Francisco voltou-se para o intérprete. Tinha perguntas. Queria respostas. O que estava no papel era demasiado absurdo. Certamente um equívoco, fruto de tanta tradução, num e noutro sentido. Mas antes que pudesse dizer o que quer que fosse, o guru leitor começou a juntar e a empilhar as folhas de palmeira. As suas. Porque o eram, disso não tinha a menor dúvida. Cabeças baixas e vozes ainda mais baixas, o guru e o astrólogo conversavam entre si, como se ele já ali não estivesse. E o intérprete, impassível:
- You have to go, sir, no more for you here, sir
Saiu. Desconcertado. De papel na mão. E agora? A luz intensa do sol já alto, depois de horas naquela penumbra, era quase insuportável. Olhou à volta, em busca de uma sombra. Foi então que a viu.
Vinha na sua direcção. Decidida e apressada. Alta e esguia. O cabelo escuro e curto, ondulado e ligeiramente despenteado. Na mão direita, um saco enorme, castanho, cheio a abarrotar. Tal como sempre a conhecera e a recordava.
- Xavier, tens que vir comigo.
Xavier. Só ela o chamava assim. Desde aquela tarde, no bar do liceu. A propósito do seu segundo nome. Diferente, comentara alguém. Nome de santo viajante, dissera ela. Nome do meu avô, rematara ele. As meninas presentes acharam graça e começara a brincadeira do Xavier. Que se prolongara na faculdade, ante a profusão de Franciscos nas pautas. O nome pegara, nas sessões de estudo e nas saídas. Mas, depois, a vida a sério e o Francisco haviam levado a melhor. O Xavier subsistia apenas nos telefonemas e nos postais dela, que chegavam dos vários cantos do mundo. Cada vez mais espaçados. Sobretudo depois daquela noite, que ainda hoje Francisco evitava lembrar.
- Xavier, estás bem? Tens que vir, anda tudo à tua procura
- Luísa, o que é que estás aqui a fazer?
Vacinas. E consultas de pediatria. Numa clínica próxima, ao abrigo de um programa que envolvia várias ONG, entre as quais a sua. Estava ali há quase um ano, vinda de Goa e, antes, de Puducherry. Tudo isto lhe contou Luísa, enquanto conduzia o jeep no meio do trânsito caótico.
Antes, ainda no templo, começara por lhe explicar a razão da sua surpreendente presença.
- A tua mulher está numa aflição, há vários dias que não consegue falar contigo…
Acalmado o alarme inicial – “não, não aconteceu nada, os teus filhos estão bem” – Luísa relatou o pouco que sabia. Catarina ficara, conforme combinado, em Chennai. Estranhara a ausência de notícias de Francisco e tentara repetidamente ligar-lhe para o telemóvel. Em vão. Ao fim de dois dias, contactara a Embaixada e dera o alarme. Alguém do consulado de Goa ligara para a clínica, nessa manhã, a pedir ajuda para o localizar. Por coincidência, Luísa estava a observar uma criança, com sintomas de varicela. O avô, que a trouxera e à mãe, lembrava-se de um estrangeiro no autocarro vindo de Chidambaram, dias antes. Ia para o templo. Talvez ainda por lá estivesse. E oferecera-se para a acompanhar.
Francisco tirara o telemóvel da mochila. Não funcionava. Lembrava-se de ter enviado um sms a Catarina quando o autocarro partira. E de o ter apanhado do chão, na confusão que se seguira ao rebentamento do pneu. A verdade é que entre o acidentado percurso até ao templo e o estranho fascínio que por lá o envolvera, havia perdido toda e qualquer noção do tempo. Quatro dias? Seria possível?
- Estou sem telemóvel. Emprestas-me o teu?
- Não adianta, esta zona não tem rede, vamos ter que ir até à clínica e ligar de lá.
Caminhavam rumo à saída do recinto quando apareceu o homem. Era o seu companheiro do autocarro. Não pareceu surpreendido ao ver Francisco. Contente, sim. Fez-lhe o seu largo e inconfundível sorriso sem dentes. E dirigiu-se a Luísa, numa língua incompreensível, gesticulando e apontando para ele. Ela traduziu:
- Diz que o que aconteceu lá dentro é o teu karma. Ou então não era ainda a altura, tens que voltar, para saber… Mas tu, que tens o mesmo nome, lembra-te do caranguejo …
Francisco fitou-os, estupefacto. Nada daquilo fazia sentido. O homem desdentado. À sua procura, com Luísa. A comentar o que sucedera na biblioteca. E como sabia o seu nome? E que história era essa do caranguejo?
- Caranguejo?
- É o caranguejo de São Francisco Xavier, uma lenda muito antiga, aqui por estes lados.… Basicamente significa que às vezes é preciso perder primeiro, para encontrar depois …
O homem sorria. De súbito, fez um gesto de despedida e afastou-se, em passo ágil.
O jeep ora avançava lentamente, ora parava. Francisco fechou os olhos e encostou a cabeça à janela. Sentia-se exausto e incapaz de raciocinar ou reagir.
- Xavier, podes passar-me os meus óculos escuros? Estão aí dentro do saco, num estojo preto…
Foi ao dar-lhe os óculos para a mão direita, que Luísa estendera sem desviar o olhar da estrada, que Francisco reparou na tatuagem. Na parte inferior do antebraço, junto ao pulso. Um símbolo. Impenetrável, mas estranhamente familiar.
Espreitou, pela janela, a imensidão de gente que caminhava ao longo da estrada. Para o templo e de regresso. Homens e mulheres, de todas as idades. E crianças, muitas. Ao colo e pela mão. Pensou na mulher do sari cor de coral e na menina. Ainda estariam lá? Ou iriam também, estrada fora, naquela multidão? A mão pequenina na mão da mãe. Num sobressalto, lembrou-se! O pano que a mulher bordava. O seu pulso, que a repetição do gesto de passar a agulha e puxar a linha deixava entrever, tatuado. O pendente ao pescoço da menina, numa fita cor de coral. O símbolo. O mesmo que marcava o pulso de Luísa…
- Cá estamos
A clínica funcionava num conjunto de pavilhões brancos pré-fabricados. Tinha a toda a volta uma vedação de canas com uma trepadeira verde. Luísa parou o jeep junto do maior. Entraram. A sala de espera, ampla e luminosa, estava cheia. Havia crianças por todo o lado. Francisco via-as, através da parede de vidro do gabinete onde Luísa o deixara. E ouvia, apesar da porta fechada, a algazarra de vozes pequeninas que riam, choravam, tagarelavam e guinchavam. Pegou no telefone e marcou o número.
Tinha prontas várias explicações e outras tantas desculpas, para tentar travar a rajada de recriminações, não totalmente imerecidas, com que sabia bem que ia ser recebido. Mas, mais que zangada, Catarina estava preocupada. E muito assustada.
Desde que Francisco partira para Vaitheeswaram que um homem ligava insistentemente para o hotel, à sua procura. Catarina atendera-o várias vezes. A conversa era sempre a mesma: queria falar com Francisco, era urgente, important information, delicate issue. Não se identificava, nem deixava qualquer contacto.
Depois, ao cair da tarde do dia anterior, fora entregue um envelope na recepção do hotel. Para Francisco. Por uma mulher de sari roxo, sem mais explicações. Catarina abrira-o, claro. Lá dentro, três fotografias antigas, com inscrições manuscritas no verso. E uma carta. Também antiga. Escrita em Malange, a 1 de Fevereiro de 1965.
- Queres que ta leia?
Francisco encostou-se para trás na cadeira e fechou os olhos. Do outro lado da linha, a voz de Catarina:
“Minha querida Susana”





















O meu avô, Alberto Meirelles, em cuja imaginação vivia ainda a força de outros tempos, dizia, com a graça de que se lembram aqueles que o conheciam, que «dois terços da população portuguesa descendem do arcebispo de Braga; só que uns sabem-no – e podem prová-lo – e outros não.» Com esta afirmação expressava o orgulho próprio daquele que se sabe descendente de alguém que, exercendo com virtude heróica os poderes que historicamente lhe foram oferecidos, se tornou o fundador de uma família, de uma gente, de um povo, de uma nação, os quais a partir dele repetidamente se experimentam e reconhecem e por cujo legado se sentem honrados e são responsáveis. É neste sentido que, segundo creio, Portugal deve hoje recolocar-se perante a figura daquele que foi o maior dos seus heróis: Nuno Álvares Pereira.


















