“Its western summit is called The House of God. Close to the western summit there is the dried and frozen carcass of a leopard. No one has ever explained what the leopard was seeking at that altitude”.
The Snows of Kilimanjaro, Ernest Hemingway

Levei o livro até ao topo, inchado e disforme da chuva e da geada nocturna. Não encontrei logo a resposta para adivinha sobre o leopardo, mas encontrei o bicho da canção que os carregadores mais repetiam. A do medo da montanha: Ó serpente, ó serpente, vens morder a minha carne, ó serpente, ó serpente, no escuro sobre os ossos, em tradução muito livre do swahili.
A serpente: o mal de altitude, em adaptação ocidental. Pode revestir-se de diferentes peles: a que asfixia e mata se não se descer imediatamente; a que provoca náuseas, insónias e mal estar geral. Quatro portugueses do grupo sofreram-na: os montanhistas mais experimentados, os que subiam mais depressa. Um foi transportado de maca para baixo. Não conseguiram o pico.
Depois de atingir o nível da cratera, a 5 695 m, toda a noite a escalar na neve para evitar o degelo com o sol…e ainda falta um obstáculo: subir o desnível de 200 metros, pela parede do vulcão extinto. Na foto parece meia unha, na manhã parece intransponível. Pernas enterradas na neve, custa tanto respirar. Cada passo pesa um dia inteiro. Faz-se pagar caro este Uhuru Peak, o pico da liberdade.

Conseguir o topo não é o auge. Parece um anti-climax: é o alívio, uf, respirar fundo, agora ainda falta descer. O que me safou todos os dias foi ser lenta (é um dos segredos, adaptar lentamente o corpo à altitude e à falta de oxigénio no ar). O reencontro com o meu avô também, claro. E ter um objectivo: em trabalho, não posso desistir.
Mas sofri de insónias, fúrias e exaustão. E perguntei-me muitas vezes que raio procurava aquele grupo de portugueses na montanha, só podem ser doidos. Ou serão como o leopardo? E logo no fim do ano.
Fui percebendo ao longo dos anos, antevi a meio da descida, pés em bolha, meia-noite de ano novo com uma sopa aguada a saber à melhor iguaria. Essa coisa muito gasta do valorizar as coisas pequenas, da superação e etcs. Essa coisa da aprendizagem que só se faz pelo esforço. Essas coisas que o meu avô me mostrava sempre e eu esqueci e me foram devolvidas aqui porque doeu.
Quando nos toca, transforma-nos, sim Joana, é isso. E o encontro com esta montanha e os encontros que se deram nela fizeram-me voltar diferente à vida de todos os dias, que maneira tão bonita de dizer isto, Joana. Parece que quando nos dói, transforma mais. E esta foi uma dorzinha tão apenas no corpo.
Já tive montanhas maiores e mais sérias pela frente, desde então. Mas esta foi a primeira, a que me deu o abanão. Por isso a sinto minha.
















Terminada a viagem este foi o melhor texto que li sobre o final do ano.Foi o que deixou as melhores marcas e me fez voltar à minha natureza selvagem.Muito obrigada!!! Porque existem fases na nossa vida nas quais nos esquecemos quem somos e que quase desistimos.Obrigada pelo abanão…
Obrigada pelo comentário, Turmalina.
Ainda estou aqui a remoer: as coisas que nos parecem gastas só o são porque de tão repetidas se tornam banais e não pensamos nelas.
Por outro lado, ainda bem que não levamos abanões a toda a hora, senão também deixávamos de prestar atenção.
Aquela figura esguia e teimosa, quase insolente. Rezingão, mal disposto.
Que pena que é já não andar por aí a filmar bemdisposto…
Não sei se dele sinto a falta se saudades do Kilimanjaro.