Eu não #2

Fotografia de Maria João Cabrita

Toda a gente gosta de dentes à americana: branqueados. Seja a toque de químicos ou de facetas. O culto da juventude chegou às bocas  portugueses, piramidalmente, comme d‘habitude, das classes política e televisiva para baixo, sem vertigens. Toda a gente gosta. Eu não. Só de dentinhos bem cuidados. Se calhar porque no meu reino despótico tenho todas as idades que já tive antes, e a juventude que foi minha, é ainda e para sempre será. Só cultivo aquilo que me falta: sabedoria. E não é por isso que farei como os cortesãos chineses e japoneses do século XI que escureciam os dentes para terem a beleza sábia dos anciãos.

Comentários a “Eu não #2” (6)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Eugénia, o que eu estou a gostar destes NÃOs da MJC (o outro também era?) e do uso que está a dar-lhes!

    PS – Por falar em dentes, o que terá sucedido ao desprovido e não obstante sorridente homem do autocarro para Vaitheeswaram ?

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Olá, Joana. Merci. O outro “não” foi rapinado na net, através do Google images. Não anotei o autor por não vir referenciado. Entretanto, fiz à MJC uma encomenda de “nãos” e “sins” e ontem à noite chegou-me a primeira leva. Quem tem amigos, tem tudo. Quem tem amigas, tem mais ainda.

    Estou em crer, e isto é um acto de fé, que a Joana saberá dele. Bem como o nome do nosso herói.

  3. António Eça diz:

    Um dia, há muitos anos, numa publicação gratuita que havia aqui no Porto — chamada ‘METRO’ -, inspirei-me nesse ainda raro fenómeno de branqueamento dental para inventar e publicar um conceito de identificação visual, hoje bem popularizado pela classe política e por actrizes boas e actores assim-assim ou nem por isso da Tv. Era o «sorriso límpido das taínhas»…
    Por exemplo: Portas possui esse «sorriso límpido das taínhas».
    É ou não é?

  4. Olá, tu aí a sorrir
    Diz-me quem é o teu dentista
    Eu nunca vi sorriso assim
    Nunca vi sorriso assim
    Nem em capa de revista

    O teu brilho dental
    Não é coisa de amador
    É brilho profissional
    É brilho profissional
    Em busca dum projector

    Mas no fundo tens razão
    Temos que estar preparados
    Em qualquer ocasião
    Podemos ser convocados

    Para ir à televisão
    Dar uma opinião
    ou demonstrar um talento
    para ir à televisão
    fazer opinião
    E ter o nosso momento

    Já diz o Rui (e o T?)

  5. António Eça diz:

    Exacto, Francisco. Acho que é com o T, pelo menos o tom directo é o mesmo.
    A mim aconteceu-me uma coisa idiota, este Verão: parti um incisivo superior — uma das ‘favas’. E fizeram-me um implante que é ligeiramente mais claro que o verdadeiro. Até já pensei em não lavá-lo, mas dá imenso trabalho…
    Ou seja: fiquei com o sorriso a modos que vesgo

  6. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Apesar de gostar do Rui e do Tê, não conhecia, Francisco, merci. É impossível não sorrir.

    António Eça, António Eça! De ironia piscatória e incisiva, só você se lembraria.

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