6 assaltantes detidos

É epidémico. O que restava, pequeno oásis rutilante, foi invadido pelo mesmo desaforo, por igual decepção. A incompetência campeia e o país encolhe-se, sem heróis, sem referências.
Tínhamos, teríamos até há pouco, a hipótese de acenar com a qualidade da nossa criminalidade. Gente diligente, organizada, atenta e sem descuidos. Vítimas, forças da ordem, os melhores espíritos do quarto poder reconheciam-lhes assertividade, auto-estima e um inegável potencial de crescimento.
Leio a imprensa numa manhã que trocou as voltas à meteorologia e a minha confiança nesse pólo organizador descamba. Ontem, seis (sublinho, 6) assaltantes – gente certamente convicta e de quem se espera formação a roçar a excelência – tentaram assaltar uma viatura. Presumo que fosse noite – pareceu-me uma boa noite para um honesto assalto. O cenário, nem tenebroso, nem paradisíaco, era o Bairro de São João de Deus, em Lisboa. Na viatura, um condutor, só um, fechado, os pés nos pedais da sua solidão implacável. Os seis homens avançaram, com a vibração, o êxtase diria, dos 19 a 35 anos que era a idade que respiravam. Com a equilibrada transnacionalidade de metade serem portugueses e a outra metade o seu contrário. Arrastavam, com inextricável profissionalismo, uma espingarda, dezenas de munições, matrículas inglesas, variados telemóveis. O condutor, o solitário condutor, deve ter-se sentido honrado com a distinção, com os procedimentos da agressiva aproximação, com a veemência do “isto é um assalto”. Era bom – o condutor sentiu nos seus dedos que era bom, o tremor das pernas, a violência das batidas do coração, a desordem dos sentidos, ele sentiu que era bom. Portugal, por uma vez, mostrava que podia competir, não com a Grécia, mas com o mundo.
E, de repente, a burla, a fraude. A polícia, a vulgar e contraída polícia portuguesa surge da noite cinzenta e detém – repare-se, não disparou, não matou, não houve violento confronto – deteve apenas, circunstancialmente, os seis assaltantes. Está em causa um código de honra (de infâmia, corrijo). Seis assaltantes não se entregam assim. Há uma tradição desrespeitada e objectivos anuais que estão agora pelas ruas da amargura – se é para isso, o sistema financeiro trabalha (funciona, corrijo) melhor.
Pior, há um condutor amargurado. Espera-se uma vida, toda uma vida, por “este momento”; ardem na mente as expectativas de uma aventura a ferro e fogo, poética, homérica e sai-nos o prosaísmo de uma nota de rodapé num jornal (por mais popular que seja): seis assaltantes detidos pela polícia. A imagem deste condutor, defraudado, ali parado, na viatura quase tão parada como ele, no semáforo vermelho e inútil, é a imagem de um país que acaba de perder os últimos comandos, a última esperança numa violência que corresse heróica, como uma tempestade, pela noite, madrugada fora.

Comentários a “6 assaltantes detidos” (6)

  1. António Eça diz:

    Realmente! Qualquer dia isto parece a Suiça… E entregaram-se, assim, sem uns berros nem nada? Adiantaram a mão à algema?! Despediram-se do zagalote e da metralha como se fossem simples coisas descartáveis?
    Eu se fosse polícia não aceitava: criava um incidente de renúncia e eles que se entendedessem!…
    Era o que faltava.

  2. Orcama diz:

    Já não há brio profissional. Deviam ser estagiários. Quanto à polícia, só podiam andar desenfiados. Para apanhar um flagrante.…

  3. Pedro Norton diz:

    Em compensação, tenho desse «calor» paciniano que ilustra o seu desencanto a recordação de um dos assaltos a bancos mais extraordinários da história do cinema.

  4. Vasco Grilo diz:

    Manuel, vais perdoar o meu realismo e falta de poesia, mas eu quando tinha 10 anos fui assaltado por três “ciganos” (coitados dos ciganos, chamavam-se assim na altura!). Encostaram-me uma faca ao pescoço e levaram-me tudo menos a roupa. Ainda hoje sinto um leve formigueiro no estômago quando penso nisso. Por muito homérica que tenha sido a experiência, preferia que tivesse aparecido um polícia. Não tive sequer direito a uma nota de rodapé n‘A Capital. Deve ter sido no dia em que mataram o Aldo Moro.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Ó Vasco, mesmo assim tiveste sorte! olha se te têm levado também a roupa.
    E é claro que tens toda a razão: antes a polícia. Eu é que tenho a mania de me pôr a plagiar cronistas irónicos e já vês no que dá.

    • teresa conceição diz:

      Oh Manuel,

      mas precisamos de ironia crónica para as dessintonias quotidianas, não é?

      Se apanhá-los é a excepção e devia ser a regra, não é a ironia de um sorriso que nos reequilibra?

      Felizes aqueles que apenas experimentaram um assalto através da adrenalina de um ecran de cinema.
      E felizes os que atenuaram as más lembranças o suficiente para poder voltar a acertar o sorriso com o sabor de um comentário alfinetado.

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