Arquivo | Janeiro de 2010


folhetim 3 — Pretérito Imperfeito

Francisco voltou-se para o intérprete. Tinha perguntas. Queria respostas. O que estava no papel era demasiado absurdo. Certamente um equívoco, fruto de tanta tradução, num e noutro sentido. Mas antes que pudesse dizer o que quer que fosse, o guru leitor começou a juntar e a empilhar as folhas de palmeira. As suas. Porque o eram, disso não tinha a menor dúvida. Cabeças baixas e vozes ainda mais baixas, o guru e o astrólogo conversavam entre si, como se ele já ali não estivesse. E o intérprete, impassível:

- You have to go, sir, no more for you here, sir

Saiu. Desconcertado. De papel na mão. E agora? A luz intensa do sol já alto, depois de horas naquela penumbra, era quase insuportável. Olhou à volta, em busca de uma sombra. Foi então que a viu.

Vinha na sua direcção. Decidida e apressada. Alta e esguia. O cabelo escuro e curto, ondulado e ligeiramente despenteado. Na mão direita, um saco enorme, castanho, cheio a abarrotar. Tal como sempre a conhecera e a recordava.

- Xavier, tens que vir comigo.

Xavier. Só ela o chamava assim. Desde aquela tarde, no bar do liceu. A propósito do seu segundo nome. Diferente, comentara alguém. Nome de santo viajante, dissera ela. Nome do meu avô, rematara ele. As meninas presentes acharam graça e começara a brincadeira do Xavier. Que se prolongara na faculdade, ante a profusão de Franciscos nas pautas. O nome pegara, nas sessões de estudo e nas saídas. Mas, depois, a vida a sério e o Francisco haviam levado a melhor. O Xavier subsistia apenas nos telefonemas e nos postais dela, que chegavam dos vários cantos do mundo. Cada vez mais espaçados. Sobretudo depois daquela noite, que ainda hoje Francisco evitava lembrar.  

- Xavier, estás bem? Tens que vir, anda tudo à tua procura

- Luísa, o que é que estás aqui a fazer?

Vacinas. E consultas de pediatria. Numa clínica próxima, ao abrigo de um programa que envolvia várias ONG, entre as quais a sua. Estava ali há quase um ano, vinda de Goa e, antes, de Puducherry. Tudo isto lhe contou Luísa, enquanto conduzia o jeep no meio do trânsito caótico. 

Antes, ainda no templo, começara por lhe explicar a razão da sua surpreendente presença.

- A tua mulher está numa aflição, há vários dias que não consegue falar contigo…

Acalmado o alarme inicial – “não, não aconteceu nada, os teus filhos estão bem” – Luísa relatou o pouco que sabia. Catarina ficara, conforme combinado, em Chennai. Estranhara a ausência de notícias de Francisco e tentara repetidamente ligar-lhe para o telemóvel. Em vão. Ao fim de dois dias, contactara a Embaixada e dera o alarme. Alguém do consulado de Goa ligara para a clínica, nessa manhã, a pedir ajuda para o localizar. Por coincidência, Luísa estava a observar uma criança, com sintomas de varicela. O avô, que a trouxera e à mãe, lembrava-se de um estrangeiro no autocarro vindo de Chidambaram, dias antes. Ia para o templo. Talvez ainda por lá estivesse. E oferecera-se para a acompanhar.    

Francisco tirara o telemóvel da mochila. Não funcionava. Lembrava-se de ter enviado um sms a Catarina quando o autocarro partira. E de o ter apanhado do chão, na confusão que se seguira ao rebentamento do pneu. A verdade é que entre o acidentado percurso até ao templo e o estranho fascínio que por lá o envolvera, havia perdido toda e qualquer noção do tempo. Quatro dias? Seria possível?

- Estou sem telemóvel. Emprestas-me o teu?

- Não adianta, esta zona não tem rede, vamos ter que ir até à clínica e ligar de lá.

Caminhavam rumo à saída do recinto quando apareceu o homem. Era o seu companheiro do autocarro. Não pareceu surpreendido ao ver Francisco. Contente, sim. Fez-lhe o seu largo e inconfundível sorriso sem dentes. E dirigiu-se a Luísa, numa língua incompreensível, gesticulando e apontando para ele. Ela traduziu:  

- Diz que o que aconteceu lá dentro é o teu karma. Ou então não era ainda a altura, tens que voltar, para saber… Mas tu, que tens o mesmo nome, lembra-te do caranguejo … 

Francisco fitou-os, estupefacto. Nada daquilo fazia sentido. O homem desdentado. À sua procura, com Luísa. A comentar o que sucedera na biblioteca. E como sabia o seu nome? E que história era essa do caranguejo?

- Caranguejo?

- É o caranguejo de São Francisco Xavier, uma lenda muito antiga, aqui por estes lados.… Basicamente significa que às vezes é preciso perder primeiro, para encontrar depois …

O homem sorria. De súbito, fez um gesto de despedida e afastou-se, em passo ágil.

O jeep ora avançava lentamente, ora parava. Francisco fechou os olhos e encostou a cabeça à janela. Sentia-se exausto e incapaz de raciocinar ou reagir. 

- Xavier, podes passar-me os meus óculos escuros? Estão aí dentro do saco, num estojo preto…

Foi ao dar-lhe os óculos para a mão direita, que Luísa estendera sem desviar o olhar da estrada, que Francisco reparou na tatuagem. Na parte inferior do antebraço, junto ao pulso. Um símbolo. Impenetrável, mas estranhamente familiar.  

Espreitou, pela janela, a imensidão de gente que caminhava ao longo da estrada. Para o templo e de regresso. Homens e mulheres, de todas as idades. E crianças, muitas. Ao colo e pela mão. Pensou na mulher do sari cor de coral e na menina. Ainda estariam lá? Ou iriam também, estrada fora, naquela multidão? A mão pequenina na mão da mãe. Num sobressalto, lembrou-se! O pano que a mulher bordava. O seu pulso, que a repetição do gesto de passar a agulha e puxar a linha deixava entrever, tatuado. O pendente ao pescoço da menina, numa fita cor de coral. O símbolo. O mesmo que marcava o pulso de Luísa…

- Cá estamos

A clínica funcionava num conjunto de pavilhões brancos pré-fabricados. Tinha a toda a volta uma vedação de canas com uma trepadeira verde. Luísa parou o jeep junto do maior. Entraram. A sala de espera, ampla e luminosa, estava cheia. Havia crianças por todo o lado. Francisco via-as, através da parede de vidro do gabinete onde Luísa o deixara. E ouvia, apesar da porta fechada, a algazarra de vozes pequeninas que riam, choravam, tagarelavam e guinchavam. Pegou no telefone e marcou o número. 

Tinha prontas várias explicações e outras tantas desculpas, para tentar travar a rajada de recriminações, não totalmente imerecidas, com que sabia bem que ia ser recebido. Mas, mais que zangada, Catarina estava preocupada. E muito assustada.  

Desde que Francisco partira para Vaitheeswaram que um homem ligava insistentemente para o hotel, à sua procura. Catarina atendera-o várias vezes. A conversa era sempre a mesma: queria falar com Francisco, era urgente, important information, delicate issue. Não se identificava, nem deixava qualquer contacto. 

Depois, ao cair da tarde do dia anterior, fora entregue um envelope na recepção do hotel. Para Francisco. Por uma mulher de sari roxo, sem mais explicações. Catarina abrira-o, claro. Lá dentro, três fotografias antigas, com inscrições manuscritas no verso. E uma carta. Também antiga. Escrita em Malange, a 1 de Fevereiro de 1965.

- Queres que ta leia?

Francisco encostou-se para trás na cadeira e fechou os olhos. Do outro lado da linha, a voz de Catarina:

“Minha querida Susana”                                        

T minus 7 … and counting

Porque 1 de Fevereiro começa logo depois da meia-noite.

Porque o texto do terceiro episódio do nosso folhetim está pronto.

Comecei há minutos o countdown.

Gostaria que fosse ao som do In the Midnight Hour, na minha versão preferida, a dos Echo & the Bunnymen. Não consegui encontrar o vídeo. Porque faltam menos de 7 horas, e porque tudo se passou, até agora, do outro lado do mundo, talvez fizesse sentido o Seven Seas. Mas eu sempre gostei mais desta. 

Sem título


Agnes Martin, Untitled #8


“Nem vais dar por isso”. Preocupava-o apenas a bata ridícula que lhe deram a vestir e a possibilidade de proferir inconveniências durante a passagem pela anestesia. Acordou meia hora depois com a memória intacta do último instante em que ficou consciente. Esteve totalmente entregue e vulnerável, num estado tão nulo que nem chega a ser vazio, ou lugar, ou nada. Apenas tinha meia hora a menos. Deve ser por causa disto que  fizeram deus, porque isto não tem forma de ser. Há sempre uma enfermeira que fala por diminutivos a dispôr umas bolachinhas. “Daqui a uma semana tem o resultado do exame”.
Um dia lindo, fazia um frio quieto.
À noite, em casa, pôs-se a ler um conto de Teresa Veiga escutando Zoe Keating. Há misturas que não se fazem; são demasiadas vozes. Sem vontade de dormir, mas cheio de sono.
Ela vem a caminho.

Precisamos de dizê-lo

Há momentos assim, em que precisamos de dizê-lo. Mesmo que não tenhamos a quem dizê-lo. Ou que não saibamos dizê-lo ou como dizê-lo. E mesmo que aquela ou aquele a quem queremos dizê-lo não mereça ouvi-lo. Como Lisa (Joan Fontaine) o disse ao ingrato Stefan (Louis Jourdan) na mais bela carta de amor que o cinema alguma vez escreveu, pela mão daquela “desconhecida” de Max Ophuls. E precisamos de dizê-lo ainda que tenham já tenham passado cinquenta e três anos, sete meses e onze dias desde o primeiro momento em que precisámos de dizê-lo sem o conseguir, como o fiel Florentino Ariza o disse à eterna Fermina Daza naquele amor em tempos de cólera que Garcia Marquez fez resistir a toda uma vida feita, também, de desamores, de muitos desamores. E ainda que não saibamos se é amor aquilo que queremos que o seja, aquilo de nos deixarmos enamorar, quando já ninguém usa a palavra enamorar, por uma simples imagem reflectida numa janela. Numa janela de um comboio, naquele amor “sem apelidos e com nomes falsos” inventado por Jacinto Lucas Pires em Sombra e Luz. Ou numa janela de um computador, por uma imagem com aura de obra de arte, uma imagem tão bela que a nossa imaginação transforma na promessa de eternidade que o amor mais perfeito e indestrutível, o amor pela ideia de amor, comporta. Precisamos de o dizer sem saber porquê, apenas porque sim, e ainda que nos sintamos mais desconhecidos do que Lisa o era para Stefan.

E precisamos de o dizer com as palavras com que Cazuza e Bebel o disseram. Não necessariamente com a música com que as tornaram ainda mais encantadas. Mas sem rodeios, de uma forma tão infantil e lamechas que sintamos todo o peso do ridículo de que falava Pessoa a abater-se sobre as nossas palavras. Só assim saberemos que dissemos exactamente aquilo que precisávamos de dizer.

 

O Passeio de Santo António


Não sei exactamente quando. Não sei exactamente porquê. Mas sei bem que foi a minha avó, alfacinha de nascimento, limiana por casamento, que me deu a conhecer o mais ingénuo dos poemas do egitaniense Augusto Gil. Não que eu soubesse, na altura, que era poesia o que ela tão candidamente dizia. Muito menos poderia (ou quereria) saber que não saíam da sua imaginação aqueles versos declamados numa voz tão pequenina. Mas é sempre a minha avó, feita menina, que eu ouço  quando os ouço recitar assim:



Saíra Santo António do convento,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento,
Um cândido sermão sobre o pecado.
 
Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia,
Que vinha a noite plácida baixando…
 
E andando, andando, viu-se num outeiro,
Com árvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas, das puxadas.
 
Surpreendido por se ver tão longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge,
Com a resignação de quem é santo…
 
O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
O Menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.
 
Perto, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.
 
De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
Ele trazia… o coração no peito.
 
Sem suspeitarem de que alguém os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
- Ó Frei António, o que foi aquilo?…
 
O Santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
- Não sei o que fosse. Eu cá não ouvi nada…
 
Uma risada límpida, sonora,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
- Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
- Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho.
 
- Tu não estás com a cabeça boa…
Um passarinho a cantar assim!…
E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado, mas por fim,
 
Corado como as vestes dos cardeais,
Achou esta saída redentora:
- Se o Menino Jesus pergunta mais,
… Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!
 
Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou: — Jesus,
São horas.
E abalaram pró convento.

 

O impossível numa lista

Dali, sonho impossível

A ideia é tão boa que não podia ser minha. Descansem, não é mesmo. Foi a Eugénia a sugeri-la, com a timidez que só lhe desaparece quando começa a desfiar maldades nas inventariações do que as amadas devem fazer aos seus híbridos.
A ideia é: fazer a lista dos nossos desejos impossíveis. Não estamos a falar dos improváveis, como seja o caso de manter romance simultâneo e simultaneamente ardente com Keira Knightley, Marion Cottillard e, sempre, Michelle Pfeiffer. A sonhar, sonhemos os desejos impossíveis, os que fisicamente não são realizáveis.
Começo eu. E fica o desafio para os autores do É Tudo Gente Morta: façam a lista dos vossos impossíveis sonhos. Peçam o impossível, mas com regras: apenas 5 desejos impossíveis, traumatizados que estamos com a publicação das belíssimas mil trezentas e cinquenta e nove páginas da tese de Pedro Marta Santos sobre cineastas com nomes difíceis de recordar.
Chega de conversa. Pede-se aos autores (e aos nossos amáveis e pacientes comentadores, claro) que publiquem aqui as listas dos seus 5 desejos impossíveis. A minha:  

  1. Falar com Deus. Olhos nos olhos, uma conversa sobre o bem e o mal, com esclarecedor preâmbulo sobre o Nada e de como é que do Nada que Nada se faz Tudo pode ser feito (se é que alguma coisa se Fez e Algo existe).
  2. Ser a mosca que assistiu à tormentosa noite em que Van Gogh cortou a orelha. Imagino que teria voado do quarto de Rachel (suponho-a pulposa), seguido o holandês e Gauguin aos gritos pela rua até se terem fechado no mistério de que a casa de Arles é a guardiã muda e insensível.
  3. Ser a névoa dos olhos de Borges.  Perceber a cinza o mundo e o seu labirinto. Decifrar os ténues traços das formas: os rigores do branco e negro de um tabuleiro de xadrez, o vago amarelo do poderoso tigre de Bengala, o velado espelho de impossíveis reflexos.
  4.  Ser o Cristo na cruz. Saborear a majestade de tanto sofrimento, pensando: sou o salvador. E, em revolta, poder gritar ao Pai: Elohim, Elohim. Lama sabactâni.
  5. No último minuto salvar Joana d’Arc da fogueira. Levá-la depois a galope para o escondido castelo e, já salva, cabeça tão rapada como a da jean seberg, mostrar-lhe os mimos de um prosaico quotidiano, cafezinho da manhã juntos, ler os jornais diários, alguns abusos por baixo da mesa e tudo o mais que lhe evitasse a glória da beatificação e a chatice da santidade.
Um herói

Há dois dias que aqui ao lado está um herói. O Gonçalo cantou-o com uma força que foi buscar às “… profundezas do mais natural desejo humano.” Já devem ter lido todos. Eu li hoje e recomendo este Querido Morto… como se fosse preciso!

Por dentro

Que raça das piores de esqualo ostenta fauces tão grotescas, quatro filas de dentuças bem capazes de britar ossos e rasgar carnes?

Pois nada. São de uma menina de 10 anos normal à vista.

Tão estranhas as nossas entranhas.

2/3 too long

No pun intended, como dizem aqui os americanos, em relação ao longo post do PMS.

Através de um Espelho, Obscuramente: o Cinema de M. Haneke e M. Night Shyamalan

Vestindo a pele do lobo (perdão, do Gonçalo) a propósito de “As Flores do Mal”, de Pedro Baudelaire Norton e sua trapezista do Mal, Eugénia de Lai Vasconcelos, venho lembrar a primeira Epístola de S. Paulo aos Coríntios, mais precisamente 1 Coríntios 13:12, verso da língua dos homens e dos anjos:

 


“Lady in the Water”, M. Night Shym., 2006


Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face.

 


“Caché”, Michael Haneke, 2005


 

 

 

 

Through a glass, darkly, ou: o que vemos não é mais que figura baça no cristal.

E voltamos aos reflexos, às imagens, aos enigmas, de cá e para lá dos espelhos.

Os cinemas do norte-americano Manoj Nelliyattu Shyamalan (nascido em Mahé, na Índia) e do austríaco Michael Haneke (nascido em Munique, na Alemanha) são tão diferentes um do outro que se unem como faces da mesma moeda. Um, o de Shyamalan, procura o Sagrado na condição humana, e acaba sempre por encontrá-lo. O outro, o de Haneke, questiona a ausência desse Sagrado, e acaba sempre por confirmá-la.
São dois lados do mesmo espelho — Manoj está do lado visível, o de cá, Michael do lado oculto, o de lá — e, nesse específico propósito, há poucos realizadores contemporâneos mais interessantes (Ferrara, Park Chan-wook, Kim Ki-duk) e importantes (Rivette, Scorsese, von Trier) do que este improvável par. Ambos têm preocupações teleológicas, inversamente proporcionais. Ambos lançam perguntas em busca do que Eliade chamava das Numinose — a essência do humano.


As respostas são diametralmente diferentes: a numinosa essência é, afinal, luminosa em Shyamalan (e daí parte da irritação que provoca), a numinosa essência é, afinal, ominosa em Haneke (e daí parte da irritação que suscita).

Shyamalan é um cristão devoto pela presença de Deus, com uns pozinhos de hinduísmo ancestral e animismo efabulatório que por vezes são interpretados como inclinação para a ligeireza, mas nunca lhe falta a coerência, e o seu modus operandi é o optimismo, essa esperança ao fim das grandes travessias — a travessia pela perda de um avô (o Grandpa Beal de Robert Loggia em “Wide Awake”, 1996), a perda de mulher e filhos (a Anna Crowe de Olivia Williams em ” The Sixth Sense”, 1999), a perda de um casamento (entre o David Dunn de Bruce Willis e a Audrey Dunn de Robin Wright Penn em “Unbreakable”, 2000), a perda de mulher, novamente (a Colleen Hess de Patricia Kalember em “Signs”, 2002), a perda de mulher, filhos, parentes, sentido moral (os habitantes de “The Village”, 2004), a perda de mulher e filhos, outra vez (o Cleveland Heep de Paul Giamatti em “Lady in the Lake”, 2006), a perda da família, ainda e sempre (a Jess de Ashlyn Sanchez em “The Happening”, 2008).

“Signs”

 

 

Haneke é um ateu enfurecido, com uma amargura pela ausência de Deus que por vezes é interpretada como inclinação para a violência gratuita, mas nunca lhe falta a coerência, e o seu modus operandi é o pessimismo, essa renúncia à esperança no fim das grandes travessias. O seu é também um território de perda — a perda de equilíbrio familiar (Birgit Doll, Dieter Berner e Leni Tanzer em “Der Siebente Kontinent”, 1989), a perda da irredutível segurança do lar (Suzanne Lothar e Ulrich Muhe em “Funny Games”, 1997), a perda da capacidade de comunicação entre religiões, etnias, continentes (Juliette Binoche, Alexandre Hamidi et al em “Code Inconnu: Récit incomplet de divers voyages”, 2000), a perda do Eu (Isabelle Huppert em “La Pianiste”, 2001), a perda de capacidade para lidar com a memória (Daniel Auteil em “Caché”, 2005).

“Code Inconnu”

“Funny Games”

Todo o cinema de M. Night Shyamalan é uma demanda da santidade pelos caminhos da crença.

Todo o cinema de M. Haneke é uma renúncia à santidade pelos caminhos seculares.

Como em Spielberg (seja sob a forma do fantasma materno de um andróide, de uma nave-mãe alienígena ou da força espiritual de uma escrava libertada), Deus é nuclear no universo ético de Shyamalan pela força última da Sua presença. Como em Fritz Lang (seja sob a forma da marcha inexorável do Destino ou da marcha de um homem rumo ao linchamento), Deus é nuclear no universo ético de Haneke pela força última da Sua ausência.

Entre ambos, ficam os nórdicos: Bergman, o ateu que não cria em Deus mas acreditava na força metafísica da interrogação individual e das crises da conjugalidade; Dreyer, o protestante que não acreditava em Deus mas gostaria de acreditar (e que Shyamalan cita, directa e indirectamente, em “Signs” ou “The Village”); von Trier, o católico que acredita em Deus embora não encontre razões para o fazer, torturando-se e torturando as suas personagens (com quem Haneke tem em comum o patrulhamento das fronteiras da moralidade, nesses terrenos minados entre o mundo da Natureza e as nações da Cultura).

Chamar simplista ou esquemático a Shyamalan é, na minha opinião, a mesma coisa que chamar simplista e esquemático a Perrault, La Fontaine ou aos irmãos Grimm (sendo os últimos mais complexos e, digamos, mais perversos  do que os anteriores). Shyamalan tem a força elementar mas calculadamente perturbada dos bons narradores americanos, e a sua suposta “imagem de marca”, o twist climático — como diria Leonor Silveira no único achado de “Inquietude” de Oliveira — c’ est un détail: afinal, os grandes contos morais são sempre arquetípicos, e os arquétipos alimentam-se das verdades comuns e adquiridas.
É verdade que, por vezes, as suas imagens se tornam unidimensionais (embora as tenha vindo a refinar de filme para filme, desde o “raio de luz” que, literalmente, abre o espírito do herói adolescente de “Wide Awake”). Mas os signos de Shyamalan mantêm-se unidos pelo mito e são cinzelados na universalidade: a água como elemento de cisão e reunificação (é a água que salva Mel Gibson e a sua família em “Signs”, é a água que une os habitantes de “The Village”, é a água que mais aflige Bruce Willis em “Unbreakable”, é da água que vive Bryce Dallas Howard em “Lady in the Water”)."Lady in the Water"

As cores verde, amarelo e cinzento são xamãs puros, salvíficos (o casaco e o capuz de Bryce Dallas Howard em “The Village”, o casaco e o capuz de Bruce Willis em “Unbreakable”, as guelras de Bryce em “Lady in the Water”); o vermelho aparece como súbito feitiço maligno (aqueles que não se nomeiam em “The Village”, os anúncios nocturnos da morte em “The Sixth Sense”); aumenta a utilização de linhas perpendiculares como enquadramentos dentro do próprio plano, usualmente em forma de cruz (encontrámo-los com abundância em todos os filmes de Shyamalan, desde o primeiro, “Losing Faith”).

Não é coincidência que todos esses signos, de ressonância universal, se encontrem no cinema do realizador favorito de Shyamalan, outro cineasta católico (cuja trave-mestra narrativa, assentando na ausência de Deus, se aproxima, paradoxalmente, mais de Haneke): o senhor Alfred Hitchcock.

E regressamos ao jogo de espelhos, através de dois elementos de base conceptual, ambos com tradução plástica e dramática, no epicentro do trabalho de M. Shyamalan e de M. Haneke: a Imagem Reflectida 

Abigail Breslin em “Signs”

e as Crianças.

Lá é, aí está: Through a glass, darkly, ou como prossegue a Primeira Epístola paulista aos Coríntios

Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança, discorria como criança. Mas quando cheguei a homem, acabei com as coisas de criança.

“Le Temps du Loup”

Na cuidada radiografia pós-moderna de Haneke, onde o torpor do Ocidente é subitamente interrompido pela electricidade da violência, logo se regressando ao cocooning (“Comfortably Numb”, como cantam Waters & Gilmour), o hiper-mediatismo só serve para acelerar a destruição do Sagrado (entendido não como magistério religioso – Haneke detesta as religiões – mas como possível farol moral, interior). Surgem as imagens nas câmaras, a perscrutar ou a reflectir o regresso da Civilização à barbárie de onde, afinal, nunca saiu: Benny, um miúdo enfiado numa cave, imerso em computadores e VCRs, mata a adolescente que convida até casa “para saber qual é a sensação”, mas só consegue olhar para o assassinato que cometeu através da gravação vídeo onde registou o evento: a partir daí, repete-a incessantemente (“Benny’s Video”, 1992); a ausência de imagens pré-gravadas ou registadas no mundo pós-apocalíptico e “amoral” de “Le Temps du Loup”, 2003 (um mundo extremamente parecido com o do recente “The Road” de John Hillcoat, baseado no livro de um provável “amigo americano” de Haneke, Cormac McCarthy); a câmara de vídeo utilizada pelos assassinos de “Funny Games”,

culminando na importância capital do que se grava, rebobina, vigia, apaga no voyeurismo autofágico, esmagador, de “Caché”.

Para Haneke, o diagnóstico é claro: o Homem é incapaz de renunciar à sua condição bestial, suportada pelo instinto, e a cultura é uma capa fina, transparente, que não tapa o horror nem abriga do frio que a solidão existencial traz consigo. Assim, as crianças são o símbolo máximo dessa perversidade irredutível, que escapa mesmo às análises psicanalíticas, aproximando-se do nihilismo (há também quem fale de Kierkegaard, outro nórdico, a propósito de Haneke): Benny, o psicopata Benny, não passa de um adolescente; os meninos de “Das weisse Band — eine deutsche Kindergeschichte” (“O Laço Branco — uma História Alemã para Crianças”, na tradução literal) são miúdos, na aparência, de alma tão alva como a neve que os deveria serenar;

“Das weisse Band”

Há crianças a pegar em armas em quase todos os filmes de Haneke:

a espingarda do filho do casal abusado em “Funny Games”

o machado  na mão do enigma infantil de “Caché”

 

 

quanto a “Le Temps du Loup”, é um manual rápido de aprendizagem da violência pelos mais novos.

 

Já em Shyamalan, as imagens reflectidas afastam-se das câmaras mas concentram-se nos vidros, nos espelhos, no manto das águas, nas superfícies côncavas, servindo de salvação a cores para o inter-negativo de Haneke:

é graças ao reflexo do extraterrestre no televisor que Mel Gibson salva os filhos em “Signs”.

William Hurt congratula-se por não haver espelhos em “The Village”; Bruce Willis salva o miúdo no final de “Unbreakable” porque vê, ainda e sempre, o REFLEXO do violador e assassino escondido no quarto; Bryce Dallas Howard usa os espelhos para se questionar e perceber o mundo dos homens em “Lady in The Water”; Samuel L. Jackson, o nemesis de Wilis em “Unbreakable”, é quase sempre visto, não directamente, mas através da sua imagem reflectida – quando nasce é, uma vez mais, o reflexo num televisor que denuncia a sua singularidade.

“The Sixth Sense”

As crianças de Shyamalan, essas, têm a função inversa à das crianças de Haneke: símbolo máximo de inocência, são elas que asseguram a recuperação do equilíbrio na ordem natural das coisas: de Haley Joel Osment em “The Sixth Sense” (1999) a Ashlyn Sanchez em “The Happening” (2008), passando pela menina-mulher de “The Village” — a quintessência das personagens segundo Shyamalan -, todos surgem como derradeira esperança.

Curiosamente, tanto Shyamalan como Haneke acreditam na força tranquila do plano fixo e na verdade emocional do grande plano. Nenhum deles aprecia o travelling, e ambos raramente recorrem à diegética do contracampo.

Em Haneke, a violência só pode renunciar totalmente à exploração do espectador quando evita o recurso à montagem, prolongando-se no realismo da acção contínua, sem cortes (a degolação de “Caché”, o inaugural tiro na cabeça de “Le Temps du Loup”, a auto-mutilação genital de “La Pianiste”) ou persistindo fora de campo, apenas se ouvindo o som da suas consequências, em off (a agonia do pai em “Funny Games”, o assassinato de “Benny’s Video”).

Em Shyamalan, força e verdade surgem em movimentos horizontais no mesmo plano, alterando-se o enquadramento mas nunca se mudando de perspectiva (nesse sentido, é o oposto da expectativa maravilhada do contracampo, tão habitual noutro dos realizadores predilectos de Shyamalan, Spielberg) .

“Caché”, ou o eterno ressentimento

Nas regiões inóspitas do cinema das últimas duas décadas, pobres como o Sahara em tâmaras maduras e vinhos refrescantes (em comparação, até os anos 80 parecem as bodas de Canaan), “Caché” de Michael Haneke – para mim, o melhor filme europeu do século XXI, ponto – e “The Village” de M. Night Shyamalan – um dos filmes mágicos da América do Norte de todas as épocas, parágrafo – são oásis de inteligência e sensibilidade, oásis onde ainda existe sombra para ganhar coragem e partir, descalço, na improvável busca do Sagrado.

No fim, como S. Paulo conclui, resta apenas o amor: no universo de M. Night Shyamalan, o amor é a única salvação possível; no mundo de M. Haneke, nem o amor permite a salvação.

Mas não existem estes dois olhares desde que nos olhamos? 

Nun´Álvares Pereira

O meu avô, Alberto Meirelles, em cuja imaginação vivia ainda a força de outros tempos, dizia, com a graça de que se lembram aqueles que o conheciam, que «dois terços da população portuguesa descendem do arcebispo de Braga; só que uns sabem-no – e podem prová-lo – e outros não.» Com esta afirmação expressava o orgulho próprio daquele que se sabe descendente de alguém que, exercendo com virtude heróica os poderes que historicamente lhe foram oferecidos, se tornou o fundador de uma família, de uma gente, de um povo, de uma nação, os quais a partir dele repetidamente se experimentam e reconhecem e por cujo legado se sentem honrados e são responsáveis. É neste sentido que, segundo creio, Portugal deve hoje recolocar-se perante a figura daquele que foi o maior dos seus heróis: Nuno Álvares Pereira.
Neto paterno de D. Gonçalo Pereira – o arcebispo de que falava o meu avô –, Nun´Álvares foi um dos filhos mais novos dos 32 que teve D. Álvaro Gonçalves Pereira, prior da Ordem do Hospital e homem poderosíssimo no seu tempo. Com apenas 13 anos, na corte de D. Fernando, destacando-se numa surtida feita contra os castelhanos, foi armado cavaleiro, espírito no qual fora educado e pelo qual se regia. Após a morte do rei, assumiu-se abertamente contra a sucessão do rei de Castela, que favorecia o papa herético, apoiando decididamente o partido do mestre de Aviz. Separando-se dos seus irmãos – e de grande parte da nobreza –, combateu com D. João por um Portugal português, abrindo com a sua espada o caminho até Coimbra, em cujas cortes o mestre, sob a pena de João das Regras, foi então aclamado rei. No dia seguinte, em Coimbra, foi Nun´Álvares nomeado para o cargo de condestável, no qual em inúmeras batalhas haveria de ser sempre invencido.
Nos longos anos que passaram até que se garantisse a paz, e sobretudo depois da morte de D. Beatriz, sua filha, sentia cada vez mais forte o chamamento que há muito o instava a retirar-se do mundo. Acabou por fazê-lo, mais tarde, para o convento que construíra em Lisboa, no alto do monte da pedreira, em contraponto ao castelo, distribuindo então os seus bens pelos netos e familiares. Um ano depois tornou-se professo dessa mesma Ordem do Carmo, à qual fez doação da propriedade do convento, e passou a viver mendigando, orando e fustigando o corpo, para salvação não só da sua, mas de todas as boas almas. Morreu oito anos depois, num domingo, que era de Páscoa, com auréola de santidade.
É evidente que Nun´Álvares não é um homem do nosso tempo, perante o qual o sentido da sua vida tem, de algum modo, que ser explicado. O nosso tempo, porém, é avesso à existência dos heróis, em cuja força virtuosa e diferenciadora não reconhece a inspiração da liberdade, mas apenas a arbitrariedade do poder. Hoje, com efeito, a ignorância e a apatia instituídas servem apenas a manutenção da indiferença, a qual nos é ideologicamente imposta pelos poderes que, aberta ou dissimuladamente, cada vez mais nos dominam. Do comunismo e do fascismo ao politicamente correcto e ao fim da história, passando pela abstenção e pela realpolitik, tudo se concerta, à nossa volta, num combate sistemático a toda a pertença vertical que interiormente nos anime no seio de uma sociedade que, absolutamente governada por uma racionalidade tecnicamente determinada, se pretende, tão-somente, desmoralizada e horizontal.
O único resquício do herói que teimosamente emerge ainda das profundezas do mais natural desejo humano é a quase cómica figura dos mediáticos super-heróis: seres absolutamente imaginários, sem qualquer fundamento histórico, cujo carácter moral surge a partir da boa utilização que decidem – ou não – fazer dos seus extraordinários poderes físicos. O verdadeiro herói, no entanto, é exactamente o contrário: é o personagem de uma história dramática, à qual, pela virtude do seu carácter, dá um sentido inteiramente novo. Com efeito, é a partir de uma força moral extraordinária que nele surge um poder físico que antes, na verdade, não tinha: um poder inspirado, mais que humano, divino… dado num homem que, afinal, é tão mortal como nós. Por isso, na língua latina – e na grega, de onde a palavra provém –, o herói é um semi-deus: alguém que, entre o humano e o divino, inspira os homens, na sua história, a caminharem para além de si.
Ora, a história do Portugal renascido cedo reconheceu em Nun´Álvares o homem predestinado à tarefa de espiritualizar Portugal. Desde a Crónica do Condestável – pouco depois da sua morte escrita por um autor que ficou anónimo – que, na consciência do nosso povo, se mostrou clara a ideia de que Nun´Álvares nascera imbuído de uma missão divina: por isso nasceu no dia que era de S. João Baptista, sinal de que prepararia a chegada do reino de Aviz; por isso o oráculo astrológico, perante o qual o seu pai exultou, vaticinou a invencibilidade do menino recém-nascido; por isso o alfageme de Santarém lhe fez e entregou a espada com que haveria de abrir o caminho do misterioso ser português; por isso os portugueses se transcendiam ao ver-se na sua presença, enquanto os castelhanos estremeciam ao vê-lo, ao longe, chegar, pois nele ambos reconheciam a força da mão do Senhor; por isso, cumprida a tarefa de interiormente erguer Portugal, se desfez de tudo o que tinha, unindo, pela devoção, os reis e os homens do povo; por isso, nas romarias, espontâneas, até ao seu túmulo, os portugueses experimentaram tantos milagres e alegrias.
Hoje, porém, perdeu-se a crença num destino para Portugal. Entre um passado de que não se lembra e um futuro em que não acredita, o nosso povo está à deriva, sem prumo, sem rumo e sem história. Não há ideal que o motive, nem desgraça que o transforme. Não espera, nem desespera: existe – sem ser português. Ora, é nas alturas de crise que Nun´Álvares surge entre nós, lembrando, àqueles que somos, aqueles que podemos ser. Foi assim em Aljubarrota; foi assim na Restauração; foi assim na conturbação que entre nós antecedeu a República… e é assim, uma vez mais, no tempo que hoje vivemos, pois que Roma, ao reconhecê-lo santo, nos dá a possibilidade de nos lembrarmos de nós mesmos na figura do nosso herói.
Voltemo-nos, pois, para as ruínas do Convento por ele subido, marcas desse terramoto de uma modernidade que veio de fora, e reparemos como, imponente, permanece sublime o templo, erguido naquele monte onde não poderia erguer-se. Três vezes os seus alicerces tiveram que refazer-se, pois que o monte, resvaladiço, não era dado àquela empresa. Caindo os muros, porém, não se desistiu da obra, antes se foi sempre mais fundo, para melhor sustentá-la. E é assim que nos tristes restos em que se vê o que hoje somos, se pode admirar a presença do que fomos e podemos ser: um povo desnecessário, feito a partir de si mesmo, de vontade generosa e inteligência interior, cuja história de coragem em terra branda e amena o fez capaz de pôr de acordo os dons eternos de Deus com a liberdade humana.
Nas ruínas do convento vive o espírito de Nun´Álvares, cuja voz, se nós a ouvirmos, grita contra a indiferença que, disfarçada, sempre espreita, ameaçando Portugal. Foi assim que nas magníficas bodas que uniram a infanta D. Beatriz ao rei D. João de Castela, morrendo D. Fernando em Almada e, com ele, Portugal, Nun´Álvares deitou por terra a mesa das iguarias, com estrondo lembrando aos senhores, que tomavam os seus lugares, que se eles ali estavam era em nome de algo maior. A afirmação da nacionalidade fundada na presença espiritual do herói nunca implicará, no entanto, qualquer risco de imperialismo, já que a relação do herói com os outros é eminentemente moral. O herói é o que vai à frente, desbravando corajosamente o caminho, que as gentes, acreditando, se acostumam a caminhar. O que os une é o caminho, no qual a fé encurta a distância que os separa no peregrinar: o povo, acreditando no herói, chegará a acreditar em si mesmo; o herói, acreditando em si, chegará a acreditar no povo.
Desde pequeno, com efeito, que as leituras de cavalaria inspiraram em Nun´Álvares o desejo de ser, entre nós, um novíssimo Galaaz, com cuja pureza e coragem assumiria a predestinada tarefa de, primeiro, reformar Portugal, e, depois, ser levado aos céus. Jovem que era, no entanto, queria ser herói para si, forçando os próprios combates que haveria de travar e querendo controlar o tempo em que, intacto, se haveria de dar. Toda a sua vida, porém, pode bem caracterizar-se por um contínuo despojamento de todas as coisas do mundo, com o qual heroicamente assumiu as batalhas não escolhidas, às quais se entregou inteiro e cada vez mais para os outros. Assim reergueu Portugal, ao qual completamente se deu, acabando, descalço, em Lisboa, mendigando pela cidade, na qual pedia por todos os homens e já não só pelos portugueses.
O herói, na verdade, tendo esta relação com um povo ao qual concretamente se dá, é ao mesmo tempo arquetípico e, de algum modo, universal, descobrindo, com a sua vida, a realidade pressentida por todos. Nun´Álvares, neste sentido, foi o precursor das descobertas que na Península se fizeram sobre a emergência de um mundo novo – e que as nossas universidades, que bem as compreenderam, um século e meio mais tarde comunicaram ao mundo, que só em parte as quis saber. Falamos da separação entre o poder temporal e o espiritual, que apenas indirectamente deve influir sobre o primeiro; falamos da afirmação da dignidade individual, fundada na liberdade com que o ser se instaura a si mesmo; e falamos na defesa da verdadeira democracia, enquanto único regime que é dado por direito natural e pela qual o povo se assume responsável pelo seu destino. De tudo isto Nun´Álvares foi já o anunciador: anúncio que ficou incompleto numa história que ficou por fazer.
Acabarei, por isso, com aquela exortação (Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto IV, §§ 18 e 19), que, «com palavras mais duras que elegantes», Nun´Álvares dirige ainda à adormecida alma portuguesa:

«Rei tendes tal, que se o valor tiverdes
Igual ao Rei que agora alevantastes,
Desbaratareis tudo o que quiserdes,
Quanto mais a quem já desbaratastes.
E se com isto enfim vos não moverdes
Do penetrante medo que tomastes,
Atai as mãos a vosso vão receio,
Que eu só resistirei ao jugo alheio.
Eu só com meus vassalos, e com esta
(E dizendo isto arranca meia espada)
Defenderei da força dura e infesta
A terra nunca de outrem sojugada.
Em virtude do Rei, da pátria mesta,
Da lealdade já por vós negada,
Vencerei (não só estes adversários)
Mas quantos a meu Rei forem contrários.»

In VV.AA., Nuno Álvares Pereira: Homem, Herói e Santo, Ed. Universidade Lusíada/Ordem do Carmo em Portugal, Lisboa, 2009, págs. 101–105

Gonçalo Pistacchini Moita

Viajar sem sair do mesmo lugar *

* - para a EV quando me acha embirrento

Giorgio Morandi, Natureza morta (vaso azul), 1920

Giorgio Morandi não viveu apartado das ideias e dos movimentos da pintura do seu tempo. Vivia, isso sim, fora das peripécias da vida quotidiana.
Durante os estudos académicos, na fase em que os jovens são euforicamente epígonos na descoberta do novo, estudou com atenção as composições de Cézanne e de Piero Della Francesca.  Sabendo o que veio depois, pode dizer-se que eram já as naturezas mortas e uma pintura de planos a chamar por Morandi.
Conheceu os futuristas e com eles expôs na Espozione Libera Futurista Internazionale de 1914, ao lado de Balla e do grande Marinetti. Algum respeito ou pelo menos atenção, deve ter Morandi alcançado junto deles para poder pendurar as suas telas ao pé das de gente tão sobranceira e selectiva.
Na fase seguinte, Morandi associou-se à scuola metafisica, encabeçada por De Chirico. Se bem que o movimento tivesse sido fundado em 1917, só em 1919 Morandi se encontrou com De Chirico em Roma, data a partir da qual os trabalhos daquele se aproximaram um pouco dos propósitos líricos deste. A escola foi dispersa em 1920 e Morandi não se deteve nela.
Depois, em 1926, participa na grande exposição do grupo Novecento, muito ligado ao novel Estado fascista. Todavia, ninguém deixou de reparar que as telas de Morandi contrastava de um modo abissal com a grandiloquência e o fervor nacionalista dos restantes trabalhos.
A partir daqui nunca mais se viu Morandi alinhado, embora também não haja prova de que andasse distraído.
O ponto é este: Morandi não desmente uma das leis empíricas mais constantes (logo verdadeiras?) da pintura: que um artista se faz em escola, movimento ou grupo, fora dos quais não há arte. Até o intratável Van Gogh tinha como melhor, se não único, amigo o pintor Gaughin.

Giorgio Morandi, Natureza morta, 1946

Mas sendo certo que Morandi via, aprendia, aderia, e até se deixava ver, não menos seguro será afirmar que terá sido o grande anacoreta de todos os pintores que participaram no frutuoso século XX.
Viveu sempre em Bolonha, e desde a morte do pai em 1933, sempre na mesma casa com sua mãe e suas três irmãs, e sempre no mesmo quarto onde dormia e pintava.
A primeira vez que Morandi requereu um passaporte foi aos 66 anos, em 1956, para atender a uma retrospectiva sua perto de Zurique, aproveitando, no mesmo passo, para apreciar uma grande mostra sobre Cézanne, o mestre mais querido.
Teve leves empregos, quase sinecuras, como, por exemplo, o de inspector escolar, que lhe forneciam bons motivos para não sair do solitário quarto, trabalhando horas a fio, a pintar interminavelmente os mesmos objectos, numa estreita paleta de cores.
Na sua vida minimal, Giorgio Morandi não recusou os movimentos do século, mas não se moveu com eles. Não se afastou das coisas, mas ficou quieto no mesmo lugar.
O estilo de Morandi progrediu pouquíssimo e evoluiu nada. Raras vezes se afastou de pintar frascos e tijelas, muito apertados no centro da tela, repletos de vazio à volta. Na infinita monotonia dos seus dias, Giorgio Morandi recomeçava em cada tela o princípio da sua pintura.
E nunca se repetiu.

Giorgio Morandi, Natureza morta, 1962