Ao ler o post do Pedro Norton sobre o Haiti e o Hobbes, lembrei-me do Leviathan. De entre os vários livros que li, nos longínquos tempos da Ciência Política, certamente um dos que mais me impressionou. E desta imagem, que sempre me fascinou – a espada numa mão, o báculo na outra. E a citação de Job, 41, 24 - Non est potestas super terram quae comparetur ei (não existe poder sobre a terra que se lhe compare).
Vi-o este ano, na biblioteca do castelo de Windsor. O major purpose da visita era, confesso, mostrar às minhas filhas a mega casa de bonecas da Queen Mary. Foi, como se esperava, um sucesso. Para mim, valeu pelo que veio logo depois. Uma primeira edição do Leviathan de Hobbes, de 1651, que lá estava exposta. Aberta nesta mesma página…

















Joana, gosta assim tanto? O único Hobbes de que gosto inteiramente é o tigre do Calvin. Acho que Freud roubou e fez um upgrade do Leviathan que interessa.
Eugénia, os maus querem-se muito, muito maus. Por isso me agradam o Leviathan e a Bellatrix. São do melhor que há, dentro do género.
Dento do mesmo — não resisto — registo, também me parece muitíssimo adequado o seu recurso ao serpentês em casos de grande irritação.
Bem, o serpentês é usado, já foi usado (e será certamente), com mais ou menos parcimónia operacional.
Eugénia: a Joana é perigosa… Veja o que ela descobriu a mostrar uma casa de bonecas grande às filhas! Imagine agora o que seria se ela tivesse optado antes pelo ‘tetris’ gigante de Stonehenge: vinha de lá a galopar um dragão vivo, cheio de escamas e em directo sulfuroso! (tinha de me fugir o pé para a chinela mas também não resisti…)
Olá António Eça. Confirmo que o que descrevo no post me acontece com alguma frequência. Escusava era de o evidenciar de forma tão, a vários títulos, draconiana… Isto requer uma resposta, com pedras, muitas pedras. A sua sorte e a minha desgraça é a avalanche de trabalho em que estou soterrada, fora os pesadelos que me atormentam com folhas de palmeira, saris cor de coral, mãos pequeninas e velhos desdentados e desaparecidos! Mas não perde pela demora…
Esta imagem da capa do Leviathan, normalmente mostrada nos cursos de ciência política como resumo de todo o livro, é extraordinária. Por vários aspectos. Um deles é o da evidência da definitiva ruptura com a visão gelasiana das duas espadas, que passam agora a ser empunhadas na mão de um só. De um só que será absoluto, primeiro, mas totalitário, depois, como terrivelmente se veio a ver. Como tristemente se continua a ver. E é uma das principais razões pelas quais vale a pena voltar atrás (e à frente) e repensar as teses dos autores ibéricos da segunda escolástica, que propunham uma outra — e mais ampla — modernidade.
Gonçalo, pergunta a minha ignorância, segunda escolástica ibérica = Vitória? Suarez? Tenho vagas, vaguíssimas reminiscências …
Ao saber do Haiti um amigo citou Caim, do Saramago…vou dizer que um dos seus protagonistas, ficcionais, se encaixaria bem nessa história toda…
Turmalina, já leu o Caim? O que é que achou?
Joana: é escusada a lapidação, não sou lapidável, hei-de ser sempre um bruto dum suevo…
Que havia eu de fazer? Você ficou tão a jeito… Os meus instintos primários fizeram o resto, claro!
Viva o Porto!
Viva António, e viva, antes de mais, o Porto!
Apesar de aí por essas paragens ser amiúde referida como a “prima moura, dos territórios anexados do sul”, quando escrevi o que escrevi não tinha exactamente em mente lapidá-lo ou assim. Até porque as pedras a que me referia são muito, muito grandes. E é proibido removê-las. E, verdade seja dita, não tenho a menor pontaria — nem nas feiras acerto naqueles malditos montes de latas! Era mais uma pedrada por escrito…
Joana, a ignorância não é sua, nem é minha, é só de quem não pergunta. Segunda escolástica ibérica tem autores extraordinários, mais conservadores, mais progressistas, mas no seu todo fantástica. Os meus autores preferidos e julgo que os mais importantes: Bartolomeu de las Casas, Francisco de Vitória, Pedro da Fonseca, Luís de Molina e, sobretudo, sim, Francisco Suárez.
«Prima moura dos territórios anexados do sul»!… Olha mas que bem!