
instalação do colectivo Urban Prankster
Abaixo coloco um punhado de minudências que têm sobremaneira contribuído para tornar a minha vida um pouco melhor ao longo destes anos.
O poema de Herberto Hélder “que coisa era o amor para que eu o amasse assim?”, localizado na pg. 461 da “Poesia Toda”, na edição boa, a de 1981, rasurado nos volumes posteriores.
O tema “Time After Time” por Miles Davis, gravado ao vivo pouco antes de morrer e publicado na coletânea “Live around the world”.
Os coiratos no intervalo dos jogos do A.D.R. “O Paraíso”, quando é o Rogério a grelhar. Empurrados por umas “mines” que sabem a Krug.
A sequência das portas em “Le Carrosse d’Or” com Anna Magnani à espera num quarto a tanger a guitarra só para chamar a atenção, a reunião do Conselho de Estado encabeçada pelo Vice Rei que não pára de ser interrompida noutra sala, e a noiva oficial deste na câmara de entrada. Para mim, mas só para mim bem sei, é a melhor cena que até hoje se armou diante de uma câmara.
As tardes de sábados passadas no sofá da sala. Na TV emudecida, um jogo do campeonato inglês, tanto melhor se for do “meu” Arsenal; no hi fi um CD dos últimos que comprei, francamente alto; no colo, um livro para disfarçar a sesta. De preferência a cena passa-se no Inverno e lá fora as árvores da Tapada sacodem a chuva de inveja.
As sanduíches de foie gras com pickles do Gambrinus.
O conto “À grande e à francesa” de Luísa Costa Gomes, fotografia fulminante de uma época.
Algumas sequências de North By Northwest de Hitchcock, nomeadamente: a do leilão, a do campo de milho, a da perseguição final (às vezes a cena inicial, desde o grume a chamar por mr. Kaplan, até ao próprio Hitch perder o autocarro).
O 3º andamento, Ecstasio, de “Asyla” de Thomas Adès (obsessão ganha em 2009)
As plumas e secretos de porco do restaurante-tipo-café-atascado da Inácia ali no bairro novo de Monforte, junto à estrada para Arronches, nem sei como se chama a casa.
Um punhado aleatório de páginas de qualquer romance de Tomaz de Figueiredo antes de ir para a cama, quando desconfio que vem aí insónia.
Ficar uns minutos (ou mais) a contemplar qualquer quadro de Ana Vidigal, para aliviar um peso de cima; ou de Mark Rothko, para pensar melhor em qualquer coisa; ou “As Meninas” que ainda não consegui acabar de ver.
Demorar as manhãs de domingo de verão de julho na cama a ler. O quarto refrescado pela brisa do poente da barra do Tejo. Banda sonora: o zumbido dos carros na ponte e o tranquilizante ruído da televisão, lá ao fundo, noutra sala.
A nudez desapaixonada, sem vestígio de erotismo, mas, ainda assim, de altíssima voltagem sexual de Isabelle Huppert em “Sauve qui peut… la vie” (J-L Godard). Tanta coisa que me aconteceu acerca daquelas “máquinas desejantes”.
Descobrir por acaso um livro que estava mesmo a fazer-me falta, eu é que ainda não tinha dado por isso.
Quando a bola chega limpinha aos pés de Liedson.

















Não sei o que é A.D.R. — é coisa de futebol, não é? -, nunca provei couratos nem bebo “mines”. Mas o seu tanto gosto foi contagiante. Um dia vou ver um jogo do Benfica ao estádio e provo.
Não tenho esse poema do HH.
querida eugénia: A.D.R. “stands for” Associação de Desportos e Recreio lá de Vale do Paraíso. acredite que couratos e “mines” são iguarias intragáveis a não ser por afeição aos costumes locais — “pelo convívio” como soi dizer-se. Lamento que a sua opção seja o benfica, mas pronto, cada um com cada qual, é o que é.
Quanto ao poema de HH, tê-lo obliterado foi um das maiores malfeitorias que o senhor nos fez, entre as variadas que tem cometido na sua furiosa vontade de nos privar da sua arte.
JNA,
e plasmar no nosso lindo blog uma das minudências que refere — a que o danado do HH não há-de obliterar mesmo que queira -, para sobremaneira contribuir para tornar a minha vida melhor ao longo do dia de hoje e nos dias por vir?
(Não sou lá muito futebolizada, isto para não dizer a absoluta verdade, sou desfutebolizada. Não me posso dizer benfiquista, simpatizante, acho que sou: gosto da águia, quero ver um jogo no estádio, de encarnado e do Jorge Jesus. E queria que o Benfica ganhasse o campeonato.)
Imagem estupenda essa dos quadros que ainda nao se acabaram de ver. O que mais gosto desta lista e’ o facto de tudo se passar de facto numa tarde de domingo, com a chuva a cair e o Tejo (ah o Tejo) la’ em baixo a espera.
A primeira vez que me pagaram por gostar de um filme e escrever a dizê-lo foi pelo Sauve qui peut do Godard e a foto era a das prosaicas e oferecidas mamas de Isabelle.
Ah, esqueci-me do que importa: o bom gosto que o ZN tem a gostar. Não tão bem como ele, gosto de tudo (com ressalva do que não conheço ou experimentei) a começar pela magnífica instalação da foto.
Zé Navarro,
Gosto muito do modo de descrição destes gostares.
E faço coro com a Eugénia no pedido: aquele poema escondido tem de vir para aqui!
A minha edição é de 1990, não o tem. Não nos deixe de água na boca, ZN!
Outra ideia assim de repente, para nós todos, a propósito desta ideia certeira, de descobrir de repente um livro que estava mesmo a fazer falta: e se, de vez em quando, nos fossemos oferecendo (postando) aqui no blog um poema (re)descoberto por nós?
Pode ser que faça falta a alguém…