Gosto tanto
- de ver os meus sobrinhos a pintar, dou-lhes os tubos primários que eles transformam em cores impossíveis e linhas como eu nunca conseguirei (o Picasso já sabia)
- de viver com vista para o mar e das variações das ondas sobre o farol do Bugio
- do primeiro café da manhã com jornais na esplanada
- de bons petiscos regionais com melhor vinho tinto em jantares de amigos
- de tardes preguiçosas de leitura
- de bibliotecas de belas e monstros, da Xerazade e de bons contadores de histórias
- de banda desenhada, misturo os heróis e reuno o Corto Maltese com o Marsupilami, o Gaston la Gaffe com o Philémon, o Astérix com o Iznogoud, como recortes para cadáveres esquisitos
- de ilustrações de livros infantis, de livros de fotografia e das fotografias encostadas aos livros nas estantes, dormem de dia com eles, sabem mais deles que eu
- dos espelhos e do aleph de Borges, e de todos os livros dele
- do jogo de olhares das figuras de Giotto na Basílica de S. Francisco de Assis, de Piero de la Francesca (sem Assis), de Velásquez, de Goya, de El Greco, de Odilon Redon, de Munch, de Manet, de Schiele e aqui começaria outra lista de escolha espinhosa
- de passar uma tarde num museu ou capela a tentar re-desenhar num caderno os frescos ou pinturas que me intrigam ou comovem, para onde seguem os traços, como conseguem a luz
- do Amarcord, de Fellini (e de todos os outros dele, já agora)
- das mãos sobre o piano de Glenn Gould, de jazz, de música árabe e africana
- da arte da fuga (de Bach, e não apenas)
- de longas viagens por terra, de desenhar em viagem e de todos os mapas para lá chegar, mesmo que depois não os siga
- do amanhecer no pico do Ramelau, Timor-leste (herança paterna)
- da intensidade e perplexidades do Irão, Iémen, Índia. E do Curdistão, Butão, Tibete. E da Guiné, Egipto, Etiópia
- de fumar cachimbo d’água com tabaco de maçã (eu que não fumo)
- de colecções de chapéus e óculos, de cavalos de ferro guerreiros e de cruzes etíopes
- de andar a pé, de bicicleta, a cavalo e de moto na lama e na areia
- de pincéis e de todos os materiais de pintura, de pintar furiosamente uma tela em branco e de descobrir que tubos preciso para conseguir a cor da chuva rente à vinha, tenho de ir ver outra vez como pintam os sobrinhos



















Valeu a pena esperar, Teresa! Que bela lista! :)
Gosto nela do que também gosto – com destaque para o El Greco, o Glenn Gould e o Marsupilami
Gosto também daquilo de que um dia sei que vou gostar – todos esses extraordinários sítios e países de que fala e do que lá existe (fiquei fixada nas cruzes etíopes…)
E gosto, sobretudo, do que nela se refere àquilo que não tenho, nunca terei e tanto admiro em quem tem – a capacidade de desenhar e pintar, de captar, através do traço e da cor, a realidade tal como a vemos e a sentimos …
Gosto muito dos cavalos de ferro guerreiros.
…“das mãos sobre o piano de Glenn Gould” ou das mãos de Glenn Gould sobre o piano? :)
Se fizesse uma lista das minhas ambições uma seria certamente possuir um belo cachimbo de água na minha lareira. Outra já concretizei: um belíssimo samovar de porcelana, ainda soviético.
Como também a invejo. Possuir na ponta dos dedos a inefável magia de poder cristalizar, na cor e na forma, o momento que nos emociona, é como pairar muito acima do vulgar quotidiano.
nosso Orcama,
para mim, neste caso, são as mãos sobre o piano, primeiro. E por isso iludi a ordem linear do corpo da frase. ficou a frase de braços trocados.
Quando só ouvia, eram só as mãos sobre o piano. Quando depois vi filmes, foram ainda mais as mãos sobre o piano. São elas as personagens, com um corpo que, prolongado, se acrescenta ao pianista. Como se elas fossem à frente dele.
Como se.
De facto, as mãos também podem ser apenas as marionetas dele. É um prazer vê-lo tocar. Aqui em casa, de roupão, na lida do piano.
http://www.youtube.com/watch?v=qB76jxBq_gQ
Ainda, Orcama,
Que eu saiba, não possuo qualquer magia nos dedos (isso é para alguns músicos)
e se cristalizo é só de frio.
Comecei a desenhar, como qualquer criança, muito antes de ler. Mas quem nasce com um jeito ou uma vontade, se não a trabalhar diariamente, fica só com o jeito — não fica com muito jeito.
Agora pairar, comigo é acima ou abaixo do quotidiano. Sempre noutro lado ao lado daquele onde devia estar.
já pensei andar com uns fios presos aos pés para ver se não vou para muito longe,
mas esqueco-me sempre dos fios.
Teresa, um dia vou bisbilhotar o seu caderno de pinturas viajadas.
Eugénia,
não é um caderno, são pilhas de cadernos. Para cada viagem, novo caderno.
E tantas páginas em branco quantos os dias que passam sem desenho.
Acho sempre que vou preencher aquela página atrás de memória, mas uma viagem é uma voragem.
Nas minhas, raramente tenho espaço para voltar à página atrás.