Pegou na mão da menina e olhou em volta. Os outros passageiros já se sentavam na berma, ao pé do autocarro manco. Sem pneu para mudar, esperariam horas por boleia como de costume. Na estrada apinhada para Vaitheeswaram só passavam camiões coroados de gente.
A sua sombra alta projectava-se agora de tamanho igual à da menina. E de outra sombra ao lado. Algo se desconcertou em si antes de olhar. Pressentiu-lhe a presença, tocou-o antes de o tocar o almíscar voante do tecido. A mulher tinha uma ferida na fronte. Não falaram enquanto ele apressou o curativo. O sangue estancou num silêncio sem peso. A mão pequenina já sem medo a segurar a cor do sari da mãe.
— We go Nadi Jyotisha.
Queria apressar a ida. Mas aqui o tempo é uma roda furada. Um calor abafado de esponja. O coral de um sari que se lhe acende em perturbação. Uma mão pequenina de olhos fundos. A distância mede-se em tempo, duas dezenas de quilómetros vão a compasso desta caravana de carroças de búfalos domésticos que agora passa. Sobem para o curto espaço livre de uma, e daí para a confusão ordenada do caminho ao longo do rio Kaveri. O fluir do rio imita a corrente de gente, festa de buzinas pó animais. Sorri para o intervalo do aviso pintado em pedra na estrada, letras negras destacadas na cal: “Go home in piece, not in pieces”.
Acomodações feitas nos arredores do templo de Vaitheeswaram, no dia seguinte seguem em trio na direcção do santuário, no rasto dos peregrinos. O templo ergue-se circular e em pirâmide para cima e para baixo, repetido na água do lago em volta. Palácio borboleta líquida.
Esperam na fila às portas da biblioteca do templo. Imaginou-a sem as cortinas espessas das paredes, uma biblioteca de água. Onde encerrados durante séculos viviam destinos escritos em folhas de palmeira. A impressa herança dos sete sábios. Milhares de mapas Nadi à espera durante séculos. Todas as vidas de todos os habitantes do mundo. Não, de todos não. Apenas as de quem os procurava.
Na extensa fila encostam-se no corredor de pedra casais jovens de mãos suadas, sentam-se no chão estudantes de calcanhares nervosos, velhos de cores indecisas. A menina compenetrada alinha pauzinhos de madeira, a mulher-mãe borda em pano outrora branco o início de um símbolo impenetrável.
Horas grossas, inteiras, até chegar a vez deles. Demanda de dias inteiros. Primeiro deixar a impressão digital do polegar direito, os homens, do esquerdo, as mulheres. Voltar no outro dia, mais indicações, regressar num dia outro. Entre o farnel de arroz seco repartido que elas comiam com os dedos sobre pão redondo e molho vermelho picante, sem nunca o seguir para um restaurante, os rajás que lhes comprava ao vendedor da carrinha rosa choque, as orações no templo ao deus Shiva observadas em burburinho de flores e incenso. E esperar nas sombras de outra noite e outra.
Os tambores do templo soaram o Kathakali durante toda a última noite. Assistiram ao espectáculo em frente ao lago. A menina dormia no colo de coral da mulher-mãe, a mão pequenina a segurar o cabelo molhado sobre a testa. A ternura sobre a testa. Ela sabia. Elas sabiam. E esse conhecimento unido intimidava-o e confortava-o. Sustentava-lhe a espera e a busca. A inquietação. A urdidura do tempo abria-se em sequências de coroas de círculos sobre a pele. Vidas antes de vidas ressoavam com eles nos tambores da noite, nas máscaras pintadas e nas saias rodopiantes dos dançarinos sobre a água, nesta boca de silêncios sem sorriso. Nesta.
Insónia de tambores até amanhecer. Às portas da biblioteca de água descalçam os sapatos, elas entram por uma porta, ele por outra. Três homens sentados esperam numa luz de poeira húmida. O guru Nadi, profissão e barba branca hereditárias, traz de um recanto de estantes escondidas sete maços de folhas de palmeira. Irmanadas por corda gasta, preservadas em óleo de sangue de pavão. Espalha-as sobre a mesa. Irá ler as folhas em cântico tamil, soprar a energia dos canais que respiram o tempo.
Camisa de linho bege empapada em suor, ele adia o corpo como antes de uma radiografia. O guru leitor das barbas não se apressa, ainda não tem certezas. Faz perguntas que o tradutor calvo transporta em inglês. Ao lado, o astrólogo consulente aguarda para comprovar se o mapa desenhado ali defronte é o do cliente. Falta confirmar iniciais de letras, esperar o último jogo sim ou não. “You have two sons?” Yes. “Your mother’s name begins with an S?” Yes. “Your father’s name begins with an A?” Yes. “Your name begins with an E?” No. Guru e astrólogo sussuram em dialecto, reviram as folhas dos sete maços, buscam. Alvoroço, abanam as cabeças, o tradutor em ponte: “Estes maços eram a nossa derradeira hipótese. As tuas folhas não estão nesta biblioteca. Mas sabemos onde podes encontrar o descendente de um dos sete sábios. É lá que está o que procuras”.
O guru leitor rabiscou a lápis duas palavras num canto de papel de embrulho. Deu-lho. Camisa beje em desalinho, ele levantou-se e decifrou lentamente cada letra. Estremeceu.
- Não pode ser.

















Borges tem um personagem que nunca se esquece de nada. Melhor, lembra-se de tudo. Começa por F, é Funes, o Memorioso. Será o personagem da Eugénia, que a Teresa tão bem pôs em demanda do próprio nome, um primo afastado (e esquecido) deste F que tudo lembra?
Levou o nosso homem até ao templo, deu-lhe companhia e mais estrada. E desenhou-o — o meu único protesto: não nos ter deixado ver mais dos seus desenhos. Mas ainda está em tempo.. eu queria. Não queria nada era ter de esperar para saber mais.
Joana, vai dar-lhe um nome? Dê-lhe um nome.
Gosto do nosso folhetim.
Eugénia,
estes desenhos são efémeros. São aguada de viochene, só existem enquanto estão molhados.
Fotografei-os nessa altura. Agora são uma pálida imagem do que eram.
Só os seus alfabetos permanecem, fiz como os copistas: recriei-os tal como os recolhi, sépia letra a letra, em folhas de palmeira vegetal.
Eugénia (1) e Teresa (2), diligente e aplicada, estive (3) a ler-vos e a reler-vos, tudo de seguida. Gostei, de novo, muito. É mais que provável que amanhã entre em pânico. Dizia-me a minha mãe, antes dos meus apavorados testes e orais, que era a melhor das inspirações. E era. Oxalá continue a sê-lo…
Joana,
o que lhe posso dizer é que além de apavorante é divertido.
Eu só conseguia fazer desenhos de água sem cor no início da semana,
e depois foram surgindo estes e a história afinal já estava escrita antes de mim, antes que eu desse conta.
Podia era ter-me calhado um escriba mais inspirado. Mas devo andar a arrastar um Karma antigo. Tenho de consultar mapas infindos para ser se desencalho um que escreva bonito:)
Ó Teresa, desculpe o meu português, mas karma antigo é o tanas! Se você não escreve bonito — e ainda por cima também desenha bonito! — então isto aqui em cima é o quê!? Ainda bem que se divertiu. E tão bem que divergiu. É que eu não estava nada a ver onde ia dar aquela estrada!
Gonçalo,
o bonito não é dar com a estrada, acho, é fazer a estrada sem solavancos (por isso é que continuei numa indiana, não se notaria tanto, esperava eu:).
E mesmo que isto seja um cadáver esquisito, fica melhor se não se distinguirem as bainhas e os remendos. E essa costura fina sei que nunca vou conseguir, não é um lamento, é só uma peninha.
Também tenho pena de não saber dançar. Ainda bem que o convite para este blog não foi para baile, porque eu ía à mesma só por achar divertido…e para ver bons dançarinos: o meu maior prazer aqui é ler-vos as valsas e os musicais e os suspiros e andar com tantas coisas boas e novas na cabeça.
Teresa, e o velho? Foi-se embora? Quanto aos desenhos: e só fotografou estes?
Gonçalo, obrigada por dizer que escrevi, como direi?, um beco sem saída!
Eugénia, tem toda a razão: o velho.
Deixei-o sentado na berma, comecei a achar que ele tinha tido um papel tão importante por impedir nosso herói de ficar sem o nariz amolgado logo no princípio da aventura que tive de o fazer descansar.
Agora estou aqui a roer-me.
Comecei a pensar nele, e a história fica logo outra se penso nele, a sorrir-lhe a falta de dentes, começa a fazer-me falta.
Não pode ser ontem outra vez?
Os desenhos:
fiz imensos, mas são todos variações sobre o mesmo tema, logo muito parecidos.
Dependem da mancha que se forma, demora tanto conseguir que uma se aproxime do desejado como que o desejo se aproxime da mancha. Logo, demoram muito.
Posso mostrar-lhe os outros, mas parecem-me todos piores que estes.
Ó Eugénia, eu é que não estava a ver a saída — nem era eu que a tinha que ver ainda… -, mas como disse a Teresa, ela estava lá e mostrou-se. Agora, depois dos tantos elogios que lhe tenho feito, ainda vem aqui pedir mais um?
Nenhum pedido, Gonçalo. Pensei que tinha desgostado tudo e estava a zangar-me um bocadinho.
Desgostado? Desgostado? E é possível desgostar?
Não é possível desgostar e que bom não ser possível.
Eu estou sempre à espera de mais umas linhas EV, que melhor sabe o dia depois:)
Aliás, sabe melhor depois de qualquer música, quadro, livro, poema, dislate, desabafo
que por aqui se descosam. Dão muito pano.
Tinha cor, agora também tem fio de costura. Vai ficar um traje apessoado, este folhetim.