Temos a sorte, no É tudo Gente Morta, de termos um bocadinho de Brasil entre os nosso 13 autores e, ainda mais, de sermos visitados e comentados por bloggers brasileiros. Um deles – ainda melhor, uma delas, Turmalina, a que recomendo visita, comentou com simpatia que agradeço o meu post sobre Nelson Rodrigues, manifestando ainda assim reservas ao autor que foi Nelson.
Não posso, por patriotismo linguístico, aceitar as reservas de Turmalina. Nenhuma reserva a Nelson Rodrigues é permitida, autorizada, mesmo a título de omissão presente ou intenção futura! Pecado.
É por isso, que em missão de paz e boa vontade venho “encomendar” a Turmalina uma missão para 2010: reconciliar-se com a fantástica escrita de Nelson Rodrigues, amigo de generais e pai de guerrilheiro. Reconcilie-se com o teatro (com Álbum de Família, ó o fim do 2º acto com Guilherme disparando o revólver sobre a irmã Glorinha – duas vezes, Turmalina, duas vezes – com ciúmes do pai). Reconcilie-se com os romances (a Engraçadinha!), com as crónicas. Desmesurado, injusto, contraditório, o que seja, o autor carioca foi sobretudo alguém que revelou — antes do tempo — algumas armadilhas do pensamento então dominante (se me permite destaco dois dos maiores equívocos do pensamento político mediático da altura, Sartre e Dom Hélder da Câmara). Incorrecto nessa matéria, Nelson foi correctíssimo a escrever sobre o tumulto das relações familiares e amorosas. Adivinhou tudo: o dead end da classe média, o inferno dos traumas familiares, o fim de um mundo baseado na lentidão dos “bondes que não chegam nunca”.
Foi ele mesmo que disse: “O artista tem que ser génio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.” Sejamos unânimes Turmalina e concedamos a Nelson o estatuto de “melhor ainda” que é o que faz dele um dos melhores prosadores da língua portuguesa do século XX.
Ps– Aproveito e esclareço que, cá como aí, o apelido de Eça se grafa Queiroz, e quando assim não acontece é por erro ou ignorância, o que melhor do que eu confirmará, com autoridade, um dos mais talentosos e contundentes participantes deste blog. A Turmalina imaginará qual!

















Ai!, que ruborizo…
Anthony, só te fica bem, uma corzinha! De subir às serras e deixar a pálida cidade!
.…o António sacou primeiro e deu o tiro derradeiroantes mesmo que eu pudesse conferir se estava armada…
Sim, eu aprendi Queiroz com Z , de Zorro… e depois deste post prometo que vou revisar a obra de Nelson Rodrigues nos mínimos detalhes. Vou começar com Álbum de Família, afinal Glorinha foi morta duas vezes, quero ver se percebo a intensidade desse ciúmes. Aliás o ciúmes se faz intensamente presente em sua obra. E talvez hoje eu possa vê-lo com outros olhos. Pensando melhor preciso rever meus conceitos sobre o estilo da escrita direta, assim sem floreios.
Então está lançado o primeiro desafio para 2010: reconciliar-me com Nelson Rodrigues.
Ao final deste ano lhe digo se deu certo.Ou pelo menos, se foi bom!
Turmalina, obrigado por não ter vergastado este meu atrevimento. Mas, em boa verdade, há alguma coisa melhor do que gostar…
Manuel, pela certa leste ‘José Matias’ e a sua paixão mortífera…, com o ciúme a transformar-se em cuidado pela fidelidade do novo amante da sua sempre amada, a helénica Elisa…
“Linda tarde meu amigo!… Estou esperando o enterro do José Matias“
Reli-o agora e é um conto desconcertante de ironia e de tremenda manipulação desses contrários que são a matéria e o espírito. Grande Bisavô, António.
Pobre Jose Matias…foi encontrar Prazeres somente no Cemitério…eu bem que disse que Eça é muito bom!!!
É mesmo, Turmalina. O J. L. Borges achava-o o maior escritor do séc. XIX.
Manuel, manipulação semelhante (mas de sinal contrário) fá-la ele nos Maias, naquele último ‘coup de foudre’ entre Carlos e Eduarda — a momentânea assumpção do incesto, porque a paixão cantava mais alto. Para mim isso foi ele a dizer à mãe que «não foi assim que tudo sucedeu mas podia muito bem ter sido»…