É 2010 e não há futuro

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Julgamos saber que não podemos banhar-nos duas vezes nas mesmas águas do rio que passa, da mesma forma que fingimos ignorar que só há um caminho que é e não pode não ser, pois o que não é e é forçoso que não exista é um caminho impensável. Ao imparável rio que flui e à esplêndida e imóvel eternidade une-os a mesma substância física, o mesmo mistério metafísico: a natureza do tempo.
O tempo corre, o tempo foge. Há essa ideia de que o tempo se dirige para a frente e nos leva para o futuro. Temo — e o plotinano primeiro capítulo da “Historia de la Eternidad”, de Jorge Luis Borges, instiga a suspeita - que seja outro o movimento do tempo, que seja mais nostálgica e heterodoxa a natureza desse fluxo.
Agora que todos nos interrogamos sobre o futuro da economia, sobre o futuro de Portugal, sobre o futuro do clima, passo ligeiro, e em branco, pelas razões cívicas que a todos nos atormentam e imagino que não há mesmo futuro. Desgraçadamente, acolho a ideia com insensato optimismo.
O beijo que te dou, o generoso decote com que te insinuas, a fúria que te faz explodir em soluços, são actos que têm um só sentido: consolidar o passado. Não há futuro. O presente, se é que o presente chega a ter densidade ontológica, serve apenas para actualizar ferreamente o tempo que foi e que, por ter sido, não pode não ser. O sonhado e mitológico amanhã que canta é, ainda e outra vez, uma forma subtil de o passado se expandir, como se expande a tinta que tinge de vermelho, numa prosaica máquina de lavar, a branca camisola de lã.
O futuro? Que lástima! Encosto-me à móvel e milenar ombreira do tempo que corre e foge. Só vejo, e consola-me, a firme e progressiva expansão do passado, belíssimo labirinto que desemboca na eternidade***.

*** Estou sempre a voltar aos apontamentos do velho Geração de 60. Mas 2010 e o começo de década (que tecnicamente não é) estavam mesmo a pedi-las.

Comentários a “É 2010 e não há futuro” (5)

  1. António Eça diz:

    Também acho esse amanhã muito desafinado, para quem diz que canta…
    Einstein dizia que o Tempo é a única coisa que a matemática não pode explicar. O presente é o futuro ao segundo, é o futuro em ritmo infinitesimal de reacção quântica. Dizes que não existe mas ele está sempre a chegar, em pequenas vagas rápidas com pequenas variações individuais, sem perguntar se lhe damos licença ou não.
    A verdade é que não penso muito nisso — embora tente reparar nos sinais.

  2. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Manuel, ontem dei por mim a pensar — culpa tua, já se sabe — sobre a experiência do tempo nas plantas, nos animais e nos homens. Se tiver coragem — e tempo — faço um post.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Coragem Gonçalo. Tempo não precisas, já tens passado!
    António, esse teu Einstein não é mal pensado. Ou, e sendo de tempo que falamos, não é sequer mal passado!

    • Orcama diz:

      Manuel “S’Brigas” Fonseca…

      Ah, Ah, Ah, parece que temos os relógios certos!… ao segundo!…
      Bom motivo para um físico, ou pictórico… almoço! singularidade, que eu, resolverei…enologicamente…

  4. camila diz:

    nada a ve
    pisicopata

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