As Flores do Mal

 

Então a mulher viu que a árvore tentava o apetite, era uma delícia para os olhos e desejável para adquirir discernimento. Pegou no fruto e comeu-o; depois deu-o também ao marido que estava com ela, e também ele comeu. GN 3,6

Não tenho (quase) nada contra Deus mas, na minha santa ignorância, sou mais dado a derivas psicanalíticas. E derivas psicanalíticas para a origem do Mal são o que não falta n’ O Laço Branco de Michael Haneke. O ambiente claustrofóbico e auto-contido da Vila de Shyamalan (sem o insuportável pedantismo New Age que contamina todo o seu cinema*). O protestantismo castigador de Dreyer. E está lá, naquele pequeno laboratório rural do Mundo, toda a origem do Mal. A Inveja, a Luxúria, a Avareza, a Ira mas sobretudo a Perversão que, não sendo pecado mortal, é o mais mortal de todos os pecados. Porque se pega, se herda, se cola, se transmite como peste. Porque é o mais adulto de todos os pecados da infância. E eu não me lembro de ver, em cinema, a Perversão tratada de forma tão silenciosamente eloquente. Mais paradoxal ainda, nunca a vi fotografada de forma tão bela. A preto e branco. Num filme que pinta o Mal com todas as subtis cambiantes do cinzento sem as quais o Mal nada teria de verdadeiramente aterrador. Se eu soubesse falar de Freud talvez dissesse que ele teria gostado de ter feito um filme assim.


* Eu sei que o PMS não concorda. E também sei que, nesta matéria, ele há de ter razão. Como razão tinha que ter o João Bénard da Costa. Eu é que ainda não consegui chegar lá. Até ver, o homem irrita-me.




Comentários a “As Flores do Mal” (9)

  1. Diogo Leote diz:

    Quanto ao Laço, totalmente de acordo: Grande Filme. E a verdade é que o laço branco, se já não enfeita os cabelos das meninas e meninos “mal comportados”, continua aí, em forma de culpa, a fazer estragos e a dar trabalho a muitos psicanalistas.

    Quanto ao Shyamalan, não sou tão radical, prefiro simplesmente pensar que o homem é capaz do melhor e do pior.

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Shyamalan usa uma linguagem e raciocínio tão elementares que se tornam grosseiros. Desprovidos de quaisquer elementos subtis: essa necessária gradação de cinzentos que refere no texto. O facilitismo que permite desvendar os filmes nos primeiros cinco minutos sequer é perdoável: não acrescentam em beleza, em dúvida, em pensamento. E também não cabem na categoria de entretenimento. Desgosto.

    Só não sei se concordo que a perversão seja o mais adulto dos pecados. Por ser uma recusa a uma interdição, não é o mais infantil e irredutível dos pecados adultos?

  3. Pedro Norton diz:

    EV: Talvez tenha razão. Mas a perversão não implica uma consciência do desvio? Não é, nesse sentido, necessariamente adulta?

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    PN: que boa pergunta. Não lhe parece, então, que a perversão possa existir mesmo quando não existe consciência dela? O desvio é sempre em relação à norma, se esta não for aceite — a tal recusa à interdição — não há consciência de ser desviante pois o sujeito não sente que as regras se lhe apliquem.

  5. Pedro Norton diz:

    EV: Talvez você tenha mesmo razão. A verdade é que não sei. Não é retorica, é ignorância.

  6. Eugénia de Vasconcellos diz:

    A minha pergunta também era ignorante, PN. Eu também não sei — mas gosto de pensar sob a forma de perguntas.

  7. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Simplificando com a minha experimentada ignorância as vossas doutamente postas dúvidas, eu diria que não há interdição sem norma, nem norma sem consciência. A questão, é claro, põe-se depois nos graus — da perversão, da interdição, da consciência. Mas isso já é coisa de juristas!

  8. jaa diz:

    Tendo para o campo que considera que a perversão exige consciência. Alguém exterior pode classificar determinado acto como perverso mas, se quem o cometeu não tinha noção de estar a quebrar qualquer regra, será a classificação justa? Não será apenas a aposição de um rótulo simplificador? Pode um louco, sem qualquer noção do que faz, ser perverso? Ou imagine-se um daqueles casos em que um homem cria uma rapariga (digamos que sua filha) num reduto do quintal das traseiras e tem relações sexuais com ela. Não me parece haver grandes dúvidas de que há perversão da parte dele. Mas ela? Ela não tem consciência do que é ‘normal’. Como pode ser perversa?

  9. Nano Vaz Pinto diz:

    Parece não haver dúvidas que Cannes premiou o melhor filme de Michael Haneke. A forte estrutura narrativa está aqui associada a uma realização imaculada; suportada por uma montagem que parece perfeita.
    Não sei se o tema será efectivamente uma pintura, a dois tons, sobre o Mal, nem se a perversão será o ou não o mais adultio dos pecados, porque o que mais me marcou foi a “invisibilidade” desse Mal que se passeia pelas imagens como um choro atrás de uma porta, uma neblina matinal, ou como o vento que “penteia” a seara, num dos muitos belos planos do filme.
    Parece sim que para além de dois planos que focam a face marcada da criança maltratada, não é possível determinar nem caracterizar fácilmente esse manto de maldade que parece cobrir a pequena vila protestante.
    Shyamalan não seria a minha referência, lembrava antes The Virgin Spring do Bergman no qual a clara personificação do Mal não resolve as grandes questões morais que levanta, deixando-nos, como neste Laço Branco , com a sensação de que de uma forma ou de outra também fazemos parte “destas” histórias.

Comentar