Minha mãe tem talento para cozinhar. Domina o cânone clássico da gastronomia portuguesa, apenas não incorrendo muito pelos doces conventuais. No entanto, não se fica por aí e recolhe receitas de todo o lado, sempre com um sentido prático e de eficiência, mas mais importante, não se limita pelo rol de instruções das mesmas. Chama a si mesmo a liberdade para inovar, mudar, substituir ou acrescentar e não se coíbe de tentar gestos culinários menos óbvios para tentar imitar este ou aquele conjunto de sabor que experimentou, mas para o qual não tem receita.
Acho que herdei algumas dessas características, talvez a mais importante a tal de não seguir à risca as receitas, muito embora um certo excesso de confiança já me tenha custado alguns dissabores. Ainda assim, aquela que mais espanto causa à maioria das pessoas a quem confesso, é o facto de não gostar de revelar receitas. Não é que não defenda o trânsito de ideias gastronómicas; aceito as que me derem. Revelar, no entanto, especialmente as melhores, é algo que faço a contragosto. Não me perguntem porquê, é algo interior, mais forte que eu. Às vezes é tão forte, confesso, que aos mais insistentes que não se contentam com um simples não, há que recorrer a um golpe baixo. Lá temos de revelar a receita, mas só aparentemente, claro, já que vai, ou sem o segredo principal, ou adulterada. Não é má vontade, e também não sou dono de nenhum restaurante que precise de guardar a alma do negócio. É algo mais cósmico, um tanto ou quanto herdeiro do espírito monástico e obscuro de algumas ordens religiosas. Se for das melhores receitas, é provável que não consigam obter nada de mim. Verdade seja dita, também não sou nenhum chef.


















Olá Chico!
Esses pastéis são teus? É que se são, tens jeitinho para a coisa meu! :D
São sim senhor, mas ainda longe dos verdadeiros!
Cara Eugénia,
moro em Fortaleza, no nordeste brasileiro. Cheguei ao Mátria Minha por indicação de Ruy Vasconcelos. Adorei o que havia por lá. Estou concluindo tese de doutorado em sociologia, discutindo a “Ciberintimidade: a escrita de si na era digital”. Seria um prazer poder entrevistá-la (por Skype ou por email, como vc preferir) e incluir a análise de seu blog em meu trabalho, que pretendo publicar, a posteriori, sob a forma de livro e/ou artigos em revistas científicas. Se você tiver interesse em participar, por favor, me escreva no email:
faygabede@hotmail.com
Fayga Bedê
Este não é um post da Eugénia, mas se ela passar por aqui, vê-lo-á certamente. Senão, sugiro que deixe o comentário num texto da Eugénia.
Olá Fayga Bedê.
Sobre a literatura confessional, a Magazine Littéraire no nº 409, de Maio de 2002, fez Les écritures du moi. Muito interessante. Também um documentário da BBC, de 1962, sobre Sylvia Plath, onde a própria é entrevistada sobre este assunto e, com extrema lucidez, agudeza, separa aquilo que são os “gritos de alma”, da construção literária a partir de si mesmo. Fala também do diário, iniciado aos 11 anos, creio — log, blog, agora — como matéria primitiva. É muito bonito, nela, ver como uma experiência pessoal se afunda tão profundamente que quando emerge no poema é uma experiência nossa.
Isto é à margem do que refere acima, mas a beleza merece-os.
That’s the spirit, Francisco! Nessa sua relutância tem todo o apoio da minha Avó, que considera um atrevimento o facto de alguém lhe pedir uma das suas sagradas receitas, que, de tão inqualificável, justifica uma manobra defensiva daquelas que refere no seu texto …
Em todo o caso, lembre-se: a receita não é tudo. Mesmo para quem gosta de as seguir religiosamente – o que felizmente, não é o seu caso, nem o meu. Era o que sempre me resmungava a Maria, a fantástica cozinheira da minha Avó, quando, miúda, lhe comecei a rondar o fogão, o forno e as bancas: “Deixe lá os pesos e as quantidades, veja mas é como se faz, se quer aprender …” Esse sim, é o know-how que há que preservar …
É, com certeza. E partilhando a cozinha, não como dizer não!
Francisco! Então sonega e manipula informação?! Porquê? Basta mudar o cozinheiro para, com a mesma receita se obter um prato, ainda que levemente, diferente. Eu dou as minhas receitas, afinal se não fosse a minha avó, a Berta Rosa-Limpo e a Lurdes Modesto, não teria aprendido a estrelar um ovo.
Agora dediquei-me às receitas do Chakall — retirando o abacate, claro.
Com turbante ou sem turbante?
Sem turbante, sem abacate, sem massa filo.
O turbante é ridículo e deve fazer calor
A massa filo é horrível por várias razões
Mas, e os abacates?
Eu fujo deles como o diabo da cruz pelo excesso calórico: 100 grs daquilo tem mais calorias que uma tablette de chocolate! E sem contar com o vinho do Porto e o acúcar que costumo pôr-lhes! Sempre que dou de caras com um abacate, penso nisso e depois desgraço-me alegremente com quantidade equivalente de chocolate…
E a canela, nunca esquecer a canela.
A atender à ilustração, ou a massa era pouca ou as formas grandes demais…:):):)
Com que então escondem receitas, hein? E depois não querem fome no mundo!… Egoístas.
O S. Gonçalo também não perdoa isto! Vão ver…
António Ìmpio Eça, deixe o São Gonçalo fora disto: então não vê que o pobre está a processar a avalanche de pedidos que recebeu no domingo!?
Para sua informação, a patrona das cozinheiras e dos cozinheiros é a Santa Marta, festejada a 29 de Julho, mas não consta que se incomode especialmente com estas manobras por parte dos seus protegidos …
Nunca vi blogue com tantas devotas de S. Gonçalo :):):)…
Cara Eugénia, é algo mais forte que eu. Não sei bem dizer o porquê. Talvez reinar no meu reinozinho. E cheira-me que a sua avó não deu a receita de estrelar ovos…
Caro António, não dou receitas, mas comida sim!
Cara Joana, a filo é metade do pastel de tentúgal. Nunca se lhe chamou foi filo.
Caro Orcama, eram as formas, as em excesso. Mas aquela massa não é brincadeira!
Francisco, se a massa dos deliciosos pastéis de Tentugal e dos ainda mais deliciosos pastéis de Vouzela é filo, ou não, não faço ideia. Só sei é que a massa dos ditos pastéis nada tem que ver com algumas más e recorrentes experiências que tenho tido (nunca da minha autoria) com a dita filo, presumo que daquela que se compra no supermercado e que agora se usa a torto e a destorto em salgados e doces …
PS — Como é que transforma os after eigts, que são quadrados, na tal mousse? É com a varinha mágica, a Bimby ou o processo requer algum nível de conhecimentos quânticos totalmente classified?
não! simplesmente com uma faca. cortando-os aos bocadinhos.
Áh!… Fico mais sossegado.
Ah grande Eugénia que partilha as receitas.…o perú ficou excelente.
Quanto a segredos ainda não estamos conversados. Tocaram-se ao de leve como deve ser.Será?
Que pena o Francisco não ter prazer em dar as suas receitas. Não será um bocado egoísta?
Eu dou sempre as minhas, sobretudo as que de tanto variar, criei.
E a minha experiência diz-me que toda a gente gosta de saber, mas depois fazer… Esquecem.
Gostava de partilhar a da minha mouse que sabe a After Eight, mas assim não brinco.
Bons cozinhados!
É um bocadinho egoísta, é.
Mousse d’After Eight! Herdei uma receita da minha mãe. E que não leva manteiga, evitando que fique enjoativa, deixando a mousse fofa e rígida!
Mas poderá partilhar com os demais leitores, para não ser acossada do mesmo defeito que carrego…
Pois Francisco, partilho consigo também.
Não é propriamente uma receita de mousse, que essas há por aí aos montes. É apenas uma dica, enquanto estão a fazer uma dessas receitas, acrescentem uma boa dose de xarope de menta (à venda nos hipers) e para que não fique lassa, juntem também uma ou duas colheradas de gelatina em pó.
Assim fica dura e com aquele refrescante sabor a menta.
Be my guests
Pronto, pronto. Eu é mesmo os quadrados de After Eight cortados em quadradinhos ainda mais pequeninos. É só deitá-los nas mousse acabada, antes de ir para o frigorífico. Além do sabor, ainda ficam umas pepitas.
Mas na mousse de chocolate normal, Francisco?
E como é que a faz, ora conte lá, já que hoje está em dia sim …
Pronto pronto.
Primeiro batem-se em castelo 5 claras com 5 colheres de sopa de açúcar.
Depois batem-se as gemas com uma pasta de chocolate (~200g), derretendo o chocolate um pouco, mas não muito, para não cozer as gemas.
Por fim, incorporam-se as claras batidas e depois de tudo misturado, lá se põe o After Eight cortado aos pedacinhos.
Mas não diga que vem daqui!
Thanks a lot, Francisco! Deve ser óptima … Vou já tomar nota.
E não se preocupe: your secret is safe with me. Só o revelarei daqui a muitos, muitos anos, às minhas filhas… E o computador que contém as minhas receitas além de ter password, não está ligado à net. Jamais um hacker deitará o teclado a esta deliciosa mousse com pepitas de after eight!
A malta incauta vem aqui e zás…: lá em cima leva com pastéis, desce aqui e leva com pastéis! Alguém se apiede das Blondes desta vida que nem de longe seguem receitas à risca quanto mais terem o je ne sais quoi de as partilharem sem “o” segredo que as torna especiais. Dó, senhores, dó.
Leva… e traz, já que a massa é diferente…
Discussões à parte, só sei que cada vez que vejo esta foto minha boca enche d’água…ô maldade!