No exacto instante em que fechou a porta de casa, blindada, cinco voltas no trinco, uma, duas, três, silenciosa e densa, ouviu cair, tinha de ser, só podia ser, uma bola da árvore de Natal. Saltitou, rolou. Algo tremera na raiz do mundo. Quanto sabia, quanto poderia saber de si mesmo no espelho dos objectos? Das relações? Algo tremera na raiz do mundo, a chave no trinco e entre a pressão do polegar contra o indicador, o ouvido a decidir: a rolar, parou. Quatro. Desde a raiz do mundo até ao breve soluço no ramo alto, algo tremera e desprendera a bola de papel cartonado, forrado de pratas impressas de bagas e ramos de azevinho, oca caíra, alta e leve no chão de tábua corrida, a rolar o som claro até ao tapete, parou. Cinco. Algo tremera na raiz do mundo e reverberara nos ossos o que as articulações não amortecem. A bola caída, parada rente ao tapete, uma lágrima inteira, cheia, caída no chão, à porta de casa. Nenhum tapete a aconchegar-lhe a queda desde a raiz do mundo. Tinha-lhe acontecido isto antes. Duas vezes isto. E agora outra vez isto de, sem aviso, em sincronia, sem nexo aparente de causalidade, isto de a vida se deixar inspirar e a consciência dela, na expiração, lhe explodir os sentidos e o pensamento no centro do peito, é a água, o lugar exacto onde o eu se lhe diluía e por uma fracção de segundo, uma fracção de segundo apenas, e o tempo suspendido mostrava-lhe a eternidade em perfeito equilíbrio. Sem julgamento. Sem existência individual apesar de si mesmo. Depois, este laço desfazia-se e a ligação com as coisas voltava a ter a gravidade que lhe era própria: dois dedos abaixo do umbigo. Desfazia-se com uma lágrima inteira, cheia, e num murmúrio, no centro do peito, nos escombros dos sentidos:
— água primordial. O que chega aos olhos é a água primordial.
Isto. E por isto já a chave no bolso, por isto já a caminho do aeroporto, por isto já em Chennai, por isto já em Chidambaram, por isto em Vaitheeswaram Kovil, por isto em Fort Kochi. Não. Em Fort Kochi ainda não. Eram vinte e poucos os quilómetros de distância entre Chidambaram e Vaitheeswaram. De autocarro. Nenhum turista. Fechou os olhos e deixou a cabeça bater contra o vidro a trepidação da estrada, e pelo corpo, a trepidação da estrada. Assim embalado, com brusquidão de mãe impaciente, nem dormia nem acordava. A cabeça repousada no vidro, o pescoço inclinado para a direita, a camisa de linho amarrotada em cada movimento do corpo, bege, e as calças de linho, beges, as pernas compridas demais para o espaço estreito entre os bancos, a napa colada às costas numa só mancha de suor. Abriu os olhos. Ao lado, um homem sorria-lhe a falta de dentes, as mãos firmemente seguras no encosto da frente como se fosse cair do lugar para fora. Dedos de amarelas unhas irregulares afundadas na carne, largos dedos deformados. A sorrir-lhe a falta de dentes. Endireitou-se no banco. A acenar-lhe a cabeça, a fazer –lhe com a mão o gesto de agarrar o banco, sorria-lhe. Por insistência, ou simpatia, agarrou também o banco da frente e antes que tivesse tempo para voltar a fechar os olhos, os braços primeiro, o estômago e o pescoço depois, receberam o embate. Quatro mãos firmemente agarradas ao banco da frente, o homem a sorrir-lhe ainda, a assentir com a cabeça, o sorriso de um idiota, mas nos dentes, now you know, now you know. Saíram. Não havia feridos graves, nada que fosse além das escoriações, se se descontasse o pneu rebentado de morte. Apalpou o braço de uma menina que chorava em gritos o susto — a mão, tão pequenina de medo, a segurar a dor no pulso do outro braço. E sacudiu o médico nele que ia para toda a parte com ele.
— come. We go Nadi Jyotisha.
A verdade estava na estrada, de pé, a olhá-lo, a falar-lhe a partir daquela boca, como antes tinha estado sentada ao seu lado sem que a notasse. Porque ele era aquele que procurava, a verdade viera ao seu encontro. Cego. Tinha vindo para ver o seu nome, e o dos seus pais e dos seus filhos, escritos em folhas de palmeira, toda a vida de todos, presa entre duas tiras de madeira perfuradas, páginas de palmeira perfuradas, identificadas e catalogadas a partir da impressão digital do seu polegar direito. Não para uma predição do futuro. Este, tal como o passado e os passados, já tinha acontecido e estava registado há tanto tempo, que fora primeiro dito de boca a orelha, depois fechado dentro do alfabeto grantha e vatteluttu, em sânscrito, em tamil, guardando na linha curva da mais poética das línguas, o puro conhecimento perdido, oferecido pelos sete sábios ao homem. Até o do já esquecido e o do porvir: desde o pecado hediondo de uma existência antes da memória de ser, ao dia da morte encerrado no último batimento do coração deste corpo cuja vida se mede em inspirações.
















Sabe o que é que eu acho? É que há “uma lágrima inteira, cheia, caída no chão, à porta de casa”, desta casa de Gente Morta. Gostei muito.
Bondade sua, Manuel Fonseca.
Fico contente que tenha gostado
Há certamente um «corpo cuja vida se mede em inspirações». Malgache?… Muito bonito.
Obrigada, António Eça.
O meu ouvido desconhece, ainda, o malgache.
Eugénia, o texto está belíssimo. Vais ter que o dizer para mim — sou uma privilegiada, é o que é, pelo menos enquanto o blogue não tiver som!
Fort Kochi é o Fort Cochin? Gostaste mesmo muito da fotografia do Pedro Norton.
E a seguir? Estou curiosa!
.MJC,
Obrigada. Sim, Fort Kochi e Fort Cochin são o mesmo lugar. Gostei muito. A seguir é com a Teresa, também estou curiosa.
Vai uma pessoa domingo para fora e segunda quando regressa tem um sari de letras a envolvê-la.
(a apertá-la?)
Ando para aqui com esse traje leve pesado, de tintas espessas, a linhar-me o dia por dentro.
Que bonito que é Eugénia, não apetece nada sair dele.
E como desenrolá-lo, tantas as voltas da veste?
Também estou curiosa.
Ou estou feita, outra maneira mais apropriada de pôr a coisa:)
Estamos as duas, Teresa, uma a seguir à outra… Take your time … eu ainda estou a tentar descobrir onde começa e onde acaba este sari, quanto mais desenrolar o dito …
Eugénia, gostei muitíssimo ontem e hoje de novo cada vez que releio — e tento não me lembrar de que sou eu a seguir, daqui a uma Teresa viajante (que sabe Deus para que sítios nos vai levar) …
Olá Joana, obrigada.
Vamos ver para onde, por onde, a Teresa nos leva..
Ó Teresa que bonita imagem: sari de letras. Gostava de ter um.
Merci.
Cara Eugénia de Vasconcellos,
A bolinha da água primordial, ao quebrar-se, e com o que terá libertado, permitiu pular da Sardenha para o Hindustão numa só linha de texto? Prometedor Folhetim. A pesquisa no Google bastará ou devo munir-me de dicionários complementares?
Pedro Norton não cederá alguma foto para ilustrar o primeiro capítulo?
Ainda aparecerão “Gamas” em páginas de palmeira perfuradas?
Como nos aparecerá a ilustração do segundo capítulo? Em desenho ou foto?
Se há fotos para este capítulo, só o Pedro saberá.
Eu já tenho ilustrações para este, e para o próximo, internadas no canto direito da face, ando de cara à banda e só eu sei porquê. Não sei é como vou traduzi-las no papel, há ilustrações que não desinternam nem por nada.
E transcrever imagens em palavras ainda pior.
Dedos suspensos sem teclas de piano.
Como é que uns dedos desinstrumentados vão conseguir pular continentes numa semana?
Ai Eugénia, tenho a cara cada vez mais pendida, acho que vai nascer-me outro nariz.
Hoje está toda imagética, Teresa: já me fez rir com o outro nariz.
Caro Orcama, cedo todas as fotos que a Eugénia entender. Só não tenho é fotos da Sardenha.
Olá Orcama. Não, é a técnica Indiana Jones: atravessa-se o mundo assim.
Assim parece. O Jones da Sardenha para Indiana…