Quando tinha 20 anos (e penso que como muitos outros leitores que tardiamente descobrem que há outras literaturas para lá daquelas que se podem requisitar em biblioteca paterna), li tudo o que pude dos grandes “Beats” Americanos. Kerouac, Burroughs, Ginsberg, Bukowsky, mas também nessa altura, Miller (esse existia na dita biblioteca paterna), Selby Jr., Fante e outros. Sonhava com a New York dos Fifties. Com Marrakesh. Com poeirentos pueblos Mexicanos, cogumelos mágicos e peyote. O ultimate dream parecia ser o de fugir à minha tão provincial Lisboa e ir arranjar um emprego num diner de Brooklyn para poder conhecer, às três da manha, quando saem para a noite, os pushers, as prostitutas, os low lifes e os fonies desse Boro de tão soturna e esquálida fama (not anymore, I guess).
O junked-up William Burroughs e o seu universo em particular, tornaram-se uma obsessão. Durante algum tempo vivi imerso no seu sulfuroso cocktail de loucura que o próprio aqui em baixo tão bem (?) ilustra. Um universo de Junk, Jesus, Gooks and apes. Dukes, Dikes and piss. Bodies, numbers, dope and dole. Motels and parasites. Americans. Pride, buried and naked. Players, payers and syndicates. Particles. The Universe. Charlatans, cut and slitted, and a gaping, wobbling space. Time, words and power. Blood, bones and brains. Lavatories, sell-outs, sick dogs and human animals. And Love. Lots of decadent Love.
Tenho tantas saudades dessas inocentes leituras.

















Também eu, aí pela mesma idade, achei aquilo o topo do mundo. Curiosamente, a cidade onde imaginei tudo acontecer era S. Francisco. Só não concordo com a maneira como empregas o adjetivo “inocente”. Não eram as leituras que eram “inocentes”, porque prentendíamos, precisamente, fugir da inocência da puberdade com elas. Nós é que éramos “inocentes” por crermos que era esse o caminho. Ah, declamar Gingsberg aos berros, numa tasca do Cais do Sodré…
Referia-me à leitura como o acto em si e não o seu objecto. A leitura era minha e por isso inocente. O que estava escrito isso sim, era, e é, tudo menos inocente, estou de acordo.
Abraços cornélicos.
Eu, ao invés, sempre tive pseudo-ideias-ideais-desejos bem mais prosaicos: um loft em Greenwich Village já me sossegava o espírito.
Capote, Mailer e Marrakech.
Vasco! E o Hunter S. Thompson?