De ver o Cão a dormir, de barriga para cima, ouvi-lo ressonar
De jacarandás em flor, do cheiro dos aloendros, do das lindas peónias cor de rosa, do aroma do jasmim
Na primavera, em dias quentes, passear de carro por estradas secundárias, de vidros abertos, rente aos pomares murados de velho, junto aos laranjais
De varandas nos prédios, esplanadas nos passeios, jardins
De ir ao mercado
De frango cerejado com batatas fritas, o fricassé à parte; de éclair com cobertura de baunilha; de leite fresco Vigor a acompanhar uma sombrinha de chocolate Regina
De comprar: livros, discos, jornais, revistas, filmes
De uma casa com sala-de-estar-biblioteca; de uma cozinha onde não falte o encarnado
De antiquários, feiras de antiguidades, de velharias, galerias de arte
Senhoras à janela ou na soleiras das portas, em cadeiras de praia, a fazer renda; pais e filhos a ler nos cafés e nos restaurantes
Dos candeeiros do Ingo Maurer, de oratórios D. José, de santas barrocas, do serviço Flora Danica, de toalhas de linho
De Os Maias, de O jogo das contas de vidro, do Cântico dos Cânticos
De carros Mehari amarelos, frigoríficos Smeg vermelhos
De andar de bicicleta, levar o cão no cesto, uma revista na mala, almoçar sozinha na esplanada com vista de mar
Da luz das velas
Velhos casais de mãos dadas
Ervas aromáticas, especiarias, sal,
Bach, jazz, poesia, fado, fotografia, ballet
Da mulher com manga, de Gauguin
De tai chi e yoga


















De ‘Cela Silvestre’ ao mergulho no lago da montanha…
Conhece os sabonetes de aloé e flor-de-sal, de Aveiro?
É verdade, António Eça. Mas conheci HH, como todos os adolescentes, acho, com Sidharta.
Não sei nada de tais sabonetes. Terei de me deslargar até uma loja da Catrina Portas quando for a Lisboa? Gosto de alguns cheirinhos da Claus Porto, do da vela também.
São um poema, Eugénia, estes gostares.
Tem tantas linhas onde eu também entro.
Gosto tanto que vou ler outra vez.
Vou ler muitas vezes.
Merci, Teresa.
Eu leio sempre.Muitas vezes.
Ele é o cão.São as soleiras.E o linho.Os laranjais (as cerejeiras e brincos de ouro velho),muros e biblioteca na sala.A luz das velas (num Douro de há muitos anos com rituais de candeeiros que se acendiam à noitinha ‚porcelana e vidro fosco).Velharias.(Vou a jogo um dia destes.Lojinha.Amostras de saudades que se mostram)
Maria, que bem que fez em lembrar-se-me das cerejeiras, tão lindas, em flor! E das cerejas pretas e doces. Dos brincos..
Mais duas: alcaparras e mostarda à antiga.
Ou seja, gosta da vida e conhece o segredo da felicidade!?
nini, olá.
Gosto da vida e sou feliz mesmo quando fico triste.
O frango cerejado é belíssimo, obrigado por me recordar a cavalariça de Castro Verde. Candeeiros Ingo Maurer conheço um, conheço… Do resto, não sei porquê, soube-me a verão. Se calhar proque gostei.
Gosta daquele dos rostos budas risonhos?
É o dos papelinhos com poemas. É de um nosso amigo comum. Vai ver que ele ainda morde o isco e há de passar por aqui a ralhar connosco.
Alcaparras, claro!
Comigo, Eugénia, foi ‘O lobo da estepe’, com aquele incrível manuscrito de Harry Haller, e o Teatro Mágico…
Conhece ‘A casa e o Mundo’, do Tagore? Embora seja um romance, faz certo ‘pendant’ com Sidharta.
O meu HH foi assim: Sidharta-Demian-O lobo das estepes-Narciso e Goldmundo-O jogo das contas de vidro. Tenho muito o prazer da releitura. De tudo quanto gosto em HH, não sei do que gosto mais. Mas aquele estranho, outro, aquele sempre dois, que nos abre e acrescenta, ressoa.
(Odeio romances, são quase todos maus, quase só releio, a menos que a recomendação seja considerável.)
Agora vem-me com o Tagore! Aquela poesia toda que faz a beleza do mundo entrar pelos olhos adentro com perfeito equilíbrio impossível. Uma vez fiz-lhe aqui um postzinho com um poema de outra encarnação. O Tagore comove-me e faz-me feliz.
Eugénia, que lista tão colorida de coisas tão boas e bonitas!
O cão chama-se mesmo Cão ou trata-se de um pseudónimo destinado a preservar a privacidade do mesmo?
Deve ser um bicho muito bem comportado, visto que dorme sestas e se deixa passear de bicicleta sem — presumo — saltar do cesto abaixo por tudo e por nada.
Obrigada Joana.
O cão tem estes nomes:
o Cão;
o Cão que eu sempre quis ter;
o Lobo;
o Tigre Siberiano;
a perfeição em quatro patas;
o Coração de Leão;
o Einstein dos Canídeos;
o Príncipe Cão;
o Bom Cão;
o Perfeito;
o Cão Pessoa;
o meu Lindo Cão.
De certeza que me esqueci de alguns. Também tem outro nome. O de caderneta veterinária. Mas tem vergonha de dizer. Não se porta lá muito bem porque eu o eduquei pouco e ele me treinou muito. Detesta de tal forma o cesto da bicicleta que lhe digo sempre: não precisas de vir, podes ficar em casa. Ele vem. Já saltou dela. Detesta cavalos. Quer atirar-se a todos os que encontra.
Mesmo aos (cavalos) que vê na televisão, esqueceste-te de dizer.
Já agora mais umas indiscrições:
o Cão vê televisão e muda os canais se não estiver a dar nada com animais como ele — pula em cima do comando. Eu já vi!;
o Cão pensa que é um super-cão porque a dona o habituou a ver o mundo de cima — colocava-o em sítios altos para o ensinar que há mais mundo além do chão;
o Cão faz birra para ir à rua sem ser com a dona — uma vez eu e os meus filhos tivemos que lhe pegar ao colo para que não trouxesse o tapete da entrada atrás pois como não queria ir se ela não fosse sentou-se com ar de “daqui não saio, daqui ninguém me tira”.
etc, etc,…
o Cão é um espectáculo!
O que eu estou a gostar do Cão!
Será possível que essa — certamente fundada — aversão que o Cão tem aos cavalos possa ter tido origem na original pedagogia adoptada pela Dona? Mais exactamente, terá sido o dorso de um cavalo um dos sítios altos a que o Cão foi elevado?
O desgosto pelos cavalos é um mistério, Joana. Nem na televisão, sem som, nem mesmo só as pontinhas das orelhas equídeas. Foi para ir atacar um cavalo da GNR que se atirou do cesto da bicicleta pela primeira vez.
ai ai ai! O Cão todo devassado em praça pública!
Desculpe Eugénia, diga-me só uma coisa se puder responder-me agora: o Cão que acompanha todos os seus tão bons gostos é o cão na bicicleta da foto que acompanha cada um dos seus comentários? É só impressão minha ou terá mesmo o gentil fidalgo o ar shakespereano que nele julgo ver?
É mais uma das minhas extraordinárias fotografias de telemóvel, que o computador deixou a preto e branco: o meu Lindo Cão e a minha linda bicicleta.
(Mas o fidalgo shakespeareno ficou mal: tinha as orelhas feitas em parabólicas pelo excesso de pêlo, estava um calor desalmado — foi num dia qualquer deste Verão — e ao fim do passeio estava com sede.)