O Batô de Rambô e o Helicô

          Sahara, por tc

Atravessando o deserto do sahara, o sol estava quente e queimou a minha cara, ai que caloo-ooo—ooô. Esfrego os braços para aquecer, quem escreveu esta canção nunca esteve no deserto em Janeiro. O frio é tanto que nem se consegue dormir à noite na tenda.

             E quem disse que o deserto é silencioso não ouviu o barulho dos motores repetido noites inteiras, mecânicos a reparar carros e motos, a seguir os aviões a deslocar uma invasora cidade móvel deste para outro lugar vazio, cheio de areia. 

             Rompia o século XXI, passagem para o ano 2000 pela fresquinha e eu no deserto, pronta para um inaugural Paris-Dakar-Cairo, em cobertura jornalística. (mixed feelings about it, poderia escrever tantos contras como prós sobre o rally, não será neste texto). 

              Já antes tinha sido enlaçada pelo encanto do deserto, outro deserto, muito mais longe e muito mais antes de reportar sobre o rally. Recebi mais este deserto de braços abertos, amaldiçoei várias vezes tanta abertura, maldição e desejo, repeti a experiência três Janeiros seguidos.

              Como jornalista, podia usar dos helicópteros da organização francesa para sobrevoar a corrida. Os cenários eram grandiosos, a leitura de um país feita de cima e de perto cria novos inventários de olhares. Países inteiros estendidos, dengosos, a deixar-se mirar por uma aranha voadora. 

               É a geologia que conta a História. Percebe-se, por exemplo, onde o corpo do mar deixou marcas: assentou na rocha como um amante apanhado em flagrante… milhões de anos depois. Pisgou-se pela calada, deixou na Mauritânia uma extensa praia cheia de vestígios.

               Assim num click de foto, pode parecer invejante a viagem de helicóptero. Mas não era bem um passeio. Eram 14 horas. Saíamos antes de o sol nascer, voltávamos quase escuro. Entre voos a filmar e paragens para captar em terra a passagem de carros e motos, eram horas de espera. Uma seca. Localização definitivamente apropriada para o termo.

 

               Era eu, o piloto e o operador de câmara franceses. E por vezes alguns miúdos que chegavam não se sabe de que tufo de erva, à espera de um cadeau qualquer. Foi durante uma dessas secas que tirei um poema da cartola.

               Fiz cara de barco, a minha melhor voz de água e tempestade. E recitei-lhes de cor as quadras de “Le Bateau Ivre” de Rimbaud que guardo num meu canto esquerdo.

               Reacção? Racção. Ofereceram-me metade da de combate deles, chocolate e tudo. Gesto magnânimo para gente de desporto que nunca teria ouvido falar de Natália Correia. Faria eu tanto se ouvisse um estrangeiro em Pessoa no deserto? Não tínhamos conversado muito até aí e falamos bastante depois.  

                E não voltei a vê-los por uma semana. Até ao dia em que, da Líbia para o Egipto, eu devia seguir no Antonov de serviço, como todos os jornalistas. Só havia cinco helicópteros, lugares para penduras eram poucos e muito concorridos. Mas eu queria tanto conhecer o rosto do Egipto de cima. Queria tanto sobrevoar o Nilo. 

                Eu sei que tinha tranças e sorriso. Mas havia outras que também. 

                E gosto de pensar que foi o Bateau de Rimbaud que me levou.  

                 Se o meu sobrinho um dia me perguntar para que serve a poesia, já posso responder-lhe:

                — Serve, Afonso, para andar de helicóptero. E comer chocolates. 

Comentários a “O Batô de Rambô e o Helicô” (7)

  1. Pedro Norton diz:

    Que inveja Teresa. Nunca fui ao deserto. Mas fui a um restaurante, em NYC, chamado bateau ivre. Não saí lá de barco mas talvez um pouco ivre…

    • teresa conceição diz:

      Do deserto também se pode sair ivre, Pedro. E sem beber nada, além de chá.

      Pergunte ao Diogo, que nunca nos disse mais nada sobre a sua Wadi experience.

  2. maria diz:

    No deserto.Rimbaud.Um chá.Um barco nas marcas do mar a voar desvairadamente.
    Houve um dia em que pousei num deserto.

  3. Orcama diz:

    Olá Teresa Conceição, fez bem em ir aí do lado de lá e ao seu canto esquerdo. Quando pular para o lado de cá, brinde-nos com algo do seu ainda desconhecido canto direito. :)

    • teresa conceição diz:

      Olá Orcama,

      Melhor desconhecido por enquanto ou por mais tanto, que a direito não vão cantos nem contos,
      e será o mais torto o meu direito.
      Mas para brindar, qualquer bebida de um certo restaurante de NYC vai a preceito…

  4. É um bom uso para a poesia. Eu uso-a para embrulhar peixe.

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