AS MULHERES SÃO QUE SÃO
As mulheres têm ciúmes. Os homens também. Espelho. Do mesmo sentido e executado modo, ciúmes. E isso é bom e está bem feito porque regula amorosamente, através da encenação da posse, tu és meu, tu és minha, não sendo ninguém de quem quer que seja, os limites a partir dos quais se desfaz o eu no outro, o outro em nós, ou porque o nó cego, ou lasso, ou ignorado. Esta territorialidade — que é tanto coisa do corpo quanto do não substancial pensamento — não se limita a uma atenção ciosa de dois, um pelo outro, recaída sobre esses mesmos dois, de um sobre outro. Mas à verdade profunda de si mesma que vai para além da regulação do outro: é uma atenção auto reguladora com tanto de temor quanto de amor, tenho medo de te perder, por isso escolho-te, preterindo todas as outras possibilidades. É um jeito de dizer com decisões: amo-nos mais.
MAS, ÀS VEZES, NÃO
Quando a família ocupa o lugar devido ao casal, a posse deixa de ser a encenação da apropriação de um pelo outro, sustentada pelo desejo de um pelo outro, para passar a ser a vigilância sobre o investimento das horas, dos anos, no afecto, no património, nas relações. Não porque as mulheres gostem de ser polícias do casamento, mas porque é muito difícil criar os filhos para eles próprios e para o mundo, e preservar o casal no reduto amoroso matricial. Torna-se mais fácil, o tóxico: preservar os filhos no núcleo amoroso dos pais, lançar o amor de dois no mundo.
Os homens? Os homens não sei.


















Se entendi bem o que quiseste dizer — por vezes sou um bocadinho limitada! — concordo contigo: há mulheres que querem manter os seus casamentos (desfeitos) não em nome do amor que já não sentem por aquele homem (amor entendido como intimidade, confiança, partilha, proximidade, cumplicidade…) mas em nome do “título de propriedade” que julgam ter adquirido por força do casamento. Ah pois é!
Esqueci-me dos parêntesis: … do amor que (já não) sentem…
MJC,
Pretendia que a primeira parte fosse sobre a função reguladora, e auto reguladora, do ciúme, estas funções associadas à decisão da fidelidade, e de como o “amo-nos”, a nós, casal, é tão importante quanto o “amo-te” ou “amas-me” porque os inclui e vai para além deles. Coisa estruturante.
Na segunda, sobre a deslocação desse foco de atenção amorosa, do homem e do casal, para os filhos. A matriz do casamento é o casal. Subverter os papéis, fazer os filhos o centro da vida amorosa, é despojar o casamento do amor de dois, o homem de tudo o que está para além da paternidade e das responsabilidades familiares — o amor pelos filhos é outro amor. E sim, nesse caso, o ciúme, o bom ciúme, é substituído pela vigilância porque há consciência de uma falha profunda.