São Gonçalo de Amarante
Casamenteiro das velhas
Porque não casas as novas
Que mal te fizeram elas?
O apelo do título e o remoque da quadra têm um mesmo destinatário – Gonçalo de Amarante, beato na hagiografia oficial, santo na devoção popular, padroeiro de Amarante. A sua festa litúrgica celebra-se hoje, 10 de Janeiro, data da sua morte, em 1259.
A biografia de Gonçalo pouco diverge da de outros religiosos da época. Nascido em família fidalga, ordenado padre em Braga, foi nomeado pároco de São Paio de Riba (Vizela), onde se distinguiu no zelo apostólico e no apoio aos mais pobres. No regresso de uma longa peregrinação a Roma e à Terra Santa, viu-se privado da sua paróquia, usurpada pelo sobrinho, também padre, a quem a confiara. Dedicou-se então à pregação por terras de Entre-Douro-e-Minho, a partir de uma pequena ermida, junto ao Tâmega, onde se manteve mesmo depois de professar como dominicano. E aí levou uma vida de austeridade e de serviço aos fiéis que, em grande número, o procuravam.
Porém, e por razões não inteiramente esclarecidas – são muitas e quase sempre extraordinárias as versões que, a este propósito, se cruzam – passou à posteridade e é celebrado como santo casamenteiro. Lado a lado com Santo António, se bem que com um âmbito de actuação mais restrito que o do santo lisboeta – a sua especialidade são as velhas. Advirta-se, contudo, que o critério que define as ditas — claramente datado — é muito mais abrangente do que se possa supor. Velha, para beneficiar da graça preferencial do simpático São Gonçalo, é qualquer mulher de idade igual ou superior a 30 anos…
É, por isso, imensa a popularidade deste santo, há séculos celebrado com uma devoção alegre e pícara, expressa em quadras mais ou menos brejeiras, rituais de origem pagã, há muito enxertados neste culto, cuja mera descrição deixa estarrecido o incauto e, claro, os explícitos doces de São Gonçalo. Manifestações de uma tradição arreigada, de riqueza e originalidade ímpares, mas que razões de elementar decência me impedem de descrever e/ou reproduzir neste blogue de Gente sisuda e composta, pese embora Morta.*
Em todo o caso, fica o reminder. A todas as, afinal, velhas. E, porque um santo tão bondoso decerto não discrimina na sua providência, também às novas. O mesmo vale para a rapaziada (julgavam que escapavam?) de todas as idades. Porque não arriscar uma singela prece? Parece que é casamento garantido, e no prazo de um ano…
* Aos mais curiosos que, por essa internet fora e por sua exclusiva conta e risco, decidam aventurar-se, não digam depois que eu não avisei…

















Joana, isto é serviço público!
E poder-se-á pedir a um Santo de tanta competência, para além do casamento, ou melhor, aquém do casamento, que nos desencante um rapaz que nos dê vontade de nos voltarmos para um Santo e lhe dizermos: gosto dele, casa-nos, please, please…
Eugénia, o que fui ouvindo ao longo dos anos sobre as inestimáveis e incomensuráveis graças concedidas por São Gonçalo — amplamente confirmado pelo research sumário que antecedeu este post – permite-me assegurar-lhe que o alcance da intervenção do mesmo tem um alcance mais que abrangente, integral. Aliás, não poderia ser de outro modo, atenta a tendencial premência dos casos em que é requerida…
Ou seja, o santo assegura, não apenas o encontro com o rapaz certo (nos exactos termos em que o define), a subsequente e recíproca paixão e a pretendida passagem pelo altar — num prazo muito aceitável — e, ainda, harmonia e felicidade conjugais duradouras…
Tudo com um mínimo de esforço, angústia e agitação, logo, em plena conformidade com o espírito daquela sua lista de desejos para 2010…
A eficácia deveria ser considerada uma das grandes virtudes. Gosto. Tem uma vertente executiva que admiro muito. Este São Gonçalo tem-na, assim como a uma devota nova — velha, velha!
Espero, então, no prazo de um ano, conhecer um rapaz perfeitamente amável, dar por isso, amá-lo, ser amada, ter vontade de casar com ele, ser pedida em casamento, dizer sim, casar e ser feliz para sempre.
Vou fazer o pedido antes da meia noite com a lista de atributos do, creio que já posso referi-lo desta forma atendendo à infalibilidade do Santo, hoje híbrido, amanhã namorado, depois marido.
Vai arranjar uma fila de afilhadas, Joana.
Sem dúvida! Gonçalo de Tagilde até queria casar as prostitutas mais convictas ao som de convicentes guitarradas — o que pressupõe que pretendeu resolver os problemas todos (?!) duma só vez.
Não conseguiu, como é óbvio, e quem lhe acabou a igreja-convento de Amarante (hoje paredes meias com o excelente museu de Amadeo) foi afinal um dos primeiros reis da Espanha que hoje conhecemos — Filipe II, primeiro de Portugal. Até aos Reis Católicos o Reino de Granada era uma espécie de ‘pain in the hass’ política naquela Espanha afinal nunca totalmente explicada…
António Eça, não seja mauzinho com o santo! Olhe que mesmo nos mais delirantes relatos que explicam esta sua vertente casamenteira, o mesmo deu sempre mostras de grande realismo!
Ao que parece promovia – i.e. induzia com grande veemência — o casamento, não apenas dos casais que viviam em pecado, como de mulheres que, num momento de fraqueza, teriam dado um, por assim dizer, mau passo que, tornado público, reduzia consideravelmente as suas chances de aceder ao tão almejado estado matrimonial.
Quanto às prostitutas, a preocupação primeira dele era mantê-las afastadas do métier – e que melhor solução do que organizar bailes pela noite fora (nas quais segundo algumas versões ele próprio tocava e dançava) de tal modo que as mesmas, extenuadas, não pecassem no dia seguinte? Diga-se, de novo em abono do santo, que algumas das referidas versões acrescentam que, para acautelar a plena eficácia da estratégia, lhes pagava, com dinheiro das esmolas e das ofertas, o valor da jornada de trabalho assim perdida …
Ele pagava às ‘piquenas’?!… Áhhh!… Acho que nunca se saberá objectivamente o que realmente se passou nesses bailes…
António Eça, não seja, também, ímpio! Olhe que ele há santos que são rancorosos e vingativos, até. É a chamada ira dos justos. E o São Gonçalo — de novo rezam as tais lendas — parece que é dos mais feros.
Eu cá não quereria cair nas más graças de nenhum santo … sobretudo deste …
Agrada-me tudo, sobretudo a felicidade e harmonia duradouras! Vou já rezar, e convido-a para madrinha Joana, pode ser?
Aceito com o maior gosto! Tenho é de começar a pensar já no presente … — ao que parece, o santo é, além do mais, rápido na concessão das graças!
Pio! Pio! Eu sou como o senhor D. Duarte de Bragança, que também é Pio! E como tal estou protegido contra iras santas! E toclas…
Pois folgo em saber, António Eça.
Mas será que esse seu pio escudo protector, mais o engmático toclas funcionam em caso de provocação reiterada aos santos? Eu, se fosse a si, ia ler as letras pequeninas dos termos do alegado estatuto protector por eles conferido: ainda é capaz de ter alguma surpresa…
Com a devida vénia, isto não é serviço público. Trata-se antes de serviço privado, exclusivo, anunciado publicamente, isso sim!… E o que eu fiquei a saber…
Pois claro que ficou, Orcama! Se ficou! Foi, aliás, a pensar no seu caso que eu escrevi aquele disclaimer sob a forma de ps .…
Bem me parecia haver ali algo de subcacuminal…
O ‘toclas’, sem dúvida enigmático, escusa-me de ler letras pequeninas. Sabe, nós, os Borgias…, somos mesmo pios!
Que sorte, ter um toclas para tal efeito. Eu também não costumo ler, mas é porque dá muita maçada, preciso de óculos e normalmente o conteúdo só me dá desgostos …
Quanto ao resto, essa sua alusão é ainda mais intrigante que o toclas … Borgia? Ora Eça …
António Eça, S. Gonçalo nasceu na freguesia de Tagilde, concelho de Vizela, em 1187.http://freg-tagilde.com/website/index.php?option=com_content&task=view&id=28&Itemid=91
Tenho a honra em ser Vizelense. Os Tagildenses agradecerão esta referência.
José Manuel, por isso lhe chamei Gonçalo de Tagilde…
Joana, é um ramo distante, perdido na fímbria dos Tempos…