
O terrível terramoto de Lisboa de 1755 motivou uma grande comoção em todo o mundo. Na Europa, além disso, causou intensa e profunda reflexão. Hoje, porém, já não é assim.
Em 1756, com efeito, Voltaire escreve o Poema sobre o Desastre de Lisboa, contra o qual compôs Rousseau, no mesmo ano, a sua Carta sobre a Providência. A questão que se colocava era a do sentido da existência humana, radicalmente posto em causa a partir da incapacidade de dar explicação satisfatória das consequências do tremor de terra a partir da fé religiosa na bondade de um Deus providente ou na meditação filosófica do optimismo leibniziano. Em 1759, por isso, Voltaire volta a fazer menção do sismo na sua obra Cândido, ou sobre o Optimismo, com a qual mais demoradamente se opõe à teoria leibniziana do melhor dos mundos possíveis.
Kant, por outro lado, que, também em 1759, altura em que ainda dogmaticamente dormia, escreveu o Ensaio com algumas Reflexões sobre o Optimismo, no qual, referindo-se ao cataclismo de Lisboa, de algum modo mantém a visão da teodiceia leibniziana, tinha já redigido, em 1756, três pequenos textos sobre o abalo da terra lisboeta, nos quais, procurando explicá-lo inteiramente a partir de causas naturais, forçava cada vez mais o então já inevitável debate sobre a nova relação que era preciso estabelecer entre a inteligência científica e religiosa do mundo, debate esse que viria a estremecer até aos seus fundamentos o chão de todo o moderno discurso filosófico (desde Descartes até Heidegger, com efeito, passando por Leibniz e por Kant, pode claramente ver-se a progressiva assumpção da intenção metafísica da descoberta dos fundamentos – em alemão: grund; em inglês: ground – da realidade).
Ora, nada disto se passa hoje em dia. A comoção resultante da tragédia do terramoto do Haiti – como tantas outras que temos repetidamente visto acontecer –, brutal e indiferentemente visualizada em cada casa, provoca uma louvável e humanitária agitação imediata que, escorada unicamente em questões práticas, se esgotará progressivamente em questões técnicas, apenas, nomeada e ultimamente na determinação da implicação das consequências da catástrofe no conjunto da economia mundial. E a pergunta que levanto é esta: Já percebemos – e de uma vez por todas – o sentido da existência humana? Já nada abala os fundamentos da nossa inteligência da realidade? Porque deixámos de nos questionar?

















Sendo escandalosamente umbiguista, remeto para post sobre a necessidade de encontrarmos uma nova ordem humanista de pensamento que sintetize ciência e metafísica face às alterações da percepção da realidade nos últimos 30 anos.
Por medo, Gonçalo. Medo de constatar que afinal tudo o que somos e temos, que julgamos adquirido e garantido, pode bem desaparecer de um momento para o outro. E por muitos mais motivos que uma catástrofe natural.
Esse medo, como todos os medos, é mau e deve ser contrariado. Porque só a consciência da fragilidade e da precariedade que marca a nossa vida e apõe uma incontornável condição a todas as nossas certezas e planos, permite viver em pleno o presente e planear o futuro. E, sobretudo, ultrapassar — tanto quanto possível, inteiros — os terramotos que, tarde ou cedo, fazem ruir partes da vida que tão laboriosamente vamos construindo.
O problema é que essa percepção raramente decorre de uma escolha. É preciso, por mim falo, muito mais. Um abalo fortíssimo. Como a constatação de que se sobreviveu, contra todas as probabilidades, a uma doença ou a um acidente. Ou a dolorosa impotência que experimentamos ante o sofrimento e, às vezes, a morte, dos que amamos. Sobretudo quando em circunstâncias que dificilmente conseguimos compreender ou aceitar.
Não creio que as imagens da televisão, por muito pungentes que sejam, cheguem.