“Qual foi a melhor passagem do ano que tiveste?”,
perguntaram-me nesta e eu, copo de champanhe na mão, fiquei a olhar para a questão juvenil e a apetecer-me fazer uma lista como as do Pedro Marta Santos.

ano novo, por tc
Podia ter dito que estava numa das melhores, neste centenário clube de Alfama, rodeada de amigos e risos, estamos todos tão declaradamente felizes que parecemos crianças, as mesas têm decoração infantil, o guarda-roupa é cinematográfico, há realizadores e actrizes, há rapazes e raparigas que mereciam uma tela.

ano novo, por tc
Não faltam os bigodes e os sorrisos com todos os poucos dentes dos donos do clube, nem a mesa paralela da família do bairro na antecâmara da cozinha, a sala de baile é tirada de filme (era capaz de não fazer parte da lista do PMS, mas não se pode ter tudo).

ano novo, por tc
A mesa das bebidas cada vez mais cheia e cada vez mais vazia, lá fora a fila para entrar aumenta, chegam amigos dos amigos dos amigos, e nem assim isto descamba, as conversas são gritadas mas intensas, as músicas são intensas e gritadas, e é por isso que agora estou aqui rouca e de ressaca e chá e pantufas e uma lista de livros para ler (esta é uma lista para a Joana).
E uma lista de recordações.
Esta festa foi engraçada, mas não. Não foi a minha melhor passagem de ano.
Acho que tenho mesmo de escrever sobre a minha mais estranha. Enquanto a relembro, faço-vos esta proposta:
Qual é a vossa melhor memória de passagem de ano? O vosso ritual? O melhor rito de passagem? A melhor aprendizagem? Ou qual a vossa melhor lista de objectivos para o Ano Novo?
É uma proposta tão infantil como a pergunta que me fizeram. Mas as boas respostas podem iludir as más perguntas. E até podem ser encontradas (ou inventadas) num caderno de escola primária.

















Lembro-me assim de repente, Teresa, da mais exigente em termos físicos: Paris, sem táxis, metro já encerrado, a chover torrencialmente, tive que fazer a pé da Avenue Foch — junto à qual me fui armar em capitalista, jantando num restaurante chamado “Bon” — até ao último terço da Boulevard Saint-Germain. Quatro horas e dez a pé, água por todo o lado, sem guarda-chuva. Inesquecível.
Parece-me, Pedro, que as que custam mais sabem melhor.
E tardam mais a desaparecer nas lembranças.
E que piada poder lembrar-se destas horas de torrente, se depois pôde ter um seguimento sequinho e saboroso.
Teresa, que bela ideia! Eu gosto muito da passagem de ano. O meu problema são as passas.
Adepta confessa de listas, trato de elencar, cuidadosa e antecipadamente – aí uns dez minutos antes da meia-noite – os 12 desejos a formular ao ritmo das 12 badaladas. Não vá a acção conjugada da alegria esfusiante de parentes e/ou amigos, da dificuldade em deglutir veloz as malfadadas passas e, of course, do champagne por essa altura já ingerido trocar-me as voltas da sorte para o ano que entra.
Depois, e porque quase me engasguei por diversas vezes e para evitar começar o ano em stress, opto muitas vezes por despachar as passas todas de uma assentada, formulando uma remissão global para a tal lista pré-elaborada, à melhor atenção de whom it may concern…
Mesmo assim, nem sempre a coisa corre bem. Já me aconteceu deixar cair as passas e passar o sagrado minuto a tentar apanhá-las ou em busca de outras. Ou, pior, dar pela falta de uma ou mais passas da tal dúzia que, previdente, pusera de lado para mim, por acção de alguma criança, tão inocente quanto voraz.
Só mais duas coisas:
1 – Quando quero muito uma coisa, afecto-lhe diversas passas … Será batota, mas que resulta, resulta …
2 – Detesto passas
O resultar estará mais na vontade que nas passas?
Ou então descobriu passas milagrosas, porque eu já tentei o truque com aqueles desejos mesmo difíceis
e não deu nada.
Ou então é porque não como as passas inteiras. É coisa que dificilmente passa…
Já passei o ano embarcada em navio…muita gente.Já passei o ano em boas e elegantes festas…muita gente.Já passei o ano em hotel…muita gente.Já passei o ano em uma ilha com uma única rua principal…muita gente.Já passei com a família toda do cara metade…muita gente.Já passei com toda a minha família…muita gente.Só hoje percebi que já se foram 40 e poucos anos novos e não me lembro da maioria.Me lembro de um que começou na praia, eu devia ter uns 20 e poucos anos. A turma era animada e fomos de praia em praia (o litoral brasileiro é bem extenso)até o dia amanhecer.Não havia horários, protocolos e nem compromissos…foi bom.Este ano passamos soltando e assistindo os fogos da varanda de casa…foi bom também. Agora fiquei curiosa para saber como serão os próximos 40 e poucos…rs…
Que lista tão gira, Turmalina!
Cada uma dessas parece dar uma boa história. Se calhar, quando estamos com pessoas queridas e próximas, passamos sempre um bom bocado.
E que bom poder haver ainda tantos próximos por passar…
Tal como a Joana, detesto passas. Não faço votos ou desejos ou o que for. Mas as passas amarelinhas e tenras (ó as escuras e sequíssimas de partir dentes é que não) reconciliaram-se. Como uma mão-cheia de uma vez e, embora lá, aos beijinhos e abraços ao pessoal circundante. Gosto de champagne, de fogo de artíficio e troco já tudo por uma varanda sobre o mar de inverno, persistente e amaeaçador. E já respondi, Thérèse, ao teu desafio — mais acima com memórias do tempo em que achava que era o sal da terra.
Já vi a resposta, Manel.
Que inveja dessas memórias intensas, revolucionárias e culinárias que eu nunca conseguirei coleccionar…
A minha melhor passagem de ano foi passada entre amigos num sítio por acidente, fazendo com que faltássemos à festa para a qual tínhamos sido convidados. Foi uma festa de reconciliação e tolerância entre possíveis frentes de batalha. No final escreveram-me a coisa mais bonita de sempre, “quem é belo, é belo aos olhos e basta, mas quem é bom, é subitamente belo”. As melhores festas não vivem de preparações, fogos de artifício, mesas abundantes e passas. Obrigado pelo desafio, já quase nem me lembrava disto.