as permissões… e prenúncio de todas as intolerâncias…