A minha esperança depende de vós


“a minha esperança depende de vós”, 1976


Na última edição do “Expresso” vem estampada na primeira página uma frase do sr. Passos Coelho capaz de aterrorizar o mais temerário.
Os partidos, quando lhes falta o arrimo do governo, sustentam-se nas autarquias, que são os lugares do aparelho de estado que lhes restam para recolher as vantagens do exercício do poder. Como não é difícil notar, o PSD tem vindo a ser infiltrado e tomado perla chusma dos micro-poderosos das concelhias e, por cima deles mas em perfeita comunhão com eles, pelos notáveis das distritais. Eles são o húmus do partido, a teia capilar que leva o partido, porta a porta, até à casa dos eleitores. Isto que não se nota nem tem peso nas grandes cidades onde os vizinhos não se cumprimentam na rua, é determinante em meios mais aconchegados. Sem os serviços e as influências destes maiorais não se ganha um chavo eleitoral.
O “pessoal do terreno” não é parvo. Por isso, embora persistentemente reivindicativo não ambiciona sair donde está, porque é onde está que reside a sua força. Um gimnodesportivo aqui, uma estrada nova ali, uns cargos em departamentos regionais, de preferência dos inúteis e pacatos tipo Comissão da Proteção Civil, são suficientes para lhes saciar o apetite e reforçar as vassalagens; à maior, um lugarzito de deputado em Lisboa durante um par de temporadas.
Nada disto é recente e já está descrito com todos os efes-e-erres em “A queda de um anjo” de Camilo” (1866), ou “Uma Eleição Perdida”, pálido mas bem observado romance do Conde de Ficalho (1888), ou ainda no póstumo “A Capital” de Eça.
Novidade era os partidos nascidos do 25 de Abril terem superado o imbróglio com a rotatividade no poder e com o aparecimento oportuno de líderes considerados carismáticos. As duas circunstâncias juntas permitiam rasgar o cerco, até porque quem ganha eleições descobre-se carismático de um dia para o outro e não faltará quem atribua ao prévio carisma do candidato a razão da vitória eleitoral.
Ora, como ao PSD têm faltado ambas as coisas, ei-lo, então, em pleno refluxo histórico. Só assim se explica a imprudente declaração, para não dizer pior, do sr. Passos Coelho ao afirmar que baixaria o salário dos políticos de 5 a 10%. Na melhor das hipóteses tamanha enormidade foi proferida num torpe impulso populista, porque qualquer outra razão que o tenha levado a dizer isto parece ainda mais ignóbil.
O que o sr. Passos Coelho acaba de anunciar é que, na horrenda circunstância de vir a ser eleito primeiro ministro, irá prescindir daqueles que lhe pareçam mais aptos, competentes e honrados para formar governo consigo. Não senhor, ele contará, isso sim, com os mais baratos. Os altos quadros de ótima formação, reputada competência e bom desempenho, que os há em quantidade em Portugal, com lugares de responsabilidade em várias empresas, esses fugirão mesmo de serem convidados, porque têm contas para pagar e famílias para sustentar. Quem se vai chegar à frente, de factura em punho pelos bons serviços prestados em campanha, vão ser, precisamente, os maiorais do partido, agora que viram uma fresta de oportunidade nunca antes aberta.
E olhem que isto é gente que não deixa escapar uma.

Comentários a “A minha esperança depende de vós” (6)

  1. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Meu caro JNA. Olho para a ilustação deste teu post e vem-me à cabeça a estranheza de pensar que aquele «tão longe» não foi assim há tanto tempo. Lembro-me bem das pequenas aldeias de uma China já em vias de alguma ocidentalização, às quais chegávamos, de barco, e onde sempre estavam uns quantos chineses, no cais, vendendo o pequeno livro vermelho do presidente Mao. Esta citação não a tiro de um desses livros, mas de um outro, mais antigo, que cá tenho. Diz assim. «Um partido disciplinado, armado com a teoria marxista-leninista, usando o método da autocrítica e ligado às massas do povo; uma frente única de todas as classes revolucionárias e todos os grupos revolucionários, sob a direcção desse partido — eis as três armas principais com que temos derrotado o inimigo.» (Mao TseTung, «Discurso Sobre a Ditadura Democrática Popular», 30 de Junho de 1949).

  2. Joana Vasconcelos diz:

    De barco a partir de onde, Gonçalo? E quando?

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Não sei de que é que o José e o Gonçalo estão a falar, mas quero dizer que sempre gostei muito do presidente Mao. Ganhava pouco e divertia-se muito. E sempre com gente mais nova do que ele.

  4. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Um dia conto-lhe, Joana, quando o Manuel não estiver a ouvir…

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Gonçalo, não me digas que também fizeste a Longa Marcha!!!

  6. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Está bem Manuel: eu não digo!!!

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