O Ciúme Azul de Rosemarie Magdelena Albach-Retty




Romy Schneider, “L’Enfer”, Henri-Georges Clouzot, 1964




Em 1964, Henri-Georges Clouzot, o maior realizador francês dos anos 50 (“Le Salaire de la Peur”, 53, “Les Diaboliques”, 55, “Le Mystère Picasso”, 56), tentou relançar-se com um filme tão impressivo como a sua carreira: “L’ Enfer”. O guião era seu, provavelmente resultado de tormentos e albificações pessoais. Conhecido pelo feitio autoritário e uma verve marialvíssima, Clouzot saíra de uma depressão resultante da morte precoce da mulher, a brasileira Vera Amado (a Vera Clouzot de “Le Salaire” e “Diaboliques”), de crise cardíaca, aos 46 anos. Queria traçar a obra definitiva sobre o mais incandescente dos pecados: o ciúme.

Pegou nos 26 anos de Romy Schneider (já tinha experimentado pegar nos 26 anos de Brigitte Bardot, que mal sobreviveu, em “La Verité”), atiçou o fogo, programou 18 semanas (!) de rodagem, queimou 185 bobines, gastou 5 milhões de francos em 21 dias — 4 dos quais a filmar planos da Schneider a deitar fumo de cigarro pela boca, lábios lustrados em múltiplas cores de baton, incluindo um azul-morte -, pôs enfermo o protagonista, Serge Reggiani, com  exigências tirânicas, substituiu-o por Jean-Louis Trintignant, que, rapaz de feitio plácido, não lhe transmitia as provações mentais  exigidas pela personagem, e teve um enfarte, pondo cobro ao sonho acordado.

Foi o perfeccionismo que quase matou Clouzot. Mas foi também a obsessão que o feriu com gravidade: a obsessão por um estilo “novo”, sumptuosamente psicadélico; a obsessão pela actriz principal; a obsessão da personagem, Marcel/Serge/Jean-Louis, o dono de um hotel na Provença, pela esposa Odette/Romy, a assar em lume lento na masmorra da sua própria psique, imaginando-a em infidelidades cada vez mais explosivas, cada vez mais imperdoáveis, cada vez mais sublimes.

Este ano, Inès, a viúva de Clouzot em segundas núpcias — o cineasta de “Le Corbeau” passou a frequentar este blogue a Janeiro de 1977 -, do alto do seu apartamento da Place Wagram, autorizou a que Serge Bromberg e Ruxandra Medrea desenterrassem as latas do que restou das filmagens para sobre elas construir um documentário, a estrear em 2010.

As imagens salvas mostram o encantamento, frequentemente fetichista, encostado ao S&M — como o seu derradeiro filme, “La Prisonnière”, de 1968 — pela história do Ciúme mortal e pela estória de Romy Schneider, a delicada portentosa vienense Rosemarie Magdelena Albach-Retty, falecida aos 42 anos, no terceiro ataque cardíaco deste relato.

 

Fiquem com algumas dessas imagens. São belas.

E, naturalmente, obsessivas.

L\‘Enfer

L\‘Enfer 2

Comentários a “O Ciúme Azul de Rosemarie Magdelena Albach-Retty” (3)

  1. Pode ter sido o maior mas aquele que mais degustou foi Roger Vadim.

  2. Pedro Marta Santos diz:

    Medíocre realizador, magnífico vivente, Vadim.

  3. Vasco Grilo diz:

    Sempre achei a Romy um bocadinho “acqua e sapone”, como dizem os Italianos.
    Até hoje.
    Passei o resto do dia em sobressalto.
    Obrigado Pedro.

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