
Cena 1. Um homem e uma mulher têm uma valente discussão. Ela, irritadíssima, sai porta fora, chorando. Não volta durante toda a noite. Depois do almoço, preocupado (leia-se: culpado e capaz de pedir desculpa), ele telefona às dez melhores amigas dela contando o que aconteceu e perguntando se por acaso sabem onde ela está. Todas disseram não fazer a mínima ideia onde ela pudesse estar, mas cinco acrescentaram que, agora que pensavam nisso, talvez a tivessem visto, de madrugada, num bar, com um amigo… mas não podiam ter a certeza.
Cena 2. Uma mulher e um homem têm uma valente discussão. Ele, irritadíssimo, sai porta fora, gritando. Não volta durante toda a noite. Depois do almoço, preocupada (leia-se: magoada, mas capaz de desculpar), ela telefona aos dez melhores amigos dele contando o que aconteceu e perguntando se por acaso sabem onde ele está. Todos disseram que ele tinha lá passado a noite e cinco acrescentaram logo que ainda estava no quarto, a dormir.

















Gonçalo, entre esta sua história — congeminada evidentemente por um homem — e a realidade existe uma única e verdadeira diferença: não é de todo assim que as mulheres funcionam umas com as outras. Quando são amigas. E, sobretudo, quando são melhores amigas.
Joana, só uma breve pergunta: têm?
Olá MSF. Eu não lhe devia responder, mas respondo.
Têm, pois. Felizmente. Falo sobretudo por mim, que tenho a sorte de ter as mais dedicadas, fiéis, solidárias, divertidas e, evidentemente, pacientes amigas, com quem partilho as boas e as más horas. Mas estou certa de não ser caso único ou raro.
PS — Desconfio sempre das mulheres que me dizem que só têm amigos homens … (há uma variação igualmente irritante, que é a do só gostar de trabalhar com homens).
Sim, MSF: amigas de uma vida inteira, e até outras que, surgindo muito mais tarde, parecem ter estado presentes desde sempre. E com quem se tem uma intimidade que é impossível de reproduzir na amizade entre um homem e uma mulher, sólida que esta seja.
Gonçalo,
a minha costela masculina deixou-me engasgada a rir.
A outra costela concordará com a Joana.
Mas prefiro o sentido humorístico da coisa e, apesar do pendor machista da história,
imaginar que quando os dois regressam a casa ambos poderão divertir-se
com o relato das versões amigas…
Para mim a grande questão não está nas amigas e amigos que se têm ou não, que isso depende de muitas coisas no meio das quais estamos nós próprios reflectidos. O problema, aqui colocado em hipérbole (e muito bem!) pelo Gonçalo, é o tipo de ajuda que as mulheres se propõem prestar às suas amigas em certas ocasiões: às vezes até querem ajudar, mas no fim vai-se a ver e só complicaram imenso (os exemplos são como átomos à solta na natureza).
O homem quando vê o plano geral da coisa omite palpites — seguindo o velho preceito, empírico, comprovado de jure, que «entre marido e mulher não se metaea colher».
É claro que, como em tudo (até Darwin concordará), há excepções — dum lado e do outro.
Manuel, desta vez julgo que foste longe de mais. Então as mulheres não têm amigas? E boas? E um monte delas? Então nunca ouviste falar do face book?
Gonçalo, gostei muito desta tua observação científica. Mas só uma coisa. Já compraste uma armadura? Prepara-te para o assédio e outras formas de assalto das Calamity Janes do blog.
MSF, mas que apropriada sugestão, esta da compra de uma armadura por parte do científico Gonçalo-arma-secreta, ante a sua (dele) comprovada mestria em armas de ante-ante-penúltima geração – até ver, o latim (a deixar adivinhar o grego), os teólogos da Reforma e contra-Reforma e os Doutores da Igreja… Já tem o dicionariozinho à mão, ou o Orcama empresta-lhe um dos dele?
Joana, acredite que estou com medo. Sempre o tive, de muita coisa, e especialmente das mulheres (sendo minhotas, ainda pior). Mas vivo para o não ter. De maneira que aqui me tem, sem armadura, sem dicionário, tão despido quanto o Adão lá de cima, naquele fatal momento em que, contrariando-se, abria os olhos.
Gonçalo Torquato Accetto Pistacchini Moita de Castiglione! E, na senda de Cícero…
Saiba, doce Eugénia, que tive uns avós Torcatos (ou Torquatos, tanto faz). Eram conhecidos no Porto, aliás, por características que lhe não vou aqui revelar. Para minha defesa, já se sabe, que isto de andar sem armadura pode ser muito perigoso… é que não dá para dissimular! Nem mesmo desonestamente! Quanto ao resto é coisa onde ainda pouco pus o meu nariz. Grande orador, como se sabe — até parece que escreveu sobre isso -, mas homem historicamente desinspirado e, sobretudo, desinspirante.
PS: Joana, antes que me acuse, confesso que tive mesmo que recorrer aos dicionários!
Eugénia e Gonçalo, hoje sou quem morre aos bocados, vítima da acção conjugada dos sonos trocados (em pleno jet-lag pós-festas natalícias, agravado pelo regresso às aulas) e da fastidiosa actividade de escrevinhar notas de rodapé sobre aspectos muito recônditos do direito espanhol… Também de dicionário em punho, que o castelhano é muy, muy traiçoeiro.
Por isso,
Obrigada Eugénia, é isso mesmo: dissimulação. Óbvia, patente, descarada. E evidentemente não honesta. Outra coisa não seria de esperar deste presunto involucrado (no grupo do MSF, quero eu dizer)…
Gonçalo, acredite que lamento o seu despido. Foi individual ou colectivo? Espero que, ao menos, o indemnizem.
Acho que vou tomar (mais) um café.
É, o espanhol é muy, muy traicionero, s.f.f., está bem?
Resposta de homem 1. Foi individual, Joana. Se fosse colectivo a parra teria de ser maior.
Resposta de homem 2. Só nos nossos dias é que uma senhora seria capaz de chamar a um homem: presunto involucrado (seja lá em que língua for!).
Resposta de homem 3. Não beba mais Joana. Olhe que lhe faz mal.
Resposta de homem 4. Olé!
Gonçalo, em castelhano, despido quer dizer despedimento; presunto significa presumível e involucrado significa envolvido. Era para ter graça. Não teve. Lamento.
Teve graça, sim senhora, Joana. Por isso lhe respondi, muito à homem, acabando com um olé. Tinha também tido a esperança de o fazer com alguma graça. Mas não!?
Gonçalo, achei a sua resposta delirante! :)))
Mas confesso que, mesmo com o subsequente Olé, fiquei na dúvida sobre se você — muito à homem — não teria afinado com a gracinha… Definitivamente, o deficit de sono e o excesso de notas de rodapé toldam-me o discernimento!
Bem mais tranquila, retiro-me, a ver se recupero e se amanhã a coisa está menos nebulosa.
Joana, vivo com 4 mulheres em casa. Não me posso dar ao luxo de afinar com as suas (delas) gracinhas. O mais de que sou capaz é, em dias de excesso, um breve amuo. Nunca, no entanto, consigo, que ainda tão mal conheço e ainda por cima é do Minho (nunca me chegou a dizer se conhece a estrada de cabração, à saída de Ponte do Lima).
Gonçalo, considere-se um homem quatro vezes afortunado! Quatro mulheres numa casa é garantia de animação, alegria, conversa e ligação constante à terra e ao essencial da vida, mesmo naqueles dias em que, por uma razão ou por outra, a nossa mente anda mais pela estratosfera! Sei do que falo: cá em casa somos quatro mulheres and extremely happy about it!
Quanto à estrada e ao rio, não os conheço. Trata-se de uma lamentável lacuna na minha cultura minhota e geral, que vou tratar de colmatar numa próxima ida lá a cima. E vou também fotografar as tabuletas com os respectivos nomes… Fotografar tabuletas — quanto mais bizarras melhor — é já uma mania antiga, que começou durante os anos em que passei grande parte dos longos meses de férias de Verão em Macau …
Estive a ver no Google Maps e a minha freguesia — Gondufe — fica para o lado contrário, ou seja, para a direita de Ponte de Lima, na direcção de Ponte da Barca.
A estrada de Cabração e o Rio Cabrão, ora essa!
Ora Eça! :) O rio Cabrão, sem a importância do Coura, faz as delícias das crianças, especialmente dos rapazes, sempre que atravessamos a pequena ponte que ostenta o seu nome (mesmo que não tenham grafado correctamente o seu nome na dita tabuleta, onde se lê C-A-B-R-Ã-O, e não C-A-B-R-Õ-M-H-U-E)
Gonçalo: à moda de Bruaga… ou galaico-durienses, se quisermos armar em etnógrafos.
Bruaga? Isso é pronúncia do norte que se apresente? Ora Eça…
Há várias versões! Essa é que é Eça!
http://www.youtube.com/watch?v=ikqW5vr78vc
Joana. Ainda bem que fizemos pazes. Assim, já como amigos, posso dizer-lhe que nesta casa abençoada por 4 mulheres (e por 2 homens), tivemos a graça de estar mais uma a caminho.
António e Orcama. Quanto à pronúncia posso apenas dizer-vos isto: sou de Lisboa, nascido na Casa de Saúde da Parede e por aqui exilado, desde sempre. Mas assim que chego ao Porto, e mais acentuadamente ao Minho, não passam mais de seis horas sem que comece a falar à Nuorte (carago)!
Gonçalo, que feliz notícia! Fico muito contente por todos! E encantada pela amiga reveleção! Que tudo corra pelo melhor!
Gonçalo, que felicidade.. Parabéns!