folhetim 3 — Pretérito Imperfeito

Francisco voltou-se para o intérprete. Tinha perguntas. Queria respostas. O que estava no papel era demasiado absurdo. Certamente um equívoco, fruto de tanta tradução, num e noutro sentido. Mas antes que pudesse dizer o que quer que fosse, o guru leitor começou a juntar e a empilhar as folhas de palmeira. As suas. Porque o eram, disso não tinha a menor dúvida. Cabeças baixas e vozes ainda mais baixas, o guru e o astrólogo conversavam entre si, como se ele já ali não estivesse. E o intérprete, impassível:

- You have to go, sir, no more for you here, sir

Saiu. Desconcertado. De papel na mão. E agora? A luz intensa do sol já alto, depois de horas naquela penumbra, era quase insuportável. Olhou à volta, em busca de uma sombra. Foi então que a viu.

Vinha na sua direcção. Decidida e apressada. Alta e esguia. O cabelo escuro e curto, ondulado e ligeiramente despenteado. Na mão direita, um saco enorme, castanho, cheio a abarrotar. Tal como sempre a conhecera e a recordava.

- Xavier, tens que vir comigo.

Xavier. Só ela o chamava assim. Desde aquela tarde, no bar do liceu. A propósito do seu segundo nome. Diferente, comentara alguém. Nome de santo viajante, dissera ela. Nome do meu avô, rematara ele. As meninas presentes acharam graça e começara a brincadeira do Xavier. Que se prolongara na faculdade, ante a profusão de Franciscos nas pautas. O nome pegara, nas sessões de estudo e nas saídas. Mas, depois, a vida a sério e o Francisco haviam levado a melhor. O Xavier subsistia apenas nos telefonemas e nos postais dela, que chegavam dos vários cantos do mundo. Cada vez mais espaçados. Sobretudo depois daquela noite, que ainda hoje Francisco evitava lembrar.  

- Xavier, estás bem? Tens que vir, anda tudo à tua procura

- Luísa, o que é que estás aqui a fazer?

Vacinas. E consultas de pediatria. Numa clínica próxima, ao abrigo de um programa que envolvia várias ONG, entre as quais a sua. Estava ali há quase um ano, vinda de Goa e, antes, de Puducherry. Tudo isto lhe contou Luísa, enquanto conduzia o jeep no meio do trânsito caótico. 

Antes, ainda no templo, começara por lhe explicar a razão da sua surpreendente presença.

- A tua mulher está numa aflição, há vários dias que não consegue falar contigo…

Acalmado o alarme inicial – “não, não aconteceu nada, os teus filhos estão bem” – Luísa relatou o pouco que sabia. Catarina ficara, conforme combinado, em Chennai. Estranhara a ausência de notícias de Francisco e tentara repetidamente ligar-lhe para o telemóvel. Em vão. Ao fim de dois dias, contactara a Embaixada e dera o alarme. Alguém do consulado de Goa ligara para a clínica, nessa manhã, a pedir ajuda para o localizar. Por coincidência, Luísa estava a observar uma criança, com sintomas de varicela. O avô, que a trouxera e à mãe, lembrava-se de um estrangeiro no autocarro vindo de Chidambaram, dias antes. Ia para o templo. Talvez ainda por lá estivesse. E oferecera-se para a acompanhar.    

Francisco tirara o telemóvel da mochila. Não funcionava. Lembrava-se de ter enviado um sms a Catarina quando o autocarro partira. E de o ter apanhado do chão, na confusão que se seguira ao rebentamento do pneu. A verdade é que entre o acidentado percurso até ao templo e o estranho fascínio que por lá o envolvera, havia perdido toda e qualquer noção do tempo. Quatro dias? Seria possível?

- Estou sem telemóvel. Emprestas-me o teu?

- Não adianta, esta zona não tem rede, vamos ter que ir até à clínica e ligar de lá.

Caminhavam rumo à saída do recinto quando apareceu o homem. Era o seu companheiro do autocarro. Não pareceu surpreendido ao ver Francisco. Contente, sim. Fez-lhe o seu largo e inconfundível sorriso sem dentes. E dirigiu-se a Luísa, numa língua incompreensível, gesticulando e apontando para ele. Ela traduziu:  

- Diz que o que aconteceu lá dentro é o teu karma. Ou então não era ainda a altura, tens que voltar, para saber… Mas tu, que tens o mesmo nome, lembra-te do caranguejo … 

Francisco fitou-os, estupefacto. Nada daquilo fazia sentido. O homem desdentado. À sua procura, com Luísa. A comentar o que sucedera na biblioteca. E como sabia o seu nome? E que história era essa do caranguejo?

- Caranguejo?

- É o caranguejo de São Francisco Xavier, uma lenda muito antiga, aqui por estes lados.… Basicamente significa que às vezes é preciso perder primeiro, para encontrar depois …

O homem sorria. De súbito, fez um gesto de despedida e afastou-se, em passo ágil.

O jeep ora avançava lentamente, ora parava. Francisco fechou os olhos e encostou a cabeça à janela. Sentia-se exausto e incapaz de raciocinar ou reagir. 

- Xavier, podes passar-me os meus óculos escuros? Estão aí dentro do saco, num estojo preto…

Foi ao dar-lhe os óculos para a mão direita, que Luísa estendera sem desviar o olhar da estrada, que Francisco reparou na tatuagem. Na parte inferior do antebraço, junto ao pulso. Um símbolo. Impenetrável, mas estranhamente familiar.  

Espreitou, pela janela, a imensidão de gente que caminhava ao longo da estrada. Para o templo e de regresso. Homens e mulheres, de todas as idades. E crianças, muitas. Ao colo e pela mão. Pensou na mulher do sari cor de coral e na menina. Ainda estariam lá? Ou iriam também, estrada fora, naquela multidão? A mão pequenina na mão da mãe. Num sobressalto, lembrou-se! O pano que a mulher bordava. O seu pulso, que a repetição do gesto de passar a agulha e puxar a linha deixava entrever, tatuado. O pendente ao pescoço da menina, numa fita cor de coral. O símbolo. O mesmo que marcava o pulso de Luísa…

- Cá estamos

A clínica funcionava num conjunto de pavilhões brancos pré-fabricados. Tinha a toda a volta uma vedação de canas com uma trepadeira verde. Luísa parou o jeep junto do maior. Entraram. A sala de espera, ampla e luminosa, estava cheia. Havia crianças por todo o lado. Francisco via-as, através da parede de vidro do gabinete onde Luísa o deixara. E ouvia, apesar da porta fechada, a algazarra de vozes pequeninas que riam, choravam, tagarelavam e guinchavam. Pegou no telefone e marcou o número. 

Tinha prontas várias explicações e outras tantas desculpas, para tentar travar a rajada de recriminações, não totalmente imerecidas, com que sabia bem que ia ser recebido. Mas, mais que zangada, Catarina estava preocupada. E muito assustada.  

Desde que Francisco partira para Vaitheeswaram que um homem ligava insistentemente para o hotel, à sua procura. Catarina atendera-o várias vezes. A conversa era sempre a mesma: queria falar com Francisco, era urgente, important information, delicate issue. Não se identificava, nem deixava qualquer contacto. 

Depois, ao cair da tarde do dia anterior, fora entregue um envelope na recepção do hotel. Para Francisco. Por uma mulher de sari roxo, sem mais explicações. Catarina abrira-o, claro. Lá dentro, três fotografias antigas, com inscrições manuscritas no verso. E uma carta. Também antiga. Escrita em Malange, a 1 de Fevereiro de 1965.

- Queres que ta leia?

Francisco encostou-se para trás na cadeira e fechou os olhos. Do outro lado da linha, a voz de Catarina:

“Minha querida Susana”                                        

Comentários a “3 — Pretérito Imperfeito” (20)

  1. Orcama diz:

    Pretérito?… mais que perfeito!

    Gostei da introdução de África. O Folhetim mantém-se muito bom. A intriga adensa-se, os cenários multiplicam-se, a história ramifica-se. Todas as hipóteses de brilho e sucesso para o próximo Folhetim e para o seu Autor.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Joana, sou a favor da imperfeição e sobretudo nos romances. Parabéns. Temos um nome, Francisco. Um mito: um santo daqueles de que a Joana gosta. Temos três mulheres: Luísa, Catarina e Susana, seja Susana quem for, por exemplo, e dado que estamos em Malange, a filha de um soba. Bom e árduo trabalho a facilitar, muito, muito, a vida do heróico Gonçalo. Acho que em 4 dias sai e antecipadamente o 4º fascículo do Folhetim.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Ah, e ainda não li seguidinhos os 3 fascículos já publicados. É o que vou fazer agora.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Ó Joana e acha que eu, o mais desimaginativo dos fenecidos deste cemitério, sou capaz?!!!

  5. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Deslarga-se uma pessoa de casa para ir buscar o “take away” de belo sashimi e lailailai — buscar o levar, portanto– e quando regressa tem um Francisco Xavier, casado com uma Catarina, amigo duma Luísa, a ouvir ao telefone uma carta dirigida a uma Susana. The plot thickens…

    Vou copiar o nosso Manuel Fonseca e ler tudo de enfiada.

    (A despropósito MSF… fez o milagre da multiplicação? 5 impossíveis? 5?!)

  6. Joana Vasconcelos diz:

    MSF, eu estava a referir-me a pistaS, factoS Susceptíveis de Suscitar alguma Solução Sobre a enigmática Susana …

    Delicioso esse seu desimaginativo, se bem que aplicá-lo ao seu caso me pareça, como a notícia da morte de Mark Twain, greatly exaggerated…

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Joana, acha que o S de Sashimi é ums pista envenenada da Eugénia?

  8. Joana Vasconcelos diz:

    Manuel, não serei a pessoa mais idónea para me pronunciar sobre a relevante questão que suscita, visto que não adoro Sushis, Sachimis & afinS. Ou seja, não tenho o menor pejo em presumi-los Suspeitos, sem para tanto necessitar do menor indício.

    Seja como for, neste caso, e atendendo à prévia implicação da EV em todo o enredo, temo bem que sim. Mas eu preocupar-me-ia sobretudo com o lailailai …

  9. António Eça diz:

    Gostei imenso de tudo, particularmente da parábola do Caranguejo. Acho mesmo que a solução só pode passar por aí, uma espécie de fundamento moral entretecido…
    Mas só vou ler tudo junto no fim — que sou muito preguiçoso.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olá António Eça, ainda bem que gostou, de tudo e em especial do caranguejo… Sempre achei muita graça à lenda e adorei ver as mais extraordinárias representações, a maior parte muito antigas, do bicharoco, quando da Exposição dos 450 anos da morte do SFX na Cordoaria.

  10. CaranguejodeSãoFranciscoXavier diz:

    Vamos lá ver como é que saímos desta… Se calhar vai ter que ser para trás, como o caranguejo! :)

    • Joana Vasconcelos diz:

      Neste extraordinário blog só faltava mesmo aparecer um caranguejo virtual e lendário a fazer um comentário! Ei-lo!

      Os caranguejos já se sabe, andam para trás ou às voltas ou as duas coisas … com excepção do competentíssimo caranguejo do SFX que, resoluto saiu do mar, na direcção certa e sabendo bem o que fazia!

      Bom ânimo e boa sorte, pois, ó Caranguejo! Ad maior gloriam da nossa historiam! :)

  11. pedro marta santos diz:

    Estou distraído ou começa a desvelar-se um sentido romanesco?

  12. teresa conceição diz:

    Joana,

    que romance! que twist que lhe deu. Vinha tão tão curiosa para saber a continuação e diverti-me tanto a ler. Gosto tanto do baptismo do herói. E do caranguejo.

    E agora curiosa-mais: acabou-se a saga da escrita das elas do blog, agora é tudo com os eles.
    Por que caminho nos irão levar?

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olá, de novo, Teresa! Fico contente por ter gostado, do twist, do Xico Xavier e do caranguejo. Sabe que também estou preocupada com o rumo da história. Os caminhos, não duvido, serão ínvios e tortuosos. Cenas tórridas, adultérios, violência gratuita, futebol, mulheres nuas reclinadas e outras saídas dos quadros do Hopper. Provavelmente a acção irá deslocar-se para o Estádio da Luz. E no fim, o Manuel Serial Killer Fonseca vai matar imensa gente — e aposto que também o caranguejo, só de maldade …

  13. Teresa Conceição diz:

    Joana, não lhes dê ideias…
    o que me ri a pensar nessa maSculina Sequência de deSastreS!

  14. Orcama diz:

    Caríssimas e feminis Autoras,

    O Manuel é perfeitamente confiável. Não é ele capaz de urdir uma bela história mesmo desencantada no verso de uma secular foto emoldurada? Recordem…

    Quanto aos quadros de Hopper, a eles se refere J.L.Borges como” poemas silenciosos de uma cidade onde é sempre domingo e está a cair a tarde”… Deleitem-se…

    Quanto aos varonis Autores… deixem-se conduzir que não se arrependerão… no par do tango quem conduz é o “macho” (leia-se em espanholês)… Regalem-se…

    Quanto a um pouco de jindungo, outras especiarias e condimentos, pimenta de Cayenne, só apaladarão a narrativa… digo eu, que gosto da língua a arder… a garganta a refrescar e os olhos, bem…a deliciarem-se.

    Bem Hajam pelo que de Bom semearam, mas agora é que vai ser. Esperem só…

    PS. Quanto ao caranguejo, não garanto nada…Os africanos apreciam marisco, e muito…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Fugidio Orcama, que comenta, comenta e depois desaparece, o que se passa com a sua listinha de 5 impossíveis? Continuamos à espera, não pense que vai conseguir escapar…

      Quanto a este seu comentário, vou relevar grande parte do que nele afirma, à conta da sua pertença ao tenebroso Grupo do Jindungo. Apenas direi que me escapa por completo o que possa levar alguém — africano que seja — a querer comer um caranguejo com praticamente 500 anos… Mas adiante. Porque se mantém como meu padrinho e — nessa qualidade — justifica alguma benevolência da minha parte, aponto o facto de não ter rejubilado ante a perspectiva de a trama passar para o Estádio da Luz como motivo — ténue, é certo — para allguma esperança na sua redenção.

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