Tremendo perante as invectivas do Manuel S. (de sei lá!) Fonseca (até porque segunda-feira é já amanhã), mas querendo ajudá-lo na sua caridosa tentativa de consolar a Eugénia de Vasconcellos nesta sua religiosa experiência de uma intensa dilaceração interna, aqui deixo as palavras de alguém que, há muito tempo, e sendo também poeta, admiravelmente passou por tudo isso:
«Por isso eu suspirava, atado, não pelas férreas cadeias de uma vontade alheia, mas pelas minhas, também de ferro. O inimigo dominava o meu querer e a partir dele me forjava uma cadeia com que me apertava. Ora, a luxúria provém da vontade perversa; enquanto se serve a luxúria, contrai-se o hábito; e, se não se resiste a um hábito, origina-se uma necessidade. Era assim que, por uma espécie de anéis entrelaçados — por isso lhes chamei cadeia — me prendia apertado em dura escravidão. A vontade nova, que começava a existir em mim, a vontade de Vos honrar gratuitamente e de querer gozar de Vós, ó meu Deus, único contentamento seguro, ainda se não achava apta para superar a outra vontade, fortificada pela concupiscência. Assim, duas vontades, uma concupiscente, outra dominada, uma carnal e outra espiritual, batalhavam mutuamente em mim. Discordando, dilaceravam-me a alma.»
AGOSTINHO, Aurélio, Confissões, livro VIII, cap. 5.

















Gonçalo, que louvável propósito! E que excelente e isento contributo!
Deveras decidida a dar também uma ajudinha, não tanto à Eugénia, que manifestamente não precisa, mas ao atormentado MSF e ao próprio autor desse texto, se ainda a tempo fosse (dá-me ideia de que não), lembrei-me de ter aprendido na Faculdade, que havia, de facto, um definitivo remedium para a concupiscência!
Ei-lo, o simpático Cânone 1013 do Código de Direito Canónico de 1917.
§ 1. Matrimonii finis primarius est procreatio atque educatio prolis; secundarius mutuum adiutorium et remedium concupiscentiae.
§ 2. Essentiales matrimonii proprietates sunt unitas ac indissolubilitas, quae in matrimonio christiano peculiarem obtinent firmitatem ratione sacramenti.
É evidente que não resolve o problema, menos ainda o dilema. Mas integra-os num contexto mais vasto, ele próprio potencialmente problemático, logo atenua-os.
Ah! Já me esquecia! Não faça caso se lhe disserem que o referido Cânone foi revogado em 1983. Trata-se de um pormenor de somenos importância.
Gonçalo, tão solícito Gonçalo.
Agradeço-lhe. Mas vejo-me obrigada a desfazer o equívoco: quem precisa do consolo dos seus pares, do seu consolo, do consolo, enfim, que — surpresa! -, o Gonçalo tão bem produziu ainda que errando o destinatário, é o MSF.
Na minha experiência — religiosa como bem notou a sua atenção, pois só de amor se trata, e o que mais se não o amor nos devolve a ligação ao divino? — a dilaceração é simulada: pois se Cristo, ele mesmo, recomendou a astúcia para pedagogia no tratamento dos bens do mundo. O que é um relógio quando comparado com a devoção que o marido deve à mulher?
Ps: e logo com o meu querido Santo Agostinho. Terei de reciprocicar tanta generosidade.
Eugénia de Vasconcellos, da Sardenha, ou de Hipona?
Mas, apesar do que diz, acha bem este tratamento, abaixo comprovado, dos relógios do amado? Não deverá o amor, consubstanciado no matrimónio, ser regido pelos incontornáveis princípios da reciprocidade?
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Então o meu estimado Orcama não sabia que a Gala era freguesa assídua da loja dos chineses da rua onde morava com o Salvador/marido/namorado/híbrido/Dali?! E que, justamente, ele gostou tanto de ver a Gala com a camisa do smoking que resolveu pintar os relógios chineses para lhe oferecer e, assim, reconhecer-lhe a acção apaixonada e inspiradora? É que não há biografia dele que não refira isto!
Cara Joana, a escola dos juristas, mesmo que utriusque juris, baralha sempre um bocadinho as coisas. O remédio definitivo é, de facto, sacramental, mas é o voto por meio do qual aguém se entrega inteiramente a Deus (como cantava frei Hermano da Câmara: entreguei-me todo a Cristo e nunca mais me senti só!). O matrimónio, conforme recomendava São Paulo, é, digamos assim, um mal menor. O melhor é o homem abster-se de mulher (e esta de homem), mas, dado o perigo da imoralidade, cada um tenha a sua própria mulher e cada uma tenha o seu próprio marido (1 Cor. 7, 1–2). Depois, porém, a coisa atenua-se, porque é claro que daqui ao radicalismo do arianismo e do pelagianismo, cujos perigos são hoje renovados pelas religiões políticas, tanto marxistas quanto liberais, é um pequeno passo. Mas a Igreja católica, apostólica e romana, se há coisa que teve, ao longo da história, nestas matérias, foi bom senso.
Quanto a si, perigosa Eugénia, não me enfeitice com as suas belas palaras. O amor é, de facto, a medida do homem, sendo, no entanto, o amor divino que nos envolve na ligação aos humanos. Quanto ao resto, fico à espera da sua reciprocicação. Mas tenho que avisá-la: não uso relógio! Nem mesmo daqueles que dali nos mostra o Orcama.
Gonçalo, agradeço a simpatia, mas a consciência dos meus paupérrimos conhecimentos de Direito Canónico leva-me a declinar o honroso título de jurista utriusque juris. Fico-me pelo outro e mesmo assim, sabe Deus…
Não faz mal Joana. Como dizia o famoso axioma teológico que tanto uniu e dividiu os teólogos, sobretudo jesuítas e dominicanos, nos séculos XVI e XVII: Facienti quod in se est Deus non denegat gratiam.